3.04.2016

Afinal o que importa para ti?

Os dias são ancoras que tentam não deixar o tempo passar, mas ele não para, e por vezes o tempo destrói os dias, a cronologia e o que de mais importante temos... só porque nos esquecemos de olhar à volta... só porque nos esquecemos de parar...
Sempre que uma nova revolução se aproxima percebemos que não estávamos preparados, sempre que estamos preparados, todo o nosso treino já está desatualizado.... mas o que importa continua a ser o mesmo, continua a fazer o mesmo sentido que tinha antes, durante e após a revolução. 
Depois de todas estas contas o que é importante para ti?

11.24.2015

Ouço o mundo que me rodeia mas só permito a crítica a quem não paralisa…


Numa das minhas muitas viagens com Mestre Canis Lupus e Mestre Chitra paramos na região de Boria, na cidade de Milkar, capital feudal de todas as terras borianas. Paramos para cear numa velha taberna vegetariana. Boria é conhecida como a região do Verde Infinito, as suas gentes baseavam toda a sua vivência na ligação com a terra, toda a sua cultura, gastronomia e arte nasciam e morriam no verde da natureza circundante. Por isso dizer que paramos numa taberna vegetariana é uma redundância porque em Boria todas as tabernas são vegetarianas.
Todos pedimos uma sopa de leguminosas e algum pão seco para continuar a viagem. Um desconhecido aproximou-se de nós, fez uma vénia em sinal de respeito e dirigiu-se diretamente a Canis Lupus:
- Mestre, a que devemos a honra de o ter por cá? - Questionou o desconhecido
- Lamento, mas se nos conhecemos não me consigo lembrar com quem estou a falar. - Retorquiu Canis Lupus
- Mestre, sou Edzo, irmão de Edo, com certeza que se lembra de mim. - Afirmou com entusiasmo o forasteiro
- Recordo-me bem de Edo, mas Edzo, seu irmão, nunca ouvi falar - respondeu Mestre Lupus, baixando posteriormente a cabeça e voltando à sua refeição.
- Mas Mestre, com certeza que se lembrará de mim. Treinou-me como seu aprendiz durante três épocas anuais. Eu próprio lhe levei o meu irmão para ser treinado por si. - Insistiu o auto denominado Edzo.
Sem responder, Canis Lupus, continuou a sua refeição. Edzo insistiu um par de vezes e eu respondi-lhe:
- Meu bom rapaz, o meu amigo já disse que não se lembrava de si, se não se importasse pedia que se retirasse para continuarmos a nossa refeição. Ainda temos uma longa jornada à nossa frente.
O rapaz lá cedeu e retirou-se cabisbaixo. Dirigi-me então a Canis Lupus:
- O que se passou meu bom amigo. O rapaz conhecia-te realmente, inclusive falou de Edo, um dos mais promissores Companheiros que treinaste, porventura até futuro Mestre. E antes que desmintas, os teus olhos tensos denunciaram-te.
- Não te vou contrariar, lembro-me bem de Edzo. Mas o que de bom ficou entre nós foi apenas o facto de este me ter dado a conhecer Edo. - Retribuiu Mestre Lupus.
- Mas porquê? - Questionou Mestre Chitra.
- Como todos estudamos e apreendemos, o Mestre que perdeu a capacidade de aprender, nada mais tem a ensinar. Edzo e Edo foram dois aprendizes com quem aprendi muito, mas apenas um deles foi capaz de chegar ao estatuto de Companheiro. Apenas um deles foi capaz de dominar o seu fogo interior e assim reger o quinto elemento, a sua sabedoria e a sua certeza na ação. O outro perdeu-se por entre ideias tão geniais quanto inertes. - Respondeu Canis Lupus.
- Mas o que aconteceu entre vós que te marcou assim tanto? -perguntei-lhe eu reforçando a curiosidade de Chitra.
- Quando treinamos os nossos aprendizes damos forma a uma rotina de treino sob a qual também fomos treinados. Com o tempo vamos moldando novas rotinas com base na experiência adquirida. São os nossos novos discípulos que nos obrigam a reequilibrar e calibrar as opções que fazemos. Edo e Edzo, para mim, foram o início desta fase de descoberta.
E continuou:
- Tudo começou quando lhes sugeri que ambos plantassem um campo de cereais em pleno Inverno, naquele ano mais rigoroso que o normal. Cada um tinha o seu. Edzo cedo percebeu que era inútil aquela tarefa e desistiu. Edo por sua vez, apesar de ter feito a mesma análise continuou a missão que eu lhe confiara.
À noite, à volta da fogueira, partilhávamos a experiência do dia e ambos mostravam-se desmotivados e irritados com a tarefa que lhes tinha dado. Ambos me questionaram até quando o tinham de fazer. E respondia sempre que as ordens que tinha dado eram aquelas e não outras, competia-lhes a eles lidar com elas. Com o tempo Edzo tornou-se permissivo e passivo, passando o dia a treinar outras artes marciais que mais lhe apraziam. Edo por sua vez, mesmo discordando de mim, tentava novas formas de dar vida aos cereais. Por vezes tentava inclusive fazer o trabalho que o seu próprio irmão negligenciara.
À noite, como sempre, encontrávamo-nos à volta da fogueira e, como sempre, ambos se mostravam frustrados e irritados. Até que ao fim de uma longa temporada Edzo se mostrou farto e me enfrentou abertamente. Não permiti que continuasse a falar, mandei-o calar, inclusive recorri à força bruta para o fazer. Neste momento Edo levantou-se e fez o irmão recuar, tentando explicar a frustração dos dois. Deixei que Edo partilhasse tudo o que estava a viver e o sentimento sobre a inutilidade da tarefa que estava a realizar. Explicou-me que o solo nesta altura não possuía os nutrientes necessários à produção de cereais e que seria melhor esperar pela época primaveril. Nesta altura, pedi que ambos se voltassem a sentar e expliquei-lhes que só reconhecia autoridade para ser criticado a quem não abandonava o seu projeto. Edzo tinha desistido de tentar e preferiu procurar outros interesses, por sua vez Edo tentou perceber a tarefa que lhe foi dada e com isso aprendeu a dominar o solo e a gerir todo o seu potencial. Apesar da inutilidade da tarefa, um foi capaz de aprender com ela, enquanto outro preferiu esperar para que os acontecimentos se vencessem a eles mesmos.

Só permito a crítica a quem não paralisa, a quem apesar de falhar continuou a tentar. Quem nunca tentou, quem nunca empreendeu não tem o direito nem o privilégio de aconselhar quem se arrisca a falhar. Neste momento convidei Edo para uma nova viagem e despedi-me de Edzo para todo o sempre. A nossa história acabava ali.

4.06.2015

Há caminhos que ninguém espera que possam surgir... (excerto do livro Tempo)

Todos fazemos planos de futuro, todos nos vemos nas situações que idealizamos como ideais para nós e para os que nos são próximos. Os Mestres da Ordem dos Cavaleiros do Poder não são diferentes, todos eles idealizam no seu íntimo o potencial que cada um dos seus aprendizes pode almejar, o nível a cada um deles pode chegar, a derradeira missão que só ele irá abraçar. Alguns de nós, caídos em tentação afetiva, imaginamos que alguns deles seguirão os nossos passos, que serão uma espécie de percussores do que sempre idealizamos que eles poderiam ser. 

