5.09.2017

Um mundo que é de todos... - Diários Indochina IX




Ir para a Guerra pode ser encarado como um ato heroico, algo destinado aos grandes guerreiros que de forma descomplexada e despojada dão a vida por algo maior que eles mesmos num ato de fé difícil de compreender. Mas a realidade dos números e dos atos pode ser completamente diferente. Ao conhecer a realidade da Guerra do Vietname, mais do que os números, impressionam as atrocidades cometidas. Mas o que me faz pensar realmente que a Guerra é sempre a última das vias, é o facto de perceber que por vezes "é tudo porque um louco se lembrou", e com isso morreram milhões.

Das últimas Guerras iniciadas pelos Estados Unidos, lembro-me pelo menos de 3 que foram iniciadas "só porque sim" com uma desculpa que "não lembra ao mais criativo dos poetas". A Guerra da Jugoslávia foi criada com o falso pretexto de proteger o povo Kosovar, a Guerra no Iraque foi iniciada para acabar com armas de destruição maciça que nunca existiram e a Guerra do Vietname foi iniciada porque um barco americano foi atacado por lanchas militares vietnamitas em águas internacionais, facto que se veio a provar uma fraude que serviu de desculpa à invasão americana. Fim de história, mais de três milhões e meio de mortes e conseuências noutros tantos milhões que duram até hoje.

O mundo pode estar na mão de loucos e cabe a cada um de nós fazer parte do "equilíbrio" que o mundo precisa. No futuro todos podem e deverão ter direito a um trabalho, todos podem e deverão ter direito a escolher fazer escolhas, mas sempre na consciência de que tem de chegar para todos, o que implica abdicar-mos de parte. A mim não me custa abdicar de parte porque a parcela que me interessa está nas pessoas de quem gosto e no que posso construir com elas.

Até que ponto estamos dispostos a procurar o equilíbrio, pondo de parte o acessório e a loucura do ter? Até que ponto temos consciência de que este mundo nunca foi nosso, mas que pode ser de todos?

5.08.2017

A história do Leão da Água - Diários da Indochina VIII




Os dias eram dias e os momentos eram momentos. Os segundos eram segundos e a vida prosseguia sem grande história ao sabor dos ódios e conspirações do dia-a-dia. Esta é a história de um leão que viria ficar conhecido como o Leão da Água.

Um dia aventurou-se a atravessar o Rio das Almas Profundas pela primeira vez. Não era costume e para além disso os leões daquela região não sabiam nadar.

Podia seguir pela ponte de bambus. Podia até improvisar uma jangada. mas decidiu arriscar lançar-se à água e chegar à outra margem.

Do outro lado ficava o Templo dos Animais Míticos, sítio onde pretendia buscar ensinamentos para conduzir melhor o seu reino. Nesta aventura o mais estranho aconteceu quando se atirou às águas bravias do Rio das Almas Profundas. Era o primeiro Leão daquelas terras a fazê-lo. 

Inicialmente ainda tentou nadar mas foi rapidamente ao fundo,. Entretanto com a ajuda das correntes e alguns velhos troncos de árvore flutuantes, perdidos no meio da água, lá conseguiu chegar à outra margem.

Levantou-se em esforço, fez o caminho ofegante até ao templo e lá esperava-o um dos Ansiães do Templo, o Dragão de Fogo que lhe deixou as seguintes palavras:
" A tua viagem começa agora. Não esqueças nada do que aprendeste mas deita fora todas as tuas certezas. Hoje, aqui, começamos como Mestre e Aprendiz, amanhã seremos companheiros de jornada, depois faremos do mundo um refúgio melhor para que outros animais míticos também possam atravessar para a outra margem..."

"A oportunidade de mudar... as 3 fases da evolução simbólica..." - Diários da Indochina VII





A caminho das terras de Saigão, a grande cidade vietnamita de Ho Chi Min com mais de nove milhões de habitantes, parei em Hue e deixei-me esmagar pela Cidade Imperial. Em Portugal isto seria uma espécie do "centro do mundo cultural", aqui, sendo importante, não passa disso, importante.

