9.27.2013

Um castelo feito de pedras soltas.... Diários de Idanha (2ª Parte)

Já vai longe o fim das férias, mas não me esqueci de fechar os diários que abri durante esse período. Foi um mês de agosto de aventuras non-stop e momentos de rara beleza, sobretudo pelos locais em que passei. Mas isso já passou e fica agora apenas a lição que sobressaiu por estes dias.
 
As dinâmicas e organismos vivos que ajudamos a fazer nascer e que nos fazem crescer (como são o grupo de amigos, as associações de que fazemos parte, as relações humanas que nos preenchem, entre outras) são castelos de pedras soltas.
 
Todos os dias imaginamos quando vai acabar o que de bom temos e demorou tanto tempo a construir. Partimos do principio real de que nada é eterno e que de alguma forma ou de outra, nos iremos perder no labirinto do destino que invariavelmente nos levará à perda... Não fujo a este labirinto, muito pelo contrário.... mas os castelos de pedras soltas que ajudei a erguer levaram-me ao engano pelo melhor dos motivos.... nenhuma das pedra que se soltou  fez cair o castelo, apenas permitiu o espaço suficiente para que uma nova pedra, mais robusta e mais forte, ocupasse o seu lugar... permitindo um castelo cada vez maior e real...

8.14.2013

Os Diários de Idanha - Iº Parte - Ser monumental...

Chegada ao passado...

O passado pode ser perigoso se visto de uma forma turva e estanque. Podemos perder-nos em memórias de trevas ou deixar-mo-nos trair por um aquário de boas sensações. 

Antes de chegar a Idanha-à-nova (por onde descanso por estes dias...) parei na Vila da Feira para recordar as paredes imponentes do seu castelo e os rostos gastos das suas masmorras. Olho para a nossa memória como um castelo em que cada uma das suas divisões representa parte do que fomos com uma janela apontada ao infinito do que podemos ser. Entrar na Raia (zona pela qual é conhecida esta zona do Parque Natural do Tejo Internacional) é entrar numa história de paisagens intermináveis, num horizonte de plenitude de azinheiras e alguns sobreiros devidamente alinhados num jogo de cores pálidas mas monumentais. Parando o carro é possível ouvir o silêncio, contemplar o tempo a parar sem que qualquer carro passe durante mais de 10 minutos. Por estes dias vou viajar pelo passado, regressando ao futuro por entre castelos, ruínas e lendas de futuro.





A lenda de Monsanto...

A arqueologia diz-nos que o local foi habitado pelos romanos, no sopé do monte. Também existem vestígios da passagem visigótica e árabe. Os mouros seriam derrotados por D. Afonso Henriques e, em 1165, o lugar de Monsanto foi doado à Ordem dos Templários que sob orientações de Gualdim Pais, que mandou construir o Castelo de Monsanto. Os Templários foram uma Ordem mítica que entre outras lendas foram os protetores do Santo Graal. 

Mas referências históricas e arqueológicas à parte, Monsanto, mais que a aldeia mais portuguesa de Portugal (designação pela qual é conhecida), é uma viagem a um filme épico que deveria ser obrigatório ver ainda no 1º ciclo do ensino básico. 

Já partilhei com vocês que para mim a nossa memória é como um castelo em que cada uma das suas divisões representa parte do que fomos com uma janela apontada ao infinito do que podemos ser. Quando vi Machu Pichu (antiga cidade inca) pela primeira vez senti que os meus demónios e insatisfações encontravam naquelas ruínas o refúgio para pernoitarem longe do raio de horizonte que me entrava por uma fenda a apontar para o amanhã. Mas assim não foi. Nem sempre temos o que procuramos. Hoje, nas ruínas da antiga fortaleza templária, consegui completar esse exercício. Se vai resultar ou não, só o horizonte o poderá responder.

Para além do dia memorável, Mosanto proporciona-nos o sentimento que ainda não vimos nada, sobretudo se nunca cá tinham vindo antes. Não há nada de mais perfeito que acabar uma tarde de calor (38 graus) a beber uma cidra bem gelada vendo do topo o mundo como companhia. Até amanhã...





7.21.2013

Os dias do Cavaleiro: Quando o mundo já não nos chega (Livro Tempo)


Um grande pensador, que nunca assinou o seu nome ou passado, ainda do tempo da velha era, que alguns especulam ter sido um sanguinário conquistador, talvez um dos que fez cair a velha era, deixou o seguinte escrito: “Com a ajuda do Céu venci um império enorme. Mas a minha vida era muito curta para alcançar a conquista do mundo. Essa tarefa foi deixada para os que vêm a seguir a mim.”

Todos os Mestre recordavam aos seus aprendizes estas palavras por um simples motivo: todos chegávamos ao dia em que o mundo já não nos chegava; todos chegávamos ao dia em que almejávamos a novidade, porque a singularidade do presente já não era suficiente; todos nos deixávamos levar pelo momento em que a montanha mais alta era apenas mais um instante antes da montanha que era ainda maior, tudo porque achávamos que um desafio superior, que não sabíamos definir, nos chamava algures num vazio desconcertante que não conseguíamos controlar.

A este sentimento os nossos Mestre chamavam de soberba. Ele aparecia entre retalhos mal preparados do nosso ser e rendilhado de sobranceria, fazendo-nos esquecer o dom da humildade, da simplicidade, tornando-nos seres altivos e arrogantes, porque nada do que vivíamos era suficiente para alimentar o nosso “eu”.

A este respeito Mestre Ely deixou-me a mais valiosa das lições:
- Quem não souber perder nunca, estará preparado para vencer; quem não for capaz da simplicidade das pequenas tarefas, nunca estará preparado para a dureza das grandes. Quem não souber apreciar o sorriso gasto da sua mãe, nunca saberá realmente o que é sorrir; quem não for feliz a recordar o primeiro livro que leu até à última página, nunca estará preparado para aprender novas línguas…

5.04.2013

Do Túmulo ao Ritual

Há um momento decisivo na vida de cada um de nós que nos marca para sempre de forma diferente de todos os outros. Enquanto vos contei as minhas histórias falei-vos de algumas dezenas destes momentos, mas este que vos conto agora é sobre o compromisso inadiável, de dogma, do olhar para a frente sem nunca voltar para trás. 