Hoje conto-vos a história de Lyntis, a Cavaleira Lince, alguém que foi capaz de ultrapassar o potencial que qualquer um dos seus Mestre lhe vaticinou e se perdeu nas suas próprias conquistas.

Fui Mestre de Lyntis nas artes da estratégia e das técnicas de combate com armas. Ela fez parte do terceiro grupo de aprendizes que acolhi juntamente com Blua, Sté, Nebula e Monterius. No início, Lyntis era a mais apagada do grupo, a que passava mais despercebida. Blua e Sté funcionavam como um duo dinâmico, Blua mais luminosa e Sté mais metódica e resiliente. Monterius era a mais apoteótica e extravagante, com dons de comunicação de uma predestinada. Nebula era o elemento místico do grupo, aquela que parava para perceber o sentido das estrelas e onde habitava a aura de cada um. Lyntis não tinha nenhuma destas qualidades, muito pelo contrário, para além da sua força de vontade e crer não parecia revelar nenhum talento especial. Mas a verdade estava escondida. 

Ela tinha algo diferente de todos os outros aprendizes que tinha treinado e que há primeira vista não fomos capazes de perceber. Tinha o poder de ler os poderes de cada um e de forma autónoma desenvolvê-los por si mesma. Era capaz de reproduzir e apreender o poder de cada um, recriando um poder que há primeira vista nos parecia completamente novo.

Para além de seu Mestre tornei-me seu amigo e confidente, sempre ciente da diferença de caminhos que nos estava destinada. Com as épocas anuais a passarem, umas depois das outras, Lyntis tinha deixado de ser mais uma para se assumir como aquela que conseguia dominar um pouco de cada uma das artes. Era também aquela que com mais maestria era capaz de competir com o seu próprio Mestre nos exercícios mais minuciosos. 

Com o tempo, em muitas batalhas que combatemos, já deixava que fosse ela a traçar o plano de ataque, a liderar a montagem dos mecanismos de defesa ou então a ser ela a comandar a equipa de batedores que marcava o território antes de avançarmos para qualquer combate. 

Durante uma longa época, eu e os outros Mestres perdemos o discernimento e de forma natural, ainda antes de Lyntis ser entronizada como Mestra Aprendiz, permitimos que ela desempenhasse as funções que qualquer Mestre Aprendiz já fazia. Em nenhum momento nos perguntamos se seria cedo ou tarde. Eu, pessoalmente, olhava para o caminho que Lyntis traçava e sentia o orgulho de sentir que alguém poderia continuar o meu caminho. Com certeza que Lyntis o iria continuar de forma diferente, mas caminho não morreria no que eu era. Decidi nesta altura dar a Lyntis a liderança de um grupo de jovens aprendizes ainda crianças. Nessa altura pensei que ela estivesse preparada. 

Nas primeiras épocas anuais, Lyntis fez nobremente o acompanhamento do novo grupo nativo, ao mesmo tempo que continuou a desempenhar todas as funções que já desempenhava. 

Chegou o dia do seu Ritual dos Símbolos, altura em que lhe foi atribuído símbolo Lince e o título de Mestra Aprendiz. Era altura do corte doloroso porque já passara várias vezes. Desta vez, na minha ingenuidade, pensei que não seria tão doloroso, porque ambos continuaríamos amigos, mas desta vez sem os desníveis de autoridade naturais na relação entre Mestre e Aprendiz. Por esta altura parti em viagem com outro grupo de Aprendizes para explorar novas regiões ainda desconhecidas ao Império de Gaia.

Ao fim de uma época voltei para rever Lyntis e o seu primeiro grupo de aprendizes, mas não encontrei ninguém. Procurei na velha colina onde treinara com ela a arte do manejar da espada, mas nada encontrei. De volta ao Templo onde havia começado a treinar o grupo de Lyntis reencontrei Ste.

- Ste, minha velha amiga, como estás? – Perguntei.

- Bem, nobre Mestre. O que traz de volta? – Replicou Ste.

-Vim rever-vos, mas não encontrei Lyntis nem o seu grupo. Onde estão? – Voltei a perguntar.

- Não sabeis o que aconteceu Mestre? – Questionou-me.

- Não, o que sucedeu? – Questionei alarmado.

- Ninguém sabe muito bem, mas segundo o que me explicou Mestre Canis Lupus, Lyntis não soube lidar com todas as responsabilidades que assumira. Entrou em colapso emocional por achar que não estava à altura do que os velhos Mestre esperavam dela. Pouco depois desistiu da Ordem e partiu para o exílio.

Fiquei chocado com o que Ste me contara e procurei de imediato Canis Lupus. Contou-me que não havíamos sido prudentes. Que nos havíamos esquecido que há um tempo para tudo e que mais do qualquer outro aspeto, nos havíamos esquecido de colocar a hipótese de que Lyntis também poderia falhar, também era falível, também poderia não estar preparada. O facto de durante tanto tempo ter sido ela a que mais se havia superado, havia-me cegado e tirado o discernimento para perceber que a seguir a grandes escaladas podem seguir-se quedas mortais. 

Olhei para Lyntis da mesma forma que olhava o meu caminho e esqueci-me de tentar perceber se afinal havia outro que ela quisesse trilhar. Não agi com intencionalidade nem fui irresponsável na forma como a treinei. Mas não consegui perceber a tempo que provavelmente o seu caminho não era o meu.

Agora, por estes dias, procuro por Lyntis em todos os locais que treinamos. O exílio de um Cavaleiro é como a morte emocional. Deixamos tudo para trás sem olhar para onde vamos. 

Provavelmente Lyntis nunca quis o que achamos ser o melhor para ela, provavelmente ela quis mais do que podia dar, provavelmente ela até está determinada para este caminho. Mas neste momento o que humildemente sei, é que que existem caminhos que esperávamos nunca ter que trilhar. Ainda não sei o que aconteceu, mas tenho a certeza que vou continuar a ir atrás… muito provavelmente para voltar de onde nunca deveria ter partido. Mas para certos destinos um Cavaleiro tem mesmo de ter a certeza.. e este é um deles…