Durante boa parte dos dias encontramo-nos com os locais, almoçamos em suas casas, participamos nas suas atividades diárias, partilhamos as nossas histórias, mas há sempre tempo para uma das nossas tarefas essenciais, meditar. Aliás foi essa jornada espiritual que me fez voltar a terras do Oriente.

Temos exercícios de meditação e simbologia diários e num deles, aqui em Hue, centramo-nos na questão se todo o treino de autoconhecimento e capacitação que desenvolvemos nos leva realmente à oportunidade de mudar e se essa oportunidade de mudar é uma escolha nossa. Refletimos se fazemos do nosso tempo de meditação e aprendizagem uma oportunidade para nos melhorarmos e dessa forma mudarmos.

Boa parte das mudanças que operamos em nós próprios são naturais, progressivas e não pensamos nelas a maior parte do tempo. Outras são agressivas, outras ainda, as que vos falo, são escolhas.

Estes últimos dias são sobre essas escolhas em que temos a oportunidade de mudar e de forma consciente o escolhemos fazer.

Neste caminho de suposta sabedoria partilho hoje os 3 momentos que definem este progresso.

Primeiro Momento: "Sou o que sou em virtude do que todos somos", na medida em que primeiro procuro encontrar o meu lugar no mundo e que este acontece na relação de partilha e aprendizagem que me predisponho a ter com os outros.

Segundo Momento: “O importante é que isto nunca foi sobre ti, foi sempre sobre os outros.” Depois de perceber o meu lugar no mundo importo-me com a minha missão multiplicadora, procuro perceber que existo para além das minhas fronteiras físicas, intelectuais e espirituais.

Terceiro Momento: “Um dia vi-te e percebi que era eu…”. Em equilíbrio com o que sou e com o que sou capaz de mudar no mundo aceito a bênção que é poder mudar a vida dos outros enquanto mudo a minha. Posso não ter um plano “totalmente definido”, mas também “não vejo o fim à vista” e enquanto não há fim há caminho por fazer.

5.07.2017

Momentos para a minha mãe - Diários da Indochina VI


Mãe, sei que não vai acontecer quando quero
Mas esperei sempre que entendesses
As parcas palavras que fui dizendo e os gestos quase suaves que ia escondendo
Mas sei que tenho a obrigação de não te fazer esperar.
Hoje, no momento inesperado porque passo em cada dia no Oriente
Lembro-me do espelho do teu rosto
Da tua forma de andar
No teu desvio natural à realidade que te faz líder do tempo de todos

Lembra-te: Mãe, amo-te.

Poderei sempre brincar e fingir distâncias
Mas o colo, a Lua diurna e as ruínas da alma
Não permitem que esqueça...
És o tempo que nos dás todos os dias,
A companhia que trazes à sabedoria das reuniões familiares,
E aos gestos que são mais que momentos....
São amor

5.06.2017

Diários da Indochina - Parte V - "A solidão aparente..."




Cedo percebemos que estarmos com nós próprios pode ser um desafio irritante, chato, intimidador e até perturbante. A esse momento chamo solidão. 
Estamos sós de muitas formas. No meio da multidão assombrados pela quantidade ou nas paredes do quarto em que dormimos todas as noites. Aqui por terras vermelhas do oriente, no meio da diferença completa não me sinto só. Sinto-me a sós, uma paz estranha e que deixa o tempo vencer-se a si mesmo.
A delicadeza e alegria  com que somos tratados, a calma dos mais velhos e sábios de estar perante os acontecimentos como eles são, a sobriedade dos templos e as palavras que nunca entenderei lembram-me a desorientação dos dias e a voz interior que deixamos de ouvir só porque temos medo de estar a sós.
Esta solidão aparente é reconfortante, é estranhamente reconciliadora e lembram-me que se não conseguimos estar sós, também dificilmente estaremos a par. Afinal o que pode ser pior do que termos medo de nós próprios? No momento da verdade a decisão será sempre a sós, nós a a nossa consciência...