Já vos contei que sou Mestre Aprendiz da Ordem dos Cavaleiros do Poder e que o meu símbolo é o Dragão de Fogo. Mas ficou por contar como tudo aconteceu. Na Ordem dos Cavaleiros do Poder chamamos ao momento em que somos entronizados como Mestre Aprendizes e nos marcam com o nosso símbolo como o Ritual dos Símbolos. Para lá chegarmos devemos passar pelo derradeiro caminho da redenção, mas sobretudo por uma prova que nos surge no ponto ar. Para os mais distraídos, só para recordar, o caminho da redenção tem sempre quatro pontos distintos: o ponto terra onde iniciamos a caminhada; o ponto água onde nos vemos perante nós mesmos; o ponto ar onde finalmente buscamos a aceitação do que é e não do que desejávamos que fosse; e por fim o ponto fogo onde firmamos o nosso compromisso com o nosso tempo e o tempo dos outros. 

É entre os pontos ar e fogo que surge a prova do Túmulo, um exercício de insanidade mental que nos faz perguntar onde realmente deveríamos estar e torna claro se estamos predispostos a assumir o lugar de Mestres Aprendizes e dessa forma passar a influenciar a vida dos outros e dos seus. 

Mestra Caelum levou-me para Ethérnia até uma velha cabana perdida atrás de uma velha ermida abandonada. À espera estava Blua, companheira da Ordem dos Cavaleiros do Poder que praticava o velho culto do Dragão Azul. 

Os praticantes do velho culto do Dragão Azul são cavaleiros com o poder da hipersensibilidade, conhecidos pela capacidade que têm de fazer os outros revelarem os seus verdadeiros demónios, mesmo aos cavaleiros mais fortes e preparados. Eu e Blua já nos conhecíamos à algumas épocas anuais, tinha sido eu a treiná-la nas artes da sobrevivência em locais inóspitos e nas artes do combate com espada. Pensava que sabia o que me esperava, mas Mestra Caelum havia-me ensinado que o Túmulo não é um caminho, é um abismo. Escalá-lo é a superação final rumo ao potencial que tencionamos ser. 

Fui fechado na velha cabana com Blua. E ela confrontou-me: 

- Então és tu o meu Túmulo? 

- Como? – questionei surpreendido. 

- Muito bem… estou pronta para perceber o que me trouxe até aqui… - continuou Blua, pensando que a minha pergunta era parte daquela encenação obtusa. 

Naquele momento fiquei também eu confuso. Não estaria também ela a testar o meu momento e a minha integridade. Nestes momentos somos ensinados a não ter preconceitos e a aproveitar o que de melhor a situação nos pode dar. Então eu continuei: 

- E o que te trouxe até aqui Blua?- perguntei. 

- Disseste no último dia que treinamos perto das Lagoas de Ribra que o nosso caminho havia acabado naquele momento. Disse-te que não aceitava, que não percebia. E agora, aqui estás… para me lembrares que o caminho acabou. Que tive de te perder, que vou continuar a perder quem gosto… que vou continuar a caminhar, a conquistar, a amar só para voltar a perder mais à frente. Dizias-me que o nosso caminho era esse, que esse era o teu caminho…… Então porque voltaste? Para me lembrares que tenho de te perder outras vez quando nunca me deste a oportunidade de continuar. – argumentou com a voz gasta como se lhe faltasse o fôlego para se fazer perceber a ela própria. 

Fiquei petrificado, agarrado ao chão sem me conseguir mexer. Esperava ouvir tudo, menos o passado que tudo fizera para esquecer. Sempre me refugiei na minha ausência para não ter que sofrer com a ausência dos outros. Blua tinha sido um desses casos. Tinha-me ligado aos seus olhos, à forma como pronunciava os poemas que escrevia e à forma como sorria desligada do horizonte. Como sabia que não poderíamos continuar a caminhar, havia preferido dar à ausência a resposta para não sofrer. Mas o meu Túmulo trouxe-me aquele abismo de volta. 

- Não voltei, foi o meu Ritual que me trouxe. És o caminho que me falta percorrer antes de receber o meu símbolo. Agora percebo porquê. – retorqui ansioso e tentando não mostrar que estava a falir emocionalmente. 

- Então é isso que sou, mais uma etapa? – perguntou-me num berro furioso agarrando-me pelo pescoço. 

- Não, não o és… eu é que sou a ausência da etapa… o que não existe do caminho. Somos finitos na existência e não sabemos como lidar com isso. Somos imperfeitos a lidar com o futuro e com o medo da distância da ternura que nos liga, da felicidade que nos fez ter lugar…. não quis lidar com a tua ausência, com o futuro sem te ver a ver o horizonte…. por isso parti…. sabia que tinha de ser assim… - respondi com uma dor aguda no peito correspondendo ao seu agarrar com um abraço. 

Paramos durante horas a conversar, choramos de forma ruidosa e perdemos a noção de onde estávamos. Não sei com que sentimento Blua saiu daquele momento de insanidade, mas imagino. Eu, por minha vez, aceitei que vou continuar a fazer da ausência a fuga para o meu “finito”, para a incapacidade que tenho para não saber lidar com a ausência de quem me marcou o caminho. O Túmulo recordou-me como é duro perder, como é sofrer pelo caminho a dois que sabemos que é efémero. 

Somos limitados, somos finitos, transitórios e passageiros. Isso não limita a nossa capacidade de sonhar, amar e subir ao topo da montanha, mas lembra-nos como o caminho é difícil e nós imperfeitos. E é bom ser imperfeito, porque é isso que nos dá uma nova razão para voltar a sonhar… 

Depois do Túmulo avancei com Mestra Caelum para o meu Ritual dos Símbolos e cumprir a suprema honra de ser o Mestre Dragão de Fogo.