1.23.2015

Ouço o mundo que me rodeia mas só permito a crítica a quem não paralisa…


Numa das minhas muitas viagens com Mestre Canis Lupus e Mestre Chitra paramos na região de Boria, na cidade de Milkar, capital feudal de todas as terras borianas. Paramos para cear numa velha taberna vegetariana. Boria é conhecida como a região do Verde Infinito, as suas gentes baseavam toda a sua vivência na ligação com a terra, toda a sua cultura, gastronomia e arte nasciam e morriam no verde da natureza circundante. Por isso dizer que paramos numa taberna vegetariana é uma redundância porque em Boria todas as tabernas são vegetarianas.
Todos pedimos uma sopa de leguminosas e algum pão seco para continuar a viagem. Um desconhecido aproximou-se de nós, fez uma vénia em sinal de respeito e dirigiu-se diretamente a Canis Lupus:
- Mestre, a que devemos a honra de o ter por cá? - Questionou o desconhecido
- Lamento, mas se nos conhecemos não me consigo lembrar com quem estou a falar. - Retorquiu Canis Lupus
- Mestre, sou Edzo, irmão de Edo, com certeza que se lembra de mim. - Afirmou com entusiasmo o forasteiro
- Recordo-me bem de Edo, mas Edzo, seu irmão, nunca ouvi falar - respondeu Mestre Lupus, baixando posteriormente a cabeça e voltando à sua refeição.
- Mas Mestre, com certeza que se lembrará de mim. Treinou-me como seu aprendiz durante três épocas anuais. Eu próprio lhe levei o meu irmão para ser treinado por si. - Insistiu o auto denominado Edzo.
Sem responder, Canis Lupus, continuou a sua refeição. Edzo insistiu um par de vezes e eu respondi-lhe:
- Meu bom rapaz, o meu amigo já disse que não se lembrava de si, se não se importasse pedia que se retirasse para continuarmos a nossa refeição. Ainda temos uma longa jornada à nossa frente.
O rapaz lá cedeu e retirou-se cabisbaixo. Dirigi-me então a Canis Lupus:
- O que se passou meu bom amigo. O rapaz conhecia-te realmente, inclusive falou de Edo, um dos mais promissores Companheiros que treinaste, porventura até futuro Mestre. E antes que desmintas, os teus olhos tensos denunciaram-te.
- Não te vou contrariar, lembro-me bem de Edzo. Mas o que de bom ficou entre nós foi apenas o facto de este me ter dado a conhecer Edo. - Retribuiu Mestre Lupus.
- Mas porquê? - Questionou Mestre Chitra.
- Como todos estudamos e apreendemos, o Mestre que perdeu a capacidade de aprender, nada mais tem a ensinar. Edzo e Edo foram dois aprendizes com quem aprendi muito, mas apenas um deles foi capaz de chegar ao estatuto de Companheiro. Apenas um deles foi capaz de dominar o seu fogo interior e assim reger o quinto elemento, a sua sabedoria e a sua certeza na ação. O outro perdeu-se por entre ideias tão geniais quanto inertes. - Respondeu Canis Lupus.
- Mas o que aconteceu entre vós que te marcou assim tanto? -perguntei-lhe eu reforçando a curiosidade de Chitra.
- Quando treinamos os nossos aprendizes damos forma a uma rotina de treino sob a qual também fomos treinados. Com o tempo vamos moldando novas rotinas com base na experiência adquirida. São os nossos novos discípulos que nos obrigam a reequilibrar e calibrar as opções que fazemos. Edo e Edzo, para mim, foram o início desta fase de descoberta.
E continuou:
- Tudo começou quando lhes sugeri que ambos plantassem um campo de cereais em pleno Inverno, naquele ano mais rigoroso que o normal. Cada um tinha o seu. Edzo cedo percebeu que era inútil aquela tarefa e desistiu. Edo por sua vez, apesar de ter feito a mesma análise continuou a missão que eu lhe confiara.
À noite, à volta da fogueira, partilhávamos a experiência do dia e ambos mostravam-se desmotivados e irritados com a tarefa que lhes tinha dado. Ambos me questionaram até quando o tinham de fazer. E respondia sempre que as ordens que tinha dado eram aquelas e não outras, competia-lhes a eles lidar com elas. Com o tempo Edzo tornou-se permissivo e passivo, passando o dia a treinar outras artes marciais que mais lhe apraziam. Edo por sua vez, mesmo discordando de mim, tentava novas formas de dar vida aos cereais. Por vezes tentava inclusive fazer o trabalho que o seu próprio irmão negligenciara.
À noite, como sempre, encontrávamo-nos à volta da fogueira e, como sempre, ambos se mostravam frustrados e irritados. Até que ao fim de uma longa temporada Edzo se mostrou farto e me enfrentou abertamente. Não permiti que continuasse a falar, mandei-o calar, inclusive recorri à força bruta para o fazer. Neste momento Edo levantou-se e fez o irmão recuar, tentando explicar a frustração dos dois. Deixei que Edo partilhasse tudo o que estava a viver e o sentimento sobre a inutilidade da tarefa que estava a realizar. Explicou-me que o solo nesta altura não possuía os nutrientes necessários à produção de cereais e que seria melhor esperar pela época primaveril. Nesta altura, pedi que ambos se voltassem a sentar e expliquei-lhes que só reconhecia autoridade para ser criticado a quem não abandonava o seu projeto. Edzo tinha desistido de tentar e preferiu procurar outros interesses, por sua vez Edo tentou perceber a tarefa que lhe foi dada e com isso aprendeu a dominar o solo e a gerir todo o seu potencial. Apesar da inutilidade da tarefa, um foi capaz de aprender com ela, enquanto outro preferiu esperar para que os acontecimentos se vencessem a eles mesmos.

Só permito a crítica a quem não paralisa, a quem apesar de falhar continuou a tentar. Quem nunca tentou, quem nunca empreendeu não tem o direito nem o privilégio de aconselhar quem se arrisca a falhar. Neste momento convidei Edo para uma nova viagem e despedi-me de Edzo para todo o sempre. A nossa história acabava ali.

10.23.2014

O caderno de encargos (Livro Tempo)

Somos aconselhados pelos nossos Mestres em determinada altura da nossa vida a desenharmos, a escrevermos, a determinarmos o nosso caderno de encargos. São uma espécie de objetivos, de metas que sentimos ser capazes de cumprir na nossa relação com o mundo. De qualquer forma, qualquer um de nós já o fez ou vai fazendo isso todos os dias. Quem de nós nunca se permitiu a planear o que considera ser realmente importante e fazer sentido para o caminho que escolheu para si.

Mestre Ant Elael referiu-me o caderno de encargos como sendo o estabelecimento de metas existenciais e significantes que nos permitem alimentar o espírito inconformado e elevarmos o nosso nível existencial, simbólico e cósmico.

O ser humano tem a tendência para se auto deteriorar e ritualizar-se numa busca obstinada por meandros mesquinhos, egoístas que o destroem e violam a sua integridade. O divertido e rebuscado da situação é que boa parte das vezes o ser humano tem plena consciência da sua insanidade, mas insiste porque é imperfeito, fraco e "humano". O nosso caderno de encargos é mais uma forma de nos orientarmos e percebermos para onde queremos caminhar, pondo de parte esta nossa incrível tendência para desumanização.

Mas voltando ao porquê desta reflexão, tenho a plena consciência do que me deteriora diariamente e me faz ritualizar os meus devaneios. Temos direito a vivê-los enquanto nos testamos e aprendemos o caminho do tempo, mas não podemos eternizá-los, eles podem-nos tornar obsessivos e fazer com que nos percamos na nossa própria irregularidade. Não estou a afirmar que deixemos de ser irregulares, estou apenas a relembrar, que nada é tão bom que não acabe ou se deteriore, nem nada é tão mau que não possa melhorar ou mudar de sentido.

Em tempos parti, como muitas outras vezes, em jornada solitária para as Montanhas de Geray. Tinha como objetivo perceber o que queria incluir no meu caderno de encargos. Nessa jornada dirigi-me a um velho templo abandonado da Velha Ordem do Livro dos Elementos para estar em retiro. Qual não foi o meu espanto quando dou por mim no meio de uma cerimónia pagã num templo da Velha Ordem. Para não dar nas vistas e respeitar o momento, deixei-me ficar bem cá trás a apreciar o momento.