5.05.2017

Diários da Indochina - Parte IV - "Estamos preparados para o que não é real..."



Halong  Bay não existe. A civilização termina, o som da modernidade desligasse e o dragão deslizante (significado de Halong) apodera-se da realidade.
Quase dois mil titãs elevam-se nas águas e organizam-se num monumental labirinto rochoso invadido pelo mar da Grande Muralha.
Perdes a visão, desligas a velocidade de existir e o real não mais importa. Lês e entendes a tua alma no meio de uma beleza impossível de descrever aumentada na diferença de que nunca viste nada igual e provavelmente nunca mais verás.
De repente os demónios são pequenos fantasmas proscritos e o meu (o teu) tempo para. Percebes que perdes muito tempo com o que não importa, com o que não é real e te adormece o coração para o que realmente foste emanado e te faz existir.
Estaremos nós preparados para o dia em que o espetacular, o único e o monumental se fizer vivo na nossa vida. Terá o nosso copo espaço suficiente, terá o nosso coração luz e intensidade bastante para descodificar a informação essencial. Saberemos nós, nesse momento, a diferença entre o real e o não real.
Obrigado Dragão Deslizante, obrigado Halong Bay.

5.03.2017

Diários da Indochina - Parte III - "Quem deixamos que realmente cuide nós..."




Por estes dias aqui em Hanoi, Vietname, alguém me perguntou "Quem é realmente que tu deixas que cuide de ti?..."
Para deixarmos que alguém cuide de nós, primeiro é preciso que "alguém" escolha tomar conta de nós. Para termos direito a essa escolha é preciso que esse direito nos seja facultado. Depois desta bênção, então podemos começar.
Deixarmos que alguém cuide nos sem olharmos às suas intenções é algo muito natural. Aliás, somos seres mensuráveis que buscam sempre o tangível. Termos alguém que sentimos que cuida de nós é um privilégio sobre o qual não podemos abdicar. Aliás 90% da nossa vida é sustentada por quem cuida de nós, por quem nos dá a base, por quem, apesar do seu tempo e objetivos, faz de nós também o seu tempo e objetivos. Por isso, mais do que deixar que cuidem de mim, preciso que cuidem de mim para que possa continuar a cuidar dos outros e claro... a cuidar de ti que cuidas de mim.

5.02.2017

Diários da Indochina II - "Não existe derrota nem vitória..."





A existência traduz-se em sabedorias que dá-mos como adquiridas, duas delas são a derrota e a vitória. De acordo com o ciclo da natureza não existe nem derrota nem vitória, apenas movimento. O inverno imponente, assume-se, mas acaba por ceder perante a alegria da Primavera. As pastagem da grande savana são ceifadas pelo apetite voraz da gazela e do gnu, que por sua vez são devorados pelo leão.
Nesta escala de tempo interminável não há vencedores nem vencidos, há etapas que serão irremediavelmente cumpridas. Não há problema nenhum em sermos derrotados, o derrotado foi capaz de lutar e dar corpo ao seu estado de alma. Há-de chegar a montanha em que ele será o primeiro a chegar ao cume. O problema está nos fracassados, os que nunca foram derrotados nem vencedores, porque simplesmente se recusaram a tentar, arriscar e fingem existir.
O principal perigo não é cair, é ficar preso no chão. Ter medo da dificuldade é um disparate. Como alguém disse "Dificuldade é o nome de uma antiga ferramenta criada apenas para nos ajudar a definir quem somos..."

5.01.2017

Diários da Indochina - Parte I - "Até Já Dragões..."