3.06.2013

A Crença (mais uma parte do livro Tempo)


Mizegui Takasugui, Mestre Guardador de Sonhos, foi espécie de anjo da guarda durante muitos anos. Apesar termos quase a mesma idade, Mestre Mizegui já era Mestre Aprendiz em Iniciação muito antes de eu mesmo ser Companheiro da Ordem dos Cavaleiros do Poder. Era fora do normal, descendente direto de um dos predestinados do novo início. E ao contrário de muitos outros descendentes diretos que viviam na sombra da sua herança, ele era especial, e de fato um predestinado. Não era o mais sábio dos Mestres na arte do combate, muito menos o mais audaz dos Mestres na arte do domínio dos saberes ocultos. Ele era, apesar da tenra idade, o melhor na arte de interpretar os sonhos, na capacidade de ouvir o coração escondido pela alma corrompida pelo tempo. 

Em tempos, em conversa nas Montanhas de Endai, já com o por do Sol como horizonte perguntava-me: 

- Já alguma vez ouviste o teu coração encoberto pela alma agastada pelo tempo? 

- Sim. Quando fiz o meu primeiro caminho da redenção, enquando tentava perceber qual a parcela do meu ser que me contaminava. – respondi intrigado. 

- E a que resposta chegaste? – voltou a questionar. 

- Que a vida pode mudar num sopro. Que sem percebermos somos dominados pela falta de alento e num ápice de ligeireza e devaneio nos voltamos a perder. – voltei a responder. 

- E como é que fizeste frente a essa resposta, meu bom amigo? – voltou a perguntar mas desta vez olhos nos olhos. 

- Acho que ainda hoje tenho dificuldades em perceber esta resposta. Quando me perco, gosto de acreditar que o tempo do amanhã acabará na sua sabedoria por acalmar os intentos da minha perdição. – respondi alinhado com a sua visão. 

- Que nome dás a esse amanhã? – voltou a interrogar 

- Boa pergunta. Nunca pensei realmente nisso … - retorqui. 

Correspondendo ao meu desabafo, colocou-me a mão no ombro direito, voltou os olhos para o Sol a acabar de se pôr e compartilhou estas palavras que me perseguem até hoje: 

- Sabes, meu bom amigo, esse amanhã é a crença. É a esperança que depositamos nos objetivos que nos definem, é um porquê que questionado se limita a ele próprio, é a causa que existe para existirmos. E quando já não há ontem nem hoje, há a crença, e essa só existe no amanhã. 

Depois disto, Mizegui puxou uma cópia do Livro dos Elementos que traz constantemente consigo e partilhou um dos seus códices poéticos redigido pelo seu antepassado: 

A inconsequência da minha mente 
O azar de ser humano 
O odor das palavras que não disse 
Continuam a ser remoinhos fechados, 
Remoinhos fechados na não exatidão da minha crença. 
Absolvo-me no entretanto do crer de todos 
Nos trópicos de latitudes enganadoras 
E nos fados de neblinas sumptuosas e recíprocas. 

Assumo a fé própria de estar algures no celeste, 
Assumo a crença que me é susceptível de não estar algures na neblina, 
Assumo nas entrelinhas da noite a fé que não vagueia nos algures 
E que sem querer entender onde desperta o seu poder 
Tento ressuscitar no acaso de ser humano. 

Pelo caminho, 
Quero ser, persistir, 
Subsistir nos celestes e neblinas do meu fantasma 
Sem o talvez de sombras e noites xenófobas 
Sem a inconsequência da minha quase mente. 

A fé que exerço não é a minha crença 
Nem o meu sarcófago lendário de que furto alento, 
É a saudação de um acaso humano 
Arrebatado no presságio de não ser vão e vazio... 

Observo-me neste oco e deserto espelho, 
Na orbe que o retém 
E que um dia evocarei de refúgio 
Na sagrada noite de sombras de aposento. 

Neste momento percebo, 
A fé que exerço é a aura da Fénix da minha alma e mente, 
A fé que exerço é a natureza de um ser bizarro, 
É a peregrinação que faço em busca da minha nobreza, 
Em busca do equilíbrio 
Da inconsequência da mente...

11.02.2012

Gosto de acreditar que todos estamos dimensionados para o bem (livro Tempo)



Gosto de acreditar que todos estamos dimensionados para o bem, aliás por estas eras acreditamos que o homem nasceu predisposto para o bem. Acreditamos que mesmo os que vivem à margem da sua própria natureza estão predispostos para o bem e que cabe a cada um de nós, nobres cavaleiros imperfeitos, criar os campos de oportunidades suficientes para cada um poder concretizar todo o seu potencial orientado para a bondade e promoção do bem comum.

O mundo como cada um de nós o conhece está para além do subjetivo, chega a ser absurdo a forma como o vemos, sobretudo quando nos damos ao trabalho de partilhar a nossa opinião com o universo em redor. Tudo que o eu digo é assimilado e entendido de forma absolutamente distinta por cada um dos que me ouve. Cada um absorve, subverte e rentabiliza a informação de forma diferente, com uma intensidade diferente, numa perspetiva diferente. Por isso também a forma como vemos o bem  subverte-nos. Uma decisão imponderada, uma abordagem diferente do real que nos envolve pode ser assimilada e compreendida como ato de maldade.

No Império de Gaia, regido pelo Livro dos Elementos, somos ensinados acreditar que o bem é um fluxo energético constante que habita em todos os seres humanos, centrado na sua aura e que um dia alguém registou em palavras como sendo "o poder do coração".

Duvido muitas vezes desta ideia, mas não duvido da intenção cega que a mesma pretende guardar "que cada ser humano merece um novo começo, independentemente do caminho que um dia escolheu para se perder…"

8.14.2012

Tempo - Os dias de Milénia - Cap. I - Faço hoje 33 anos


Ano de 3980, faço hoje 33 anos, não sei muito bem que dia é, nem o mês, mas pelo calor deve ser a estação a que os antigos chamavam de Verão. Nos dias que correm limitámo-nos a contar os dias da época anual (consagrada como tendo 365 dias), eu nasci no dia 114 pela manhã noturna. Hoje faço 33 existências num mundo sem memória que recupera ninguém sabe muito bem de quê.