Era um ambiente estranho, e eu era uma estranha e pálida presença por entre os presentes. Mas não deixa de ser assombroso que é mesmo assim que me sinto diariamente, um estranho num mundo de estranhos que me estranham e se estranham.... 

Por breves minutos entrei em astral (momento em que o nosso ser simbólico viaja para além da nossa carcaça) e em transe fiz daquele estranho momento uma ponte entre mim e o mundo dos espíritos. Desenhei pela primeira vez, e de uma forma clara, o que acredito ter sido "o meu caderno de encargos". 

Guardo para mim o que determinei, mas fico com uma certeza, ele não é para concretizar sozinho. O nosso caderno de encargos é só mais uma oportunidade de nos lembrarmos que a nossa missão está na missão de todos aqueles que escolhemos para existirem connosco.

11.03.2013

Mudar tudo sem nada mudar... -1ª Parte




Pelas viagens que fiz para além de Ethérnia, a minha terra natal, conheci  na região de Islam, Uisce, uma estranha feiticeira da Ordem do Templo das Lágrimas de Sangue. Também conhecida como a Feiticeira de Naga Air. Dominava os poderes da água e do fogo profundo, aquele que reside na centelha escondida na mente de cada um.
Conhecia enquanto assistia a uma cerimónia da "Prova dos Três Trevos". A forma estranha como sobressaia longe de todos e isolada no olhar captou por alguns segundos a minha atenção. Foi o suficiente para partilhar aquela visão com as minhas companheiras de caminho, Nebula e Uni, durante uma sessão de frenética conversa amena numa das muitas tabernas de Islam.

No dia seguinte fui ter com Mestre Ant Elael, que me pedira para deslocar ao Templo das Lágrimas de Sangue para falarmos. Ant Elael tinha reservado para mim algo de totalmente inesperado e até abrupto. Convidara-me a aceitar uma nova aprendiz, de seu nome, Uisce, a tal que havia captado a minha atenção no dia anterior. Por norma questionava sempre as propostas e decisões de Ant Elael, mas neste caso, nem emiti parecer. Sem pensar muito, fiz como fazia com todos os novos aprendizes que acolhia, integrava-os num grupo nativo, A Uisce integreia no grupo de Nebula, Ste e Ruy.

Antes de contar qualquer outra história importava perceber a sintonia que nos unia sem sentido e inoportunamente. Percebia que simbolicamente habitávamos a mesma morada, partilhávamos o mesmo fardo de desumanidade, éramos ambos filhos do poder do Dragão. Eu o Dragão de Fogo, e ela o Dragão de Água.

Recorri a um velho manuscrito simbólico da Velha Era para entender o que era um Dragão de Água, do mesmo transcrevi estas palavras:

"Estamos a falar de uma pessoa inibida mas progressiva, porém não será ele que vai ser etiquetado como conciliador. Pode supor uma atitude de "esperar para ver" e as suas sagacidades são tão formidáveis quanto a sua força de vontade.

O Dragão Água tem uma filosofia de vida muito própria e gosta de a impor aos outros, no entanto não procura vingança junto daqueles que escolhem ir pelo caminho oposto. Democrático e liberal, pode aceitar a derrota ou a rejeição sem se defender.

É rápido, de confiança, capaz de promover as suas ideias de forma devota e incansável. É provável ser bem sucedido como mediador, porque conhece e sabe quando, onde e como aplicar a força negocial.

O inconveniente principal é que pode ser como um construtor demasiado otimista que se esquece de reforçar a fundação. Por tentar segurar muita coisa ao mesmo tempo pode perder tudo. Tem de aprender a fazer escolhas difíceis e abandonar o que quer que seja duvidoso ou desnecessário."

Peguei no meu rascunho, entreguei a Uisce e esperei pela sua resposta..... a nossa relação estava a começar...

9.27.2013

Um castelo feito de pedras soltas.... Diários de Idanha (2ª Parte)

Já vai longe o fim das férias, mas não me esqueci de fechar os diários que abri durante esse período. Foi um mês de agosto de aventuras non-stop e momentos de rara beleza, sobretudo pelos locais em que passei. Mas isso já passou e fica agora apenas a lição que sobressaiu por estes dias.
 
As dinâmicas e organismos vivos que ajudamos a fazer nascer e que nos fazem crescer (como são o grupo de amigos, as associações de que fazemos parte, as relações humanas que nos preenchem, entre outras) são castelos de pedras soltas.
 
Todos os dias imaginamos quando vai acabar o que de bom temos e demorou tanto tempo a construir. Partimos do principio real de que nada é eterno e que de alguma forma ou de outra, nos iremos perder no labirinto do destino que invariavelmente nos levará à perda... Não fujo a este labirinto, muito pelo contrário.... mas os castelos de pedras soltas que ajudei a erguer levaram-me ao engano pelo melhor dos motivos.... nenhuma das pedra que se soltou  fez cair o castelo, apenas permitiu o espaço suficiente para que uma nova pedra, mais robusta e mais forte, ocupasse o seu lugar... permitindo um castelo cada vez maior e real...

8.14.2013

Os Diários de Idanha - Iº Parte - Ser monumental...

Chegada ao passado...

O passado pode ser perigoso se visto de uma forma turva e estanque. Podemos perder-nos em memórias de trevas ou deixar-mo-nos trair por um aquário de boas sensações. 

Antes de chegar a Idanha-à-nova (por onde descanso por estes dias...) parei na Vila da Feira para recordar as paredes imponentes do seu castelo e os rostos gastos das suas masmorras. Olho para a nossa memória como um castelo em que cada uma das suas divisões representa parte do que fomos com uma janela apontada ao infinito do que podemos ser. Entrar na Raia (zona pela qual é conhecida esta zona do Parque Natural do Tejo Internacional) é entrar numa história de paisagens intermináveis, num horizonte de plenitude de azinheiras e alguns sobreiros devidamente alinhados num jogo de cores pálidas mas monumentais. Parando o carro é possível ouvir o silêncio, contemplar o tempo a parar sem que qualquer carro passe durante mais de 10 minutos. Por estes dias vou viajar pelo passado, regressando ao futuro por entre castelos, ruínas e lendas de futuro.





A lenda de Monsanto...

A arqueologia diz-nos que o local foi habitado pelos romanos, no sopé do monte. Também existem vestígios da passagem visigótica e árabe. Os mouros seriam derrotados por D. Afonso Henriques e, em 1165, o lugar de Monsanto foi doado à Ordem dos Templários que sob orientações de Gualdim Pais, que mandou construir o Castelo de Monsanto. Os Templários foram uma Ordem mítica que entre outras lendas foram os protetores do Santo Graal. 

Mas referências históricas e arqueológicas à parte, Monsanto, mais que a aldeia mais portuguesa de Portugal (designação pela qual é conhecida), é uma viagem a um filme épico que deveria ser obrigatório ver ainda no 1º ciclo do ensino básico. 

Já partilhei com vocês que para mim a nossa memória é como um castelo em que cada uma das suas divisões representa parte do que fomos com uma janela apontada ao infinito do que podemos ser. Quando vi Machu Pichu (antiga cidade inca) pela primeira vez senti que os meus demónios e insatisfações encontravam naquelas ruínas o refúgio para pernoitarem longe do raio de horizonte que me entrava por uma fenda a apontar para o amanhã. Mas assim não foi. Nem sempre temos o que procuramos. Hoje, nas ruínas da antiga fortaleza templária, consegui completar esse exercício. Se vai resultar ou não, só o horizonte o poderá responder.