Hoje estou de partida para o Vietname. Não sei bem o que me espera, mas pelo menos 15 dias sem atender telemóvel e passar ao lado da realidade casual serão uma certeza. Os últimos 30 dias foram alucinantes, fiz mais de 10000 km, estive com milhares de pessoas, ajudei a dar forma a dezenas de momentos épicos, foi o Encontro Internacional de Animação Sociocultural, o ANIMA 2017, que teve lugar entre a Croácia, Zadar e Famalicão, a minha cidade natal.
No final de tudo, de estar com quem amo, com quem prezo e com quero quero estar, fazendo o que mais gosto de fazer, o que conta continua a ser o mesmo, a viagem que fazemos, a forma como a fazemos e as pessoas com quem as fazemos. 
Neste último mês tive a acompanhar-me um conjunto de Dragões que me fizeram reavivar a memória, que a viagem só faz sentido quando deixa de ser nossa e passa ser de "todos". Ao mesmo tempo relembraram-me que a perfeição não existe, mas que é possível ser perfeito "calculando o essencial" do que realmente queremos e fazemos parte.
Agora de partida para a Indochina (Vietname e Cambodja) espero que esta viagem de meditação e confrontação me prepare o espírito para as "viagens mais importantes...".
Este diário reabre as páginas do Cavaleiro Cosmos...

7.09.2016

ANIMA, a velocidade de quem se procura a si próprio....


Já não venho aqui há alguns meses. De vez em quando é importante voltar. Ou por falta de tempo ou motivação, tudo seriam desculpas. A certeza é de que foram meses dedicados à reciclagem.
Sempre gostei de começar a partir do nada, de perceber que uma oportunidade pode levar a outra e a outra, e que cada nova oportunidade é uma boa notícia, porque significa que está tudo por fazer, e se está tudo por fazer temos todas as razões para voltar a ser felizes, como se fosse a primeira vez, outra vez.

Mais do que professor, gestor, formador, educador ou escritor, continuo a sentir-me Animador e a encarar esta maneira de estar não como profissão, mas como modo de sentir, ganhar, perder e procurar. "Anima" significa "dar alma", estar pronto para ser ponto de passagem de outros, para ser caminho sem estabelecer direções pré defnidas, A "Anima" ensinou-me a procurar-me todos os dias, a perceber que hoje sou parte da vida de uma pessoa que já não verei amanhã, ensinou-me a sofrer no silêncio do sonho que não conseguirei ajudar a realizar, ensinou-me que a velocidade é inevitável e que temos de estar preparados para acelerar e saber parar, mesmo que a escolha já não seja nossa.

Percebi que é impossível controlar o tempo, mas que mesmo sem o controlar, entrar na aventura continua a ser uma escolha totalmente nossa.

3.04.2016

Afinal o que importa para ti?

Os dias são ancoras que tentam não deixar o tempo passar, mas ele não para, e por vezes o tempo destrói os dias, a cronologia e o que de mais importante temos... só porque nos esquecemos de olhar à volta... só porque nos esquecemos de parar...
Sempre que uma nova revolução se aproxima percebemos que não estávamos preparados, sempre que estamos preparados, todo o nosso treino já está desatualizado.... mas o que importa continua a ser o mesmo, continua a fazer o mesmo sentido que tinha antes, durante e após a revolução. 
Depois de todas estas contas o que é importante para ti?