Vivo em Ethérnia, um pequeno vilarejo ancestral, sede feudal da região. Sou sozinho, os meus pais vivem aqui perto, a minha irmã migrou para a região de Bahar onde vive em família com o seu esposo.

Por estes dias estou em Milénia Centrum, ilha mãe do arquipélago de Milénia, também rezadas como as ilhas do descanso eterno dos Deuses. Milénia Centrum é uma espécie de capital espiritual do Império de Gaia, que une as muitas centenas das regiões livres conhecidas. Todas as épocas anuais este número de regiões aumenta, assim que o Homem descobre novas regiões que desconhecia.

Estou em Milénia em retiro, como o tenho feito em todas as épocas anuais desde que assumi as minhas funções de Mestre Aprendiz na Ordem dos Cavaleiros do Poder. Para além de Milénia ser a minha casa espiritual, ela é ao mesmo tempo o refúgio de muitas histórias intemporais, de aventuras que ficaram por viver e onde estive mais próximo de perceber o que os nós, seres humanos, chamamos de "Amor".

Apesar de estar em retiro não estou sozinho, vim com alguns Mestres Aprendizes iniciais e alguns candidatos a aprendizes de Mestre. Na Ordem dos Cavaleiros do Poder começamos como candidatos a aprendizes, evoluímos para Aprendizes e por fim Companheiros. Depois alguns de nós seguem o caminho de Mestre, sentem que para continuarem o seu percurso têm de devolver e multiplicar parte do que lhes foi dado. Começamos como Mestre Aprendizes em iniciação, passamos por Mestres aprendizes em confirmação e por fim Mestres Aprendizes. A palavra aprendiz segue-nos sempre porque como nos conta a lenda que deu origem à Ordem dos Cavaleiros do Poder: " o Mestre que perdeu a capacidade de aprender já não tem mais nada a ensinar". Alguns de nós seguem depois o que chamamos de "caminho simbólico" e tornam-se em Mestres Simbólicos, protetores de um saber maior, só ao alcance de alguns.

Mas voltando a Milénia Centrum e ao "Amor", nestes estranhos tempos procuro desvendar o seu mistério, a sua energia, insistindo em inutilidades para perceber onde reside o meu erro ou a minha certeza. Quero perceber se amo o meu ego, os que me rodeiam, a minha família, o que faço ou uma construção de imagens todas elas irreais, ou, na pior das coincidências, nada de nada, sendo eu mesmo um vazio nos vazios que gerei e me rodeiam. Pelo meio das minhas dúvidas, mantenho o meu trabalho de reflexão, meditação e contemplação junto dos meus Mestres Aprendizes em iniciação e dos seus Aprendizes, tentando viver sem pressas, respeitando o tempo imaterial. Aprendi que não vale a pena apressar o ritmo do Universo, mesmo que a realidade assim o determine. Desvendar o essencial apenas se revela quando estamos disponíveis para sermos o que ainda não somos, deixando verter parte da água que encheu o nosso cálice. (continua...)



7.17.2012

Os 4 elementos nas coincidências do amor...


Somos o produto dos quatro elementos,
Somos a elevação de nós mesmos,
A ação que nos ocorre quando fugimos do acaso.
Somos água
Quando mergulhamos na alma,
Somos terra
Sempre que percebemos o destino,
Somos ar
Quando existimos na vida dos outros,
Somos fogo quando percebemos o amor.
Viajamos da água para o mar
Quando a alma se transcende,
Transformamos a terra em montanha
Quando escalamos além do destino,
Calibramos o ar para vento
Quando a vida dos outros se desafia na nossa,
Do fogo forjamos o metal
Quando o amor é incondicional...

Dos quatro elementos ativos partimos,
Dos quatro elementos transcendemos,
No quinto elemento existimos,
No fim do caminho,
Finalmente acreditámos.

Pelo menos,
Eu quero um dia acreditar
Que fui mais sem menosprezar o menos,
Que alinhei
Logo depois de ter desertado,
Que fui capaz de amar
Logo depois de ter desesperado.
Sermos o que somos já não chega,
De onde viemos e de onde partimos
São agora memórias de devaneio.
Para onde vamos,
A disciplina que abraçamos,
O mapa que desenhamos,
São apenas coincidências
Que escondem o que realmente amamos...


7.08.2012

O Caderno de Encargos Simbólico... (atualização)

O ser humano tem a tendência para se auto deteriorar e ritualizar-se numa busca obstinada por meandros mesquinhos, egoístas que o destroem e violam a sua integridade. O divertido e rebuscado da situação é que boa parte das vezes o ser humano tem plena consciência da sua insanidade, mas insiste porque é imperfeito, fraco e "humano".

Mas o melhor de ser humano é poder errar e traduzir esse erro numa oportunidade. Ainda neste seguimento vi e ouvi por estes dias, num desses filmes ridículos que têm uma ou duas frases de oportunidade, uma filosofia interessante: "não existem erros, apenas um caminho que te levou a um determinado destino...".

Mas voltando ao que hoje me traz aqui, tenho a plena consciência do que me deteriora diariamente e me faz ritualizar os meus devaneios. Temos direito a vivê-los enquanto nos testamos e aprendemos o caminho do TEMPO, mas não podemos eternizá-los, eles podem-nos tornar obsessivos e fazer com que nos percamos na nossa própria irregularidade. Não estou a afirmar que deixemos de ser irregulares, estou apenas a relembrar (nomeadamente a mim próprio) que nada é tão bom que não acabe ou se deteriore, nem nada é tão mau que não possa melhorar ou mudar de sentido.

Hoje tirei alguns minutos para contemplar uma pequena capela em Famalicão, e qual não foi o meu espanto quando me dou no meio de uma cerimónia ortodoxa num templo cristão. Era um ambiente estranho, e eu era uma estranha e pálida presença por entre os presentes. Mas não deixa de ser assombroso que é mesmo assim que me sinto diariamente, um estranho num mundo de estranhos que me estranham e se estranham.... por breves minutos entrei em astral (momento em que o nosso ser simbólico viaja para além da nossa carcaça) e fiz daquele banal e estranho momento uma ponte para a minha nova casa. Desenhei pela primeira vez, e de uma forma clara, o que acredito ser "um caderno de encargos simbólico". Não, não estou a falar de mais uma "troika económica", falo de estabelecermos metas existenciais e significantes que nos permitem alimentar o espírito inconformado e elevarmos o nosso nível existencial, simbólico e cósmico.