Para além do dia memorável, Mosanto proporciona-nos o sentimento que ainda não vimos nada, sobretudo se nunca cá tinham vindo antes. Não há nada de mais perfeito que acabar uma tarde de calor (38 graus) a beber uma cidra bem gelada vendo do topo o mundo como companhia. Até amanhã...





7.21.2013

Os dias do Cavaleiro: Quando o mundo já não nos chega (Livro Tempo)


Um grande pensador, que nunca assinou o seu nome ou passado, ainda do tempo da velha era, que alguns especulam ter sido um sanguinário conquistador, talvez um dos que fez cair a velha era, deixou o seguinte escrito: “Com a ajuda do Céu venci um império enorme. Mas a minha vida era muito curta para alcançar a conquista do mundo. Essa tarefa foi deixada para os que vêm a seguir a mim.”

Todos os Mestre recordavam aos seus aprendizes estas palavras por um simples motivo: todos chegávamos ao dia em que o mundo já não nos chegava; todos chegávamos ao dia em que almejávamos a novidade, porque a singularidade do presente já não era suficiente; todos nos deixávamos levar pelo momento em que a montanha mais alta era apenas mais um instante antes da montanha que era ainda maior, tudo porque achávamos que um desafio superior, que não sabíamos definir, nos chamava algures num vazio desconcertante que não conseguíamos controlar.

A este sentimento os nossos Mestre chamavam de soberba. Ele aparecia entre retalhos mal preparados do nosso ser e rendilhado de sobranceria, fazendo-nos esquecer o dom da humildade, da simplicidade, tornando-nos seres altivos e arrogantes, porque nada do que vivíamos era suficiente para alimentar o nosso “eu”.

A este respeito Mestre Ely deixou-me a mais valiosa das lições:
- Quem não souber perder nunca, estará preparado para vencer; quem não for capaz da simplicidade das pequenas tarefas, nunca estará preparado para a dureza das grandes. Quem não souber apreciar o sorriso gasto da sua mãe, nunca saberá realmente o que é sorrir; quem não for feliz a recordar o primeiro livro que leu até à última página, nunca estará preparado para aprender novas línguas…

5.04.2013

Do Túmulo ao Ritual

Há um momento decisivo na vida de cada um de nós que nos marca para sempre de forma diferente de todos os outros. Enquanto vos contei as minhas histórias falei-vos de algumas dezenas destes momentos, mas este que vos conto agora é sobre o compromisso inadiável, de dogma, do olhar para a frente sem nunca voltar para trás. 

Já vos contei que sou Mestre Aprendiz da Ordem dos Cavaleiros do Poder e que o meu símbolo é o Dragão de Fogo. Mas ficou por contar como tudo aconteceu. Na Ordem dos Cavaleiros do Poder chamamos ao momento em que somos entronizados como Mestre Aprendizes e nos marcam com o nosso símbolo como o Ritual dos Símbolos. Para lá chegarmos devemos passar pelo derradeiro caminho da redenção, mas sobretudo por uma prova que nos surge no ponto ar. Para os mais distraídos, só para recordar, o caminho da redenção tem sempre quatro pontos distintos: o ponto terra onde iniciamos a caminhada; o ponto água onde nos vemos perante nós mesmos; o ponto ar onde finalmente buscamos a aceitação do que é e não do que desejávamos que fosse; e por fim o ponto fogo onde firmamos o nosso compromisso com o nosso tempo e o tempo dos outros. 

É entre os pontos ar e fogo que surge a prova do Túmulo, um exercício de insanidade mental que nos faz perguntar onde realmente deveríamos estar e torna claro se estamos predispostos a assumir o lugar de Mestres Aprendizes e dessa forma passar a influenciar a vida dos outros e dos seus. 

Mestra Caelum levou-me para Ethérnia até uma velha cabana perdida atrás de uma velha ermida abandonada. À espera estava Blua, companheira da Ordem dos Cavaleiros do Poder que praticava o velho culto do Dragão Azul. 

Os praticantes do velho culto do Dragão Azul são cavaleiros com o poder da hipersensibilidade, conhecidos pela capacidade que têm de fazer os outros revelarem os seus verdadeiros demónios, mesmo aos cavaleiros mais fortes e preparados. Eu e Blua já nos conhecíamos à algumas épocas anuais, tinha sido eu a treiná-la nas artes da sobrevivência em locais inóspitos e nas artes do combate com espada. Pensava que sabia o que me esperava, mas Mestra Caelum havia-me ensinado que o Túmulo não é um caminho, é um abismo. Escalá-lo é a superação final rumo ao potencial que tencionamos ser. 

Fui fechado na velha cabana com Blua. E ela confrontou-me: 

- Então és tu o meu Túmulo? 

- Como? – questionei surpreendido. 

- Muito bem… estou pronta para perceber o que me trouxe até aqui… - continuou Blua, pensando que a minha pergunta era parte daquela encenação obtusa. 

Naquele momento fiquei também eu confuso. Não estaria também ela a testar o meu momento e a minha integridade. Nestes momentos somos ensinados a não ter preconceitos e a aproveitar o que de melhor a situação nos pode dar. Então eu continuei: 

- E o que te trouxe até aqui Blua?- perguntei. 

- Disseste no último dia que treinamos perto das Lagoas de Ribra que o nosso caminho havia acabado naquele momento. Disse-te que não aceitava, que não percebia. E agora, aqui estás… para me lembrares que o caminho acabou. Que tive de te perder, que vou continuar a perder quem gosto… que vou continuar a caminhar, a conquistar, a amar só para voltar a perder mais à frente. Dizias-me que o nosso caminho era esse, que esse era o teu caminho…… Então porque voltaste? Para me lembrares que tenho de te perder outras vez quando nunca me deste a oportunidade de continuar. – argumentou com a voz gasta como se lhe faltasse o fôlego para se fazer perceber a ela própria. 

Fiquei petrificado, agarrado ao chão sem me conseguir mexer. Esperava ouvir tudo, menos o passado que tudo fizera para esquecer. Sempre me refugiei na minha ausência para não ter que sofrer com a ausência dos outros. Blua tinha sido um desses casos. Tinha-me ligado aos seus olhos, à forma como pronunciava os poemas que escrevia e à forma como sorria desligada do horizonte. Como sabia que não poderíamos continuar a caminhar, havia preferido dar à ausência a resposta para não sofrer. Mas o meu Túmulo trouxe-me aquele abismo de volta. 

- Não voltei, foi o meu Ritual que me trouxe. És o caminho que me falta percorrer antes de receber o meu símbolo. Agora percebo porquê. – retorqui ansioso e tentando não mostrar que estava a falir emocionalmente. 

- Então é isso que sou, mais uma etapa? – perguntou-me num berro furioso agarrando-me pelo pescoço. 