11.24.2015

Ouço o mundo que me rodeia mas só permito a crítica a quem não paralisa…


Numa das minhas muitas viagens com Mestre Canis Lupus e Mestre Chitra paramos na região de Boria, na cidade de Milkar, capital feudal de todas as terras borianas. Paramos para cear numa velha taberna vegetariana. Boria é conhecida como a região do Verde Infinito, as suas gentes baseavam toda a sua vivência na ligação com a terra, toda a sua cultura, gastronomia e arte nasciam e morriam no verde da natureza circundante. Por isso dizer que paramos numa taberna vegetariana é uma redundância porque em Boria todas as tabernas são vegetarianas.
Todos pedimos uma sopa de leguminosas e algum pão seco para continuar a viagem. Um desconhecido aproximou-se de nós, fez uma vénia em sinal de respeito e dirigiu-se diretamente a Canis Lupus:
- Mestre, a que devemos a honra de o ter por cá? - Questionou o desconhecido
- Lamento, mas se nos conhecemos não me consigo lembrar com quem estou a falar. - Retorquiu Canis Lupus
- Mestre, sou Edzo, irmão de Edo, com certeza que se lembra de mim. - Afirmou com entusiasmo o forasteiro
- Recordo-me bem de Edo, mas Edzo, seu irmão, nunca ouvi falar - respondeu Mestre Lupus, baixando posteriormente a cabeça e voltando à sua refeição.
- Mas Mestre, com certeza que se lembrará de mim. Treinou-me como seu aprendiz durante três épocas anuais. Eu próprio lhe levei o meu irmão para ser treinado por si. - Insistiu o auto denominado Edzo.
Sem responder, Canis Lupus, continuou a sua refeição. Edzo insistiu um par de vezes e eu respondi-lhe:
- Meu bom rapaz, o meu amigo já disse que não se lembrava de si, se não se importasse pedia que se retirasse para continuarmos a nossa refeição. Ainda temos uma longa jornada à nossa frente.
O rapaz lá cedeu e retirou-se cabisbaixo. Dirigi-me então a Canis Lupus:
- O que se passou meu bom amigo. O rapaz conhecia-te realmente, inclusive falou de Edo, um dos mais promissores Companheiros que treinaste, porventura até futuro Mestre. E antes que desmintas, os teus olhos tensos denunciaram-te.
- Não te vou contrariar, lembro-me bem de Edzo. Mas o que de bom ficou entre nós foi apenas o facto de este me ter dado a conhecer Edo. - Retribuiu Mestre Lupus.
- Mas porquê? - Questionou Mestre Chitra.
- Como todos estudamos e apreendemos, o Mestre que perdeu a capacidade de aprender, nada mais tem a ensinar. Edzo e Edo foram dois aprendizes com quem aprendi muito, mas apenas um deles foi capaz de chegar ao estatuto de Companheiro. Apenas um deles foi capaz de dominar o seu fogo interior e assim reger o quinto elemento, a sua sabedoria e a sua certeza na ação. O outro perdeu-se por entre ideias tão geniais quanto inertes. - Respondeu Canis Lupus.
- Mas o que aconteceu entre vós que te marcou assim tanto? -perguntei-lhe eu reforçando a curiosidade de Chitra.
- Quando treinamos os nossos aprendizes damos forma a uma rotina de treino sob a qual também fomos treinados. Com o tempo vamos moldando novas rotinas com base na experiência adquirida. São os nossos novos discípulos que nos obrigam a reequilibrar e calibrar as opções que fazemos. Edo e Edzo, para mim, foram o início desta fase de descoberta.
E continuou:
- Tudo começou quando lhes sugeri que ambos plantassem um campo de cereais em pleno Inverno, naquele ano mais rigoroso que o normal. Cada um tinha o seu. Edzo cedo percebeu que era inútil aquela tarefa e desistiu. Edo por sua vez, apesar de ter feito a mesma análise continuou a missão que eu lhe confiara.
À noite, à volta da fogueira, partilhávamos a experiência do dia e ambos mostravam-se desmotivados e irritados com a tarefa que lhes tinha dado. Ambos me questionaram até quando o tinham de fazer. E respondia sempre que as ordens que tinha dado eram aquelas e não outras, competia-lhes a eles lidar com elas. Com o tempo Edzo tornou-se permissivo e passivo, passando o dia a treinar outras artes marciais que mais lhe apraziam. Edo por sua vez, mesmo discordando de mim, tentava novas formas de dar vida aos cereais. Por vezes tentava inclusive fazer o trabalho que o seu próprio irmão negligenciara.
À noite, como sempre, encontrávamo-nos à volta da fogueira e, como sempre, ambos se mostravam frustrados e irritados. Até que ao fim de uma longa temporada Edzo se mostrou farto e me enfrentou abertamente. Não permiti que continuasse a falar, mandei-o calar, inclusive recorri à força bruta para o fazer. Neste momento Edo levantou-se e fez o irmão recuar, tentando explicar a frustração dos dois. Deixei que Edo partilhasse tudo o que estava a viver e o sentimento sobre a inutilidade da tarefa que estava a realizar. Explicou-me que o solo nesta altura não possuía os nutrientes necessários à produção de cereais e que seria melhor esperar pela época primaveril. Nesta altura, pedi que ambos se voltassem a sentar e expliquei-lhes que só reconhecia autoridade para ser criticado a quem não abandonava o seu projeto. Edzo tinha desistido de tentar e preferiu procurar outros interesses, por sua vez Edo tentou perceber a tarefa que lhe foi dada e com isso aprendeu a dominar o solo e a gerir todo o seu potencial. Apesar da inutilidade da tarefa, um foi capaz de aprender com ela, enquanto outro preferiu esperar para que os acontecimentos se vencessem a eles mesmos.