Determinei para mim próprio um caderno de encargos muito exigente, que exige inclusive austeridade, mas ao contrário da austeridade atual, é realista e de prazos credíveis.
Metas obrigatórias:
- Dizem que um homem deve escrever um livro, plantar uma árvore e formar família... não entro nestas máximas, mas escrever sempre foi uma prioridade, por isso escrever a poesia e prosa que guardo à imensos anos e me fazem têm entre 12 a 24 meses para verem a luz do dia e vou chamar-lhe, intitulá-lo TEMPO...
- Quero ver a Acrópole do Cavaleiro Cosmos (visitar a Grécia), caminhar e profanar o meu local de Batismo (mergulhar na Lagoa do Fogo em São Miguel, Açores) e subir Machu Picchu (Perú) no espaço de 12 a 24 meses
- Pretendo aprofundar, melhorar e conhecer melhor os laços simbólicos que estruturam a minha família sem qualquer barreira temporal que o determine
- Pretendo ver TEMPO (total livro que idealizo) interpretado e apunhalado por seres humanos reais e com quem respiro diariamente (os meus formandos e formandas), juntando a este objetivo o compromisso de continuar a ser feliz no que faço (ser professor animador) o máximo de tempo possível
- Por fim deixo cair os devaneios capitais, prometo-me a espiritualidade simbólica de quem acredita num caminho longo, com percalços e erros que não deixarão de existir, mas com TEMPO.

Espero bem ser capaz de dar voz e corpo a estes compromissos e ao maior de todos que me obrigou a pensar em todos estes... termino com a proposta de um exercício de simbologia que todos devem tentar, crentes ou não crentes..... façam uma viagem curta com a pessoa mais significativa do momento (nem sempre é a pessoa que amam ou mais gostam, muitas vezes é aquela pessoa que mais luz traz à vossa noite de penumbra), procurem uma viagem noturna de céu limpo e um local que permita uma contemplação do horizonte e do imenso celeste (por exemplo a praia com céu limpo à noite ou um declive num topo de montanha também à noite), permitam um acompanhamento sonoro relevante e sereno (a música contemplativa permite acalmar a mente e faz fluir o pensamento), por fim tracem o caminho do passado e do presente, partilhem-no com quem vos acompanha, ouçam o que ela/ele tem para vos dizer, ouçam-se a vocês mesmos e determinem metas significativas para o futuro, como esta espécie de caderno de encargos simbólico que acabei de exercitar. Têm é de ser reais e com limites temporais claros.

O exercício é tão básico que todos perceberão que, em alguma altura, já o fizeram, o que tenho a certeza, é que não têm consciência da dimensão simbólica de cada um dos passos que descrevi, mas isso fica para outra viagem com letras. Hoje começo a construir a minha nova casa... para começarem a desenhar o vosso caderno de encargos simbólico desafio-vos a queimar uma nota de pelo menos €20 euros.... porquê??? experimentem e perceberão...

6.21.2012

Alguém vai deixar de ter tempo para existir...

Trabalho è 12 anos, mais coisa menos coisa, nunca tive de ficar de baixa médica e raramente faltei. A maior parte dos meus anos de labuta têm sido uma benção e, ano após ano, têm sido magníficas as surpresas que um ano traz após o outro. Refiro-me sobretudo aos últimos seis anos, desde que sou professor. Cada novo ano é uma rotina completamente nova, um desafio inesperado e um combate sem tréguas que não nos permite adormecer nem passar ao lado do que temos de ser.

Ao longo dos anos pus em prática as mais variadas metodologias e pedagogias, investindo numa dupla perspetiva de afetividade e autoridade, num ambiente de pedagogia partcipativa. Se os resultados pedagógicos, académicos e humanos foram sempre recompensadores, o mesmo não se pode dizer do real que circunda a vida do professor, sobretudo nos últimos 3 anos.

Antes de continuar importa deixar claro que considero um privilégio ser professor e que esta profissão ainda é , nos contornos atuais de crise, a mais recompensadora e humanamente respeitada. Mas como dizia, nos últimos 3 anos temos vindo a passar por mudanças, ditas estruturais, em nome de um bem maior, a chamada qualidade da prática educativa. Primeiro foi Bolonha nas Universidades e Politécnicos, depois os cortes cegos no Ensino Básico e Secundário, sobretudo nas Escolas com contrato de Associação, e por fim o fim das Novas Oportunidades. Pelo meio, em média, cada professor perdeu cerca de 30% do seu rendimento. Todos nós sabemos, balelas à parte, tudo é feito porque não há dinheiro, não me venham com eficiência e eficácia, porque quem hoje tem emprego na Educação em Portugal, é escravo, quem não o tem é vítima. Só sei que trabalho cada vez mais e ganho cada vez menos. Não está em causa que nos tinhamos de reorganizar, mas a verdade é que depois das sucessivas reformas, os professors deixaram de ter tempo para estar com os alunos, as escolas, espaços de socialização e democracia partcipativa, estão a tornar-se espaços de ocupação de tempos livres onde os jovens aproveitam para verificar algumas matérias e conteúdos. Em vez de alunos, docentes e discentes motivados temos um conjunto de pessoas a aturarem-se sem perspetivas e vitimas da quantidade (30 alunos por turma é uma irracionalidade).

Por fim apelam à nossa participação cívica e eu pergunto, se nem tempo tenho para existir, vou participar em quê e com que tempo... e para quem me conhece estou envolvido ativamente em 8 associações... Eu falei apenas do ensino, mas isto alastra a todos os setores da vida social, embora com realidades e vivências distintas..... no meio de tudo isto.... Alguém vai deixar de ter tempo para existir... eu pergunto-me, quando é que nos esquecemos que precisamos de tempo para entender o tempo, a esta velocidade vazia acabaremos todos por desaparecer na nossa própria falta de sentido. Repito, alguém vai deixar de ter tempo para existir, ... não permitam que isso vos aconteça... na família, com os amigos, com quem amam e no que realmente têm que fazer...