- Não, não o és… eu é que sou a ausência da etapa… o que não existe do caminho. Somos finitos na existência e não sabemos como lidar com isso. Somos imperfeitos a lidar com o futuro e com o medo da distância da ternura que nos liga, da felicidade que nos fez ter lugar…. não quis lidar com a tua ausência, com o futuro sem te ver a ver o horizonte…. por isso parti…. sabia que tinha de ser assim… - respondi com uma dor aguda no peito correspondendo ao seu agarrar com um abraço. 

Paramos durante horas a conversar, choramos de forma ruidosa e perdemos a noção de onde estávamos. Não sei com que sentimento Blua saiu daquele momento de insanidade, mas imagino. Eu, por minha vez, aceitei que vou continuar a fazer da ausência a fuga para o meu “finito”, para a incapacidade que tenho para não saber lidar com a ausência de quem me marcou o caminho. O Túmulo recordou-me como é duro perder, como é sofrer pelo caminho a dois que sabemos que é efémero. 

Somos limitados, somos finitos, transitórios e passageiros. Isso não limita a nossa capacidade de sonhar, amar e subir ao topo da montanha, mas lembra-nos como o caminho é difícil e nós imperfeitos. E é bom ser imperfeito, porque é isso que nos dá uma nova razão para voltar a sonhar… 

Depois do Túmulo avancei com Mestra Caelum para o meu Ritual dos Símbolos e cumprir a suprema honra de ser o Mestre Dragão de Fogo.

3.06.2013

A Crença (mais uma parte do livro Tempo)


Mizegui Takasugui, Mestre Guardador de Sonhos, foi espécie de anjo da guarda durante muitos anos. Apesar termos quase a mesma idade, Mestre Mizegui já era Mestre Aprendiz em Iniciação muito antes de eu mesmo ser Companheiro da Ordem dos Cavaleiros do Poder. Era fora do normal, descendente direto de um dos predestinados do novo início. E ao contrário de muitos outros descendentes diretos que viviam na sombra da sua herança, ele era especial, e de fato um predestinado. Não era o mais sábio dos Mestres na arte do combate, muito menos o mais audaz dos Mestres na arte do domínio dos saberes ocultos. Ele era, apesar da tenra idade, o melhor na arte de interpretar os sonhos, na capacidade de ouvir o coração escondido pela alma corrompida pelo tempo. 

Em tempos, em conversa nas Montanhas de Endai, já com o por do Sol como horizonte perguntava-me: 

- Já alguma vez ouviste o teu coração encoberto pela alma agastada pelo tempo? 

- Sim. Quando fiz o meu primeiro caminho da redenção, enquando tentava perceber qual a parcela do meu ser que me contaminava. – respondi intrigado. 

- E a que resposta chegaste? – voltou a questionar. 

- Que a vida pode mudar num sopro. Que sem percebermos somos dominados pela falta de alento e num ápice de ligeireza e devaneio nos voltamos a perder. – voltei a responder. 

- E como é que fizeste frente a essa resposta, meu bom amigo? – voltou a perguntar mas desta vez olhos nos olhos. 

- Acho que ainda hoje tenho dificuldades em perceber esta resposta. Quando me perco, gosto de acreditar que o tempo do amanhã acabará na sua sabedoria por acalmar os intentos da minha perdição. – respondi alinhado com a sua visão. 

- Que nome dás a esse amanhã? – voltou a interrogar 

- Boa pergunta. Nunca pensei realmente nisso … - retorqui. 

Correspondendo ao meu desabafo, colocou-me a mão no ombro direito, voltou os olhos para o Sol a acabar de se pôr e compartilhou estas palavras que me perseguem até hoje: 

- Sabes, meu bom amigo, esse amanhã é a crença. É a esperança que depositamos nos objetivos que nos definem, é um porquê que questionado se limita a ele próprio, é a causa que existe para existirmos. E quando já não há ontem nem hoje, há a crença, e essa só existe no amanhã. 

Depois disto, Mizegui puxou uma cópia do Livro dos Elementos que traz constantemente consigo e partilhou um dos seus códices poéticos redigido pelo seu antepassado: 

A inconsequência da minha mente 
O azar de ser humano 
O odor das palavras que não disse 
Continuam a ser remoinhos fechados, 
Remoinhos fechados na não exatidão da minha crença. 
Absolvo-me no entretanto do crer de todos 
Nos trópicos de latitudes enganadoras 
E nos fados de neblinas sumptuosas e recíprocas. 

Assumo a fé própria de estar algures no celeste, 
Assumo a crença que me é susceptível de não estar algures na neblina, 
Assumo nas entrelinhas da noite a fé que não vagueia nos algures 
E que sem querer entender onde desperta o seu poder 
Tento ressuscitar no acaso de ser humano. 

Pelo caminho, 
Quero ser, persistir, 
Subsistir nos celestes e neblinas do meu fantasma 
Sem o talvez de sombras e noites xenófobas 
Sem a inconsequência da minha quase mente. 

A fé que exerço não é a minha crença 
Nem o meu sarcófago lendário de que furto alento, 
É a saudação de um acaso humano 
Arrebatado no presságio de não ser vão e vazio... 

Observo-me neste oco e deserto espelho, 
Na orbe que o retém 
E que um dia evocarei de refúgio 
Na sagrada noite de sombras de aposento. 

Neste momento percebo, 
A fé que exerço é a aura da Fénix da minha alma e mente, 
A fé que exerço é a natureza de um ser bizarro, 
É a peregrinação que faço em busca da minha nobreza, 
Em busca do equilíbrio 
Da inconsequência da mente...

11.02.2012

Gosto de acreditar que todos estamos dimensionados para o bem (livro Tempo)



Gosto de acreditar que todos estamos dimensionados para o bem, aliás por estas eras acreditamos que o homem nasceu predisposto para o bem. Acreditamos que mesmo os que vivem à margem da sua própria natureza estão predispostos para o bem e que cabe a cada um de nós, nobres cavaleiros imperfeitos, criar os campos de oportunidades suficientes para cada um poder concretizar todo o seu potencial orientado para a bondade e promoção do bem comum.

O mundo como cada um de nós o conhece está para além do subjetivo, chega a ser absurdo a forma como o vemos, sobretudo quando nos damos ao trabalho de partilhar a nossa opinião com o universo em redor. Tudo que o eu digo é assimilado e entendido de forma absolutamente distinta por cada um dos que me ouve. Cada um absorve, subverte e rentabiliza a informação de forma diferente, com uma intensidade diferente, numa perspetiva diferente. Por isso também a forma como vemos o bem  subverte-nos. Uma decisão imponderada, uma abordagem diferente do real que nos envolve pode ser assimilada e compreendida como ato de maldade.

No Império de Gaia, regido pelo Livro dos Elementos, somos ensinados acreditar que o bem é um fluxo energético constante que habita em todos os seres humanos, centrado na sua aura e que um dia alguém registou em palavras como sendo "o poder do coração".

Duvido muitas vezes desta ideia, mas não duvido da intenção cega que a mesma pretende guardar "que cada ser humano merece um novo começo, independentemente do caminho que um dia escolheu para se perder…"

8.14.2012

Tempo - Os dias de Milénia - Cap. I - Faço hoje 33 anos


Ano de 3980, faço hoje 33 anos, não sei muito bem que dia é, nem o mês, mas pelo calor deve ser a estação a que os antigos chamavam de Verão. Nos dias que correm limitámo-nos a contar os dias da época anual (consagrada como tendo 365 dias), eu nasci no dia 114 pela manhã noturna. Hoje faço 33 existências num mundo sem memória que recupera ninguém sabe muito bem de quê.