6.15.2012

A cura....



Aprendi que um guerreiro "faz o melhor que pode e sabe até que o seu caminho se revele...". Quanto mais aprendo e quanto mais alimento as minhas dúvidas acredito ainda mais nesta demanda. O único problema é perceber quando é que o caminho realmente se revela.

Importa pouco onde fomos parar, importa é que estamos.... e misticismos e variações astrais à parte, importa o que fazemos com o tempo e recursos que temos no sítio e com as pessoas com quem estamos.
Numa citação mais ou menos religiosa, supostamente vimos à Terra para deixar a nossa marca e partirmos de volta a um infinito que ninguém percebe ou quer perceber. E por entre caminhos que se revelam e marcas mais ou menos declaradas vamos acabar por nos "adoentar" e deixar consumir por uma "chaga de inexistência". Vamos acabar por duvidar de nós próprios e por tudo que mexe ao nosso lado. Muitas vezes está longe de ser nossa responsabilidade, mas noutros venerados momentos nós somos os principais responsáveis pela "nossa própria doença". Nesta fase todos procuramos uma cura, uma forma de nos redimirmos e percebermos. 

Mas sabem qual é  parte divertida de tudo isto, é que a cura é mais uma ilusão emocional, mais um momento de paralisia até à doença seguinte que desencadeará a cura que se lhe segue. Nós somos a nossa própria cura, a nossa própria terapia. A força de vontade e capacidade de resiliência também de aprendem, mas as decisões continuam a ser de quem as toma, o que faz dos nossos erros um decisão inadiável na consciências que todos prezamos ter. Mesmo assim procurar uma cura não nos irá fazer mal, esse caminho tortuoso que todos insistimos em fazer, tem pelo pelo menos a vantagem de nos despertar, de nos dar a perceber o que é ilusão, o que pode ser a verdade e o que de fato é mentira. Um brinde à cura universal.... aquela que jamais será encontrada... mas que nunca deixaremos de procurar enquanto houverem portas por abrir.

5.29.2012

Fechar e abrir o livro...



Escrever a mim próprio é um exercício de insanidade, de obscura existência. Passo por uma das fases mais emotivas da minha vida, do que sou, quero ser e espero estar.
Tenho cortado enormes linhas do meu passado, não que as tenha esquecido ou colocado de lado, não... muito pelo contrário... Foram e são linhas que continuarão a existir na essência que me faz. Apenas as atenuo para dar espaço para novas linhas que quero ver escritas, não sei se melhores, não sei se piores, mas outras....
Obrigado ao mundo em redor.... e apesar das toupeiras continuarem a existir.... vou continuara fechar e a abrir o livro quantas vezes eu quiser.... só que desta vez e por escolha própria ... sozinho.......

5.26.2012

O Silêncio do Cosmos....






No silêncio fala o Cosmos
É na alma que ele que está
É na nossa falta de sentido
No rumo que não escolhemos
E que ingenuamente que nos assola.

Em dia de poucas palavras
Alimento-me do Cosmos que não tenho
Na esperança que se revele.

Por estar perdido como nunca estive
Não faço questão de me encontrar.
Nos venerados dias que se seguem
Peço inspiração só para existir
Porque já nem isso sem fazer.
Não me considero um estranho
Mas nesta falta de momento e sentido
Considero-me inóspito e desregulado
Sem inspiração para me escrever
Para te escrever..
O que vale
É que ainda há mundo lá fora,
E desta vez... eu espero que ele me valha...

E como em tempos escrevi,
Solidamente só, terei de aprender a viver no silêncio do meu Cosmos...

5.21.2012

Afinal não foi por acaso...

Só para que a minha alma não esqueça
Na última vez que me escrevi
Que te escrevi,
Contava que quando ainda não percebia o acaso
"A pequena musa deixou-me entrar
Acompanhou-me até aos aposentos
E por ali me fiquei.
Horas finitas de sono deram lugar ao meu abrir de olhos,
Olhei à minha volta,
Nem aposentos, nem estalagem
Apenas eu, depois de mais um sono perdido.
Levantei-me, preparei-me e rumei à labuta diário.
Não deixava de pensar, de me atormentar
Por aquela estranha e improvável visão, talvez sonho até...
Até que num desses corredores de rodopio,
Logo após o último abrir de porta,
Revi a face que abrira a porta durante o meu último sono..."
Foi então que percebi que continuava a dormir
Que ainda não havia acordado...

Nesse dia,
Logo após o sono me passar,
Esperei pela noite,
Esperei porque sabia que precisava de voltar a ver as estrelas,
De voltar a ouvir a voz,
De voltar a perceber os passos
Sem que para isso precisasse de olhar,
De escutar, ou sequer pensar...
Sabendo que bastaria estar.
E aquela estranha estalagem onde havia pernoitado durante os sonhos,
Haveria de servir de casa mágica
Sempre que a minha imaginação e coração precisasse
Sempre que precisasse de ver novamente as estrelas acordado
Porque nada tinha sido por acaso...
Numa viagem sem fim à vista...

5.20.2012

Foi por acaso que existe o que existe?...



Nas ruas de um caminho como nunca vi
Vi mais um caminho que  não procuramos
Nem queriamos encontrar.
Ao fundo vi uma velha estalagem abandonada,
Aproximei-me, bati na enorme porte de madeira de carvalho
E esperei que dessem por mim.
Passaram breves instantes... e num ranger incandescente
A porta foi-se abrindo lentamente, lentamente...
Uma pequena fada estava do outro lado,
Batendo asas e de face perdida.
Perguntou-me o que me trazia aquelas paragens?
O que fazia de mim presente naquele momento?
Eu no meu absurdo, não sabia o que responder,
Tinha sido levado ali pelo meu acaso,
Pela minha curiosidade,
Por um tudo e nada que se traduziam num caminho desconhecido,
Trilhado por uma par de pés famintos
Por uma esquizofrénica vontade de perceber o além...

Depois destes minutos iniciais de insano silêncio,
Regateei que precisava de pernoitar
Precisava de uma horas de silêncio
Para continuar viagem.

A pequena musa deixou-me entrar
Acompanhou-me até aos aposentos
E por ali me fiquei.
Horas finitas de sono deram lugar ao meu abrir de olhos,
Olhei à minha volta,
Nem aposentos, nem estalagem
Apenas eu, depois de mais um sono perdido.
Levantei-me, preparei-me e rumei à labuta diário.
Não deixava de pensar, de me atormentar
Por aquela estranha e improvável visão, talvez sonho até...
Até que num desses corredores de rodopio,
Logo após o último abrir de porta,
Revi a face que abrira a porta durante o meu último sono...

5.16.2012

Afinal porque fazes parte?... quem faz parte?



Era importante que cada um percebesse quem realmente importa para cada um de nós. Todas as pessoas que nos importam devem saber que nos importamos com elas, que estamos dispostos a sacrificar-nos por elas, que queremos estar com elas e que os seus passos são escutados com ansiedade para revermos a forma como sorriem para nós.

Importa pouco a distância e a forma idiota como correspondemos às suas expetativas, importa antes o essencial da afetividade que nos une, a forma como nos olhamos nos olhos e a desorientação orientada que faz a relação.
Depois importam as causas e sonhos comuns na diferença que os une, mas antes de tudo fica a máxima de que gostar de alguém é natural e sem pré-contratos, faz parte, e lembrem-lhes, a esses estranho seres de quem gostam, de que fazem parte e vocês querem que eles façam parte.... 

Para terminar, não tenham medo de se humilharem, de mostrarem que são reais.... porque se nos merecemos a nós próprios nada é ridículo, gostar de estar com alguém não é ridículo, é antes estar vivo e dizê-lo bem alto para que o mundo perceba que também ele é real.

5.14.2012

O Licórnio...

Antes de começar esta história importa recordar a lenda por detrás da mesma, o Unicórnio, também conhecido como Licórnio. É um animal mitológico que tem a forma de um cavalo, geralmente branco, com um único chifre em espiral. Tem a imagem associada à pureza e à força. Segundo as narrativas são seres dóceis. Este animal é um tema de notável recorrência nas artes medievais e renascentistas e assim como todos os outros animais fantásticos, não possui um significado único.

O unicórnio está associado à virgindade, já que o mito compreende que o único ser capaz de domar um unicórnio é uma donzela pura. Leonardo da Vinci escreveu o seguinte sobre o unicórnio: "O unicórnio, através da sua intemperança e incapacidade de se dominar, e devido ao deleite que as donzelas lhe proporcionam, esquece a sua ferocidade e selvajaria. Ele põe de parte a desconfiança, aproxima-se da donzela sentada e adormece no seu regaço. Assim os caçadores conseguem caçá-lo."

Ninguém sabe a origem do unicórnio, é uma história que se perde nos tempos. Presente nos pavilhões de imperadores chineses e na narrativa da vida de Confúcio, no Ocidente faz parte do grande número de monstros e animais fantásticos conhecidos e compilados na era de Alexandre e nas bibliotecas e obras helenísticas (Grécia Antiga).

A história que vos conto é curta, não em tempo nem alma, mas apenas nas palavras de poesia presente que convosco partilho:

O Mar compreende que existem mistérios
O Olimpo, montanha dos Deuses, alimenta existências celestes
As estrelas lêem as entrelinhas que todos temos medo de pronunciar.
Mas no mundo dos Mitos
Há caminhos dos quais não nos conseguimos desviar
Mesmo que a nossa lenda o quisesse.
Assim é o caminho do Licórnio
Um caminho obtuso e estreito que poucos cruzam
Mas que não deixa fugir aqueles a quem se revela.


O Licórnio com quem me cruzei
Não compreende línguas nem palavras estranhas
É um ser sem tempo, no seu tempo e no tempo dos outros.
Irradia a sua ternura perante o manto verde em que se alimenta
Enquanto o mundo espera que ele não se esqueça que existe.


Não tece conspirações obscuras
É belo e bondoso no espírito que transpira
Fala e conspira com as estrelas
Porque foi tocado pelos dons da magia e do magnetismo
Embora, distraído
Tenha medo de ser importante no destino que o escolheu...


Sê bem vindo Licórnio,
Aceita que nascestes para mergulhar em rios perigosos,
Para subir montanhas em só vez o topo,
Para sonhar com o que nunca sonhaste,
Para viver o caminho dos predestinados.
E não tenhas medo da solidão,
Porque eu conheço-a... e ela esqueceu-se de ti...
A solidão, companheira de legado
É o destino dos Dragões que se cruzam connosco...

5.13.2012

O fim do início... e o inicio de mais inícios...

Fez seis anos que conheci e ajudei a formar um dos grupos que me marcou de forma mais decisiva e relevante, falo do grupo infomal da PASEC, Nova Fénix, equipa que conheceu agora o seu fim.

Já animei dezenas de grupos, já integrei centenas de reuniões e dinâmicas de grupo e, sobretudo, já vi o fim muitas vezes. Os Nova Fénix e o Grupo SER - Sabedorias e Rituais deram origem ao que é hoje a Plataforma de Animadores SocioEducativos e Culturais, estrutura que congrega dezenas de grupos informais. Ambos já acabaram, embora a maior parte dos seus elementos continue na PASEC. As linhas que se seguem dedico-as por inteiro ao legado dos Nova Fénix e o que isso significou.