Vivo em Ethérnia, um pequeno vilarejo ancestral, sede feudal da região. Sou sozinho, os meus pais vivem aqui perto, a minha irmã migrou para a região de Bahar onde vive em família com o seu esposo.

Por estes dias estou em Milénia Centrum, ilha mãe do arquipélago de Milénia, também rezadas como as ilhas do descanso eterno dos Deuses. Milénia Centrum é uma espécie de capital espiritual do Império de Gaia, que une as muitas centenas das regiões livres conhecidas. Todas as épocas anuais este número de regiões aumenta, assim que o Homem descobre novas regiões que desconhecia.

Estou em Milénia em retiro, como o tenho feito em todas as épocas anuais desde que assumi as minhas funções de Mestre Aprendiz na Ordem dos Cavaleiros do Poder. Para além de Milénia ser a minha casa espiritual, ela é ao mesmo tempo o refúgio de muitas histórias intemporais, de aventuras que ficaram por viver e onde estive mais próximo de perceber o que os nós, seres humanos, chamamos de "Amor".

Apesar de estar em retiro não estou sozinho, vim com alguns Mestres Aprendizes iniciais e alguns candidatos a aprendizes de Mestre. Na Ordem dos Cavaleiros do Poder começamos como candidatos a aprendizes, evoluímos para Aprendizes e por fim Companheiros. Depois alguns de nós seguem o caminho de Mestre, sentem que para continuarem o seu percurso têm de devolver e multiplicar parte do que lhes foi dado. Começamos como Mestre Aprendizes em iniciação, passamos por Mestres aprendizes em confirmação e por fim Mestres Aprendizes. A palavra aprendiz segue-nos sempre porque como nos conta a lenda que deu origem à Ordem dos Cavaleiros do Poder: " o Mestre que perdeu a capacidade de aprender já não tem mais nada a ensinar". Alguns de nós seguem depois o que chamamos de "caminho simbólico" e tornam-se em Mestres Simbólicos, protetores de um saber maior, só ao alcance de alguns.

Mas voltando a Milénia Centrum e ao "Amor", nestes estranhos tempos procuro desvendar o seu mistério, a sua energia, insistindo em inutilidades para perceber onde reside o meu erro ou a minha certeza. Quero perceber se amo o meu ego, os que me rodeiam, a minha família, o que faço ou uma construção de imagens todas elas irreais, ou, na pior das coincidências, nada de nada, sendo eu mesmo um vazio nos vazios que gerei e me rodeiam. Pelo meio das minhas dúvidas, mantenho o meu trabalho de reflexão, meditação e contemplação junto dos meus Mestres Aprendizes em iniciação e dos seus Aprendizes, tentando viver sem pressas, respeitando o tempo imaterial. Aprendi que não vale a pena apressar o ritmo do Universo, mesmo que a realidade assim o determine. Desvendar o essencial apenas se revela quando estamos disponíveis para sermos o que ainda não somos, deixando verter parte da água que encheu o nosso cálice. (continua...)



7.17.2012

Os 4 elementos nas coincidências do amor...


Somos o produto dos quatro elementos,
Somos a elevação de nós mesmos,
A ação que nos ocorre quando fugimos do acaso.
Somos água
Quando mergulhamos na alma,
Somos terra
Sempre que percebemos o destino,
Somos ar
Quando existimos na vida dos outros,
Somos fogo quando percebemos o amor.
Viajamos da água para o mar
Quando a alma se transcende,
Transformamos a terra em montanha
Quando escalamos além do destino,
Calibramos o ar para vento
Quando a vida dos outros se desafia na nossa,
Do fogo forjamos o metal
Quando o amor é incondicional...

Dos quatro elementos ativos partimos,
Dos quatro elementos transcendemos,
No quinto elemento existimos,
No fim do caminho,
Finalmente acreditámos.

Pelo menos,
Eu quero um dia acreditar
Que fui mais sem menosprezar o menos,
Que alinhei
Logo depois de ter desertado,
Que fui capaz de amar
Logo depois de ter desesperado.
Sermos o que somos já não chega,
De onde viemos e de onde partimos
São agora memórias de devaneio.
Para onde vamos,
A disciplina que abraçamos,
O mapa que desenhamos,
São apenas coincidências
Que escondem o que realmente amamos...


7.08.2012

O Caderno de Encargos Simbólico... (atualização)

O ser humano tem a tendência para se auto deteriorar e ritualizar-se numa busca obstinada por meandros mesquinhos, egoístas que o destroem e violam a sua integridade. O divertido e rebuscado da situação é que boa parte das vezes o ser humano tem plena consciência da sua insanidade, mas insiste porque é imperfeito, fraco e "humano".

Mas o melhor de ser humano é poder errar e traduzir esse erro numa oportunidade. Ainda neste seguimento vi e ouvi por estes dias, num desses filmes ridículos que têm uma ou duas frases de oportunidade, uma filosofia interessante: "não existem erros, apenas um caminho que te levou a um determinado destino...".

Mas voltando ao que hoje me traz aqui, tenho a plena consciência do que me deteriora diariamente e me faz ritualizar os meus devaneios. Temos direito a vivê-los enquanto nos testamos e aprendemos o caminho do TEMPO, mas não podemos eternizá-los, eles podem-nos tornar obsessivos e fazer com que nos percamos na nossa própria irregularidade. Não estou a afirmar que deixemos de ser irregulares, estou apenas a relembrar (nomeadamente a mim próprio) que nada é tão bom que não acabe ou se deteriore, nem nada é tão mau que não possa melhorar ou mudar de sentido.

Hoje tirei alguns minutos para contemplar uma pequena capela em Famalicão, e qual não foi o meu espanto quando me dou no meio de uma cerimónia ortodoxa num templo cristão. Era um ambiente estranho, e eu era uma estranha e pálida presença por entre os presentes. Mas não deixa de ser assombroso que é mesmo assim que me sinto diariamente, um estranho num mundo de estranhos que me estranham e se estranham.... por breves minutos entrei em astral (momento em que o nosso ser simbólico viaja para além da nossa carcaça) e fiz daquele banal e estranho momento uma ponte para a minha nova casa. Desenhei pela primeira vez, e de uma forma clara, o que acredito ser "um caderno de encargos simbólico". Não, não estou a falar de mais uma "troika económica", falo de estabelecermos metas existenciais e significantes que nos permitem alimentar o espírito inconformado e elevarmos o nosso nível existencial, simbólico e cósmico.

Determinei para mim próprio um caderno de encargos muito exigente, que exige inclusive austeridade, mas ao contrário da austeridade atual, é realista e de prazos credíveis.
Metas obrigatórias:
- Dizem que um homem deve escrever um livro, plantar uma árvore e formar família... não entro nestas máximas, mas escrever sempre foi uma prioridade, por isso escrever a poesia e prosa que guardo à imensos anos e me fazem têm entre 12 a 24 meses para verem a luz do dia e vou chamar-lhe, intitulá-lo TEMPO...
- Quero ver a Acrópole do Cavaleiro Cosmos (visitar a Grécia), caminhar e profanar o meu local de Batismo (mergulhar na Lagoa do Fogo em São Miguel, Açores) e subir Machu Picchu (Perú) no espaço de 12 a 24 meses
- Pretendo aprofundar, melhorar e conhecer melhor os laços simbólicos que estruturam a minha família sem qualquer barreira temporal que o determine
- Pretendo ver TEMPO (total livro que idealizo) interpretado e apunhalado por seres humanos reais e com quem respiro diariamente (os meus formandos e formandas), juntando a este objetivo o compromisso de continuar a ser feliz no que faço (ser professor animador) o máximo de tempo possível
- Por fim deixo cair os devaneios capitais, prometo-me a espiritualidade simbólica de quem acredita num caminho longo, com percalços e erros que não deixarão de existir, mas com TEMPO.

Espero bem ser capaz de dar voz e corpo a estes compromissos e ao maior de todos que me obrigou a pensar em todos estes... termino com a proposta de um exercício de simbologia que todos devem tentar, crentes ou não crentes..... façam uma viagem curta com a pessoa mais significativa do momento (nem sempre é a pessoa que amam ou mais gostam, muitas vezes é aquela pessoa que mais luz traz à vossa noite de penumbra), procurem uma viagem noturna de céu limpo e um local que permita uma contemplação do horizonte e do imenso celeste (por exemplo a praia com céu limpo à noite ou um declive num topo de montanha também à noite), permitam um acompanhamento sonoro relevante e sereno (a música contemplativa permite acalmar a mente e faz fluir o pensamento), por fim tracem o caminho do passado e do presente, partilhem-no com quem vos acompanha, ouçam o que ela/ele tem para vos dizer, ouçam-se a vocês mesmos e determinem metas significativas para o futuro, como esta espécie de caderno de encargos simbólico que acabei de exercitar. Têm é de ser reais e com limites temporais claros.

O exercício é tão básico que todos perceberão que, em alguma altura, já o fizeram, o que tenho a certeza, é que não têm consciência da dimensão simbólica de cada um dos passos que descrevi, mas isso fica para outra viagem com letras. Hoje começo a construir a minha nova casa... para começarem a desenhar o vosso caderno de encargos simbólico desafio-vos a queimar uma nota de pelo menos €20 euros.... porquê??? experimentem e perceberão...

6.21.2012

Alguém vai deixar de ter tempo para existir...

Trabalho è 12 anos, mais coisa menos coisa, nunca tive de ficar de baixa médica e raramente faltei. A maior parte dos meus anos de labuta têm sido uma benção e, ano após ano, têm sido magníficas as surpresas que um ano traz após o outro. Refiro-me sobretudo aos últimos seis anos, desde que sou professor. Cada novo ano é uma rotina completamente nova, um desafio inesperado e um combate sem tréguas que não nos permite adormecer nem passar ao lado do que temos de ser.

Ao longo dos anos pus em prática as mais variadas metodologias e pedagogias, investindo numa dupla perspetiva de afetividade e autoridade, num ambiente de pedagogia partcipativa. Se os resultados pedagógicos, académicos e humanos foram sempre recompensadores, o mesmo não se pode dizer do real que circunda a vida do professor, sobretudo nos últimos 3 anos.

Antes de continuar importa deixar claro que considero um privilégio ser professor e que esta profissão ainda é , nos contornos atuais de crise, a mais recompensadora e humanamente respeitada. Mas como dizia, nos últimos 3 anos temos vindo a passar por mudanças, ditas estruturais, em nome de um bem maior, a chamada qualidade da prática educativa. Primeiro foi Bolonha nas Universidades e Politécnicos, depois os cortes cegos no Ensino Básico e Secundário, sobretudo nas Escolas com contrato de Associação, e por fim o fim das Novas Oportunidades. Pelo meio, em média, cada professor perdeu cerca de 30% do seu rendimento. Todos nós sabemos, balelas à parte, tudo é feito porque não há dinheiro, não me venham com eficiência e eficácia, porque quem hoje tem emprego na Educação em Portugal, é escravo, quem não o tem é vítima. Só sei que trabalho cada vez mais e ganho cada vez menos. Não está em causa que nos tinhamos de reorganizar, mas a verdade é que depois das sucessivas reformas, os professors deixaram de ter tempo para estar com os alunos, as escolas, espaços de socialização e democracia partcipativa, estão a tornar-se espaços de ocupação de tempos livres onde os jovens aproveitam para verificar algumas matérias e conteúdos. Em vez de alunos, docentes e discentes motivados temos um conjunto de pessoas a aturarem-se sem perspetivas e vitimas da quantidade (30 alunos por turma é uma irracionalidade).

Por fim apelam à nossa participação cívica e eu pergunto, se nem tempo tenho para existir, vou participar em quê e com que tempo... e para quem me conhece estou envolvido ativamente em 8 associações... Eu falei apenas do ensino, mas isto alastra a todos os setores da vida social, embora com realidades e vivências distintas..... no meio de tudo isto.... Alguém vai deixar de ter tempo para existir... eu pergunto-me, quando é que nos esquecemos que precisamos de tempo para entender o tempo, a esta velocidade vazia acabaremos todos por desaparecer na nossa própria falta de sentido. Repito, alguém vai deixar de ter tempo para existir, ... não permitam que isso vos aconteça... na família, com os amigos, com quem amam e no que realmente têm que fazer...

6.15.2012

A cura....



Aprendi que um guerreiro "faz o melhor que pode e sabe até que o seu caminho se revele...". Quanto mais aprendo e quanto mais alimento as minhas dúvidas acredito ainda mais nesta demanda. O único problema é perceber quando é que o caminho realmente se revela.

Importa pouco onde fomos parar, importa é que estamos.... e misticismos e variações astrais à parte, importa o que fazemos com o tempo e recursos que temos no sítio e com as pessoas com quem estamos.
Numa citação mais ou menos religiosa, supostamente vimos à Terra para deixar a nossa marca e partirmos de volta a um infinito que ninguém percebe ou quer perceber. E por entre caminhos que se revelam e marcas mais ou menos declaradas vamos acabar por nos "adoentar" e deixar consumir por uma "chaga de inexistência". Vamos acabar por duvidar de nós próprios e por tudo que mexe ao nosso lado. Muitas vezes está longe de ser nossa responsabilidade, mas noutros venerados momentos nós somos os principais responsáveis pela "nossa própria doença". Nesta fase todos procuramos uma cura, uma forma de nos redimirmos e percebermos. 

Mas sabem qual é  parte divertida de tudo isto, é que a cura é mais uma ilusão emocional, mais um momento de paralisia até à doença seguinte que desencadeará a cura que se lhe segue. Nós somos a nossa própria cura, a nossa própria terapia. A força de vontade e capacidade de resiliência também de aprendem, mas as decisões continuam a ser de quem as toma, o que faz dos nossos erros um decisão inadiável na consciências que todos prezamos ter. Mesmo assim procurar uma cura não nos irá fazer mal, esse caminho tortuoso que todos insistimos em fazer, tem pelo pelo menos a vantagem de nos despertar, de nos dar a perceber o que é ilusão, o que pode ser a verdade e o que de fato é mentira. Um brinde à cura universal.... aquela que jamais será encontrada... mas que nunca deixaremos de procurar enquanto houverem portas por abrir.