Os Nova Fénix produziram saber e construíram-se tendo por a sua própria indefinição e falta de rumo. Por vezes o que nos falta torna-se numa grande oportunidade e foi isso que aconteceu. Conseguimos, quase sem o querer, juntar um cardápio enorme de incertezas numa incerteza comum que nasceu das cinzas dando origem a uma nova fénix. As incertezas deram lugar a novas incertezas, as respostas que encontrávamos davam lugar a novas perguntas, e as dúvidas cresciam na igual medida em que o grupo fazia cada vez mais sentido. Mas perguntam vocês como é que tanta indefinição pode fazer qualquer sentido? A resposta simples, a diferença entre novas e as velhas dúvidas, é que as novas dúvidas eram nossas, eram reais, existenciais e parte de um caminho que estávamos a percorrer. Pelo caminho, todos os que subiram a montanha viram horizonte, ajudaram outros a subir outras montanhas e, no momento que escolheram, partiram rumo a novas dúvidas fora do existencialismo que nos fez. Foi um privilégio caminhar com vocês...

Este "foi o fim do início" dos grupos que deram origem à PASEC, nestes últimos dois meses "deram à costa" três novos grupos permitindo o "início de mais inícios" na eterna dúvida de que montanhas se seguem no próximo caminho que todos vamos traçar.

3.18.2012

O maior espetáculo do mundo




De uma forma ou de outra já todos quisemos ou procuramos ver o maior espetáculo do mundo, seja lá o que isso for. Para uns é o circo, para outros é uma boa partida de futebol, outros naturalmente escolherão uma paisagem mítica, outros ainda ficarão os curtos dias que lhes são concedidos em frente à televisão. Mas o que é realmente o maior espetáculo do mundo?


Como não existe nenhuma resposta concreta para a pergunta que enunciei fico-me pela pouca experiência de vida que tenho. De todos os momentos artísticos que tive a oportunidade de ver e participar o espetáculo "Alegria" da companhia Cirque du Soleil foi, sem margem para dúvidas, o mais marcante, brilhante e cinéfilo. Tratasse de um momento de poesia em forma de expressão corporal no seu sentido máximo, na sua forma mais opulente, numa fotografia cósmica de imaginação irradiante. O espetáculo é  conjugação perfeita de melodia, história, cenário, sonho e humanidade.

Mas uma coisa é o espetáculo que vemos e participamos, outro é o espetáculo que sonhamos, que vimos nascer, que nos dá dimensão, aquele que nos fez e se faz numa construção em que o último ato é apenas o resultado final de um caminho percorrido por muitos e sentido por todos.

Já encenei várias peças e momentos de expressão artística nos mais variados domínios. Todos fizeram sentido no seu devido tempo, na sua forma e marcaram etapas de referência. Mas a 8 de Março de 2012, na sala de espetáculos da Cooperativa de Ensino Didáxis, onde sou docente e diretor de cursos profissionais na área da Animação SocioCultural e Apoio Psicossocial, encontrei o meu "maior espetáculo do mundo". Não é que o resultado final daquele conjunto de encenações tenha sido de um mundo que não este. Não é isso. Acontece... que o momento foi a fusão de uma história de três anos que... mais do que nunca.... fez sentido.

Sempre invejei positivamente alguns amigos pelas produções artísticas que produziam e pelo processo educativo e pedagógico que os mesmos implicavam. O produto final era meritório e de qualidade e evolução dos "miúdos" com quem trabalhavam era evidente. Sinto que tive a oportunidade de atingir essa meta, de fazer parte de um percurso sólido, único, de qualidade e que foi partilhado com centenas de jovens e adultos e que a diferença...uma diferença real e marcante.

Entretanto retrato uma hora e trinta minutos antes do espetáculo começar. Entro sozinho na sala onde vai acontecer o espetáculo. Toca a música "Alegria", a tal do maior espetáculo do mundo. Estou profundamente só sentado na boca de cena. Se a paz interior existe, acho que nesse momento estava em paz.... o importante já tinha acontecido... o caminho já tinha sido percorrido.... e eu tinha tido o privilégio de ter feito aquela viagem.

2.07.2012

O mundo que nos rodeia tem um equilíbrio delicado... como preservâ-lo?

O mundo que nos rodeia tem um equilíbrio delicado... como preservâ-lo?
Por estes dia lia que mais difícil do que conseguir algo novo é conseguir preservar e elevar o que já temos ou conquistamos. Não é novidade para ninguém que somos circunscritos pelo novo, pela eterna saciedade de queremos aumentar os nossos níveis de adrenalina e de interesse pelo mundo que nos rodeia. E esses requisitos apenas os vislumbramos no novo, na descoberta de algo que volte a tornar a nossa vida interessante. E nesta demanda esquecemo-nos de quem nunca se esqueceu de nós, dos caminhos que tanto nos custaram a trilhar ou das montanhas que muito suor levaram a subir. Com isto não estou a dizer que devemos viver permanentemente na lição e façanhas do passado. Muito pelo contrário, acho que o caminho para a felicidade passa por elevar o que somos e ajudamos a construir dando sempre espaço para o que de novo o destino nos trouxer.

Nesta fase já estou a ouvir os comentários da total ausência de novidade das linhas que exponho. A mim, nobre ser desorientado, cabe-me concordar com quem alimenta em si esta ausência de novidade. De quaqluer forma todos concordarão que não é demais relembrar. E isto leva-me à pergunta e reflexão inicial: O mundo que nos rodeia tem um equilíbrio delicado... como preservâ-lo?

A resposta assenta no que já disse, mas sobretudo é um exercício de cronologia. É sempre importante lembrarmo-nos do que pretendíamos e onde queríamos chegar antes de avaliarmos o que nos rodeia. Muitas vezes vamos para além do que pretendíamos e tornamo-nos imprudentes e impacientes por algo novo que desperte o entusiasmo de existirmos. Nesta fase é importante que tentemos perceber quem está connosco, como está connosco e que ainda querem de nós. Depois devemos arranjar um pouco mais de espaço no nosso "copo cheio" para ouvirmos e prestarmos um pouco mais de atenção a sinais que nunca havíamos avistado antes. São estes detalhes que nos permitirão encontrar orientação para as nossas próximas viagens emocionais.

Para terminar é fundamental nunca traçar destinos finais, eu, pelo menos, fico-me sempre pelo que chamo de etapas ou pontos de passagem, porque destinos finais nem na morte... porque o mundo que nos rodeio está muito para além dos nossos olhos.... e o essencial continua a ser invisível aos olhos, e eu nunca fui o "Principezinho".