Só permito a crítica a quem não paralisa, a quem apesar de falhar continuou a tentar. Quem nunca tentou, quem nunca empreendeu não tem o direito nem o privilégio de aconselhar quem se arrisca a falhar. Neste momento convidei Edo para uma nova viagem e despedi-me de Edzo para todo o sempre. A nossa história acabava ali.

4.06.2015

Há caminhos que ninguém espera que possam surgir... (excerto do livro Tempo)

Todos fazemos planos de futuro, todos nos vemos nas situações que idealizamos como ideais para nós e para os que nos são próximos. Os Mestres da Ordem dos Cavaleiros do Poder não são diferentes, todos eles idealizam no seu íntimo o potencial que cada um dos seus aprendizes pode almejar, o nível a cada um deles pode chegar, a derradeira missão que só ele irá abraçar. Alguns de nós, caídos em tentação afetiva, imaginamos que alguns deles seguirão os nossos passos, que serão uma espécie de percussores do que sempre idealizamos que eles poderiam ser. 

Hoje conto-vos a história de Lyntis, a Cavaleira Lince, alguém que foi capaz de ultrapassar o potencial que qualquer um dos seus Mestre lhe vaticinou e se perdeu nas suas próprias conquistas.

Fui Mestre de Lyntis nas artes da estratégia e das técnicas de combate com armas. Ela fez parte do terceiro grupo de aprendizes que acolhi juntamente com Blua, Sté, Nebula e Monterius. No início, Lyntis era a mais apagada do grupo, a que passava mais despercebida. Blua e Sté funcionavam como um duo dinâmico, Blua mais luminosa e Sté mais metódica e resiliente. Monterius era a mais apoteótica e extravagante, com dons de comunicação de uma predestinada. Nebula era o elemento místico do grupo, aquela que parava para perceber o sentido das estrelas e onde habitava a aura de cada um. Lyntis não tinha nenhuma destas qualidades, muito pelo contrário, para além da sua força de vontade e crer não parecia revelar nenhum talento especial. Mas a verdade estava escondida. 

Ela tinha algo diferente de todos os outros aprendizes que tinha treinado e que há primeira vista não fomos capazes de perceber. Tinha o poder de ler os poderes de cada um e de forma autónoma desenvolvê-los por si mesma. Era capaz de reproduzir e apreender o poder de cada um, recriando um poder que há primeira vista nos parecia completamente novo.

Para além de seu Mestre tornei-me seu amigo e confidente, sempre ciente da diferença de caminhos que nos estava destinada. Com as épocas anuais a passarem, umas depois das outras, Lyntis tinha deixado de ser mais uma para se assumir como aquela que conseguia dominar um pouco de cada uma das artes. Era também aquela que com mais maestria era capaz de competir com o seu próprio Mestre nos exercícios mais minuciosos. 

Com o tempo, em muitas batalhas que combatemos, já deixava que fosse ela a traçar o plano de ataque, a liderar a montagem dos mecanismos de defesa ou então a ser ela a comandar a equipa de batedores que marcava o território antes de avançarmos para qualquer combate. 

Durante uma longa época, eu e os outros Mestres perdemos o discernimento e de forma natural, ainda antes de Lyntis ser entronizada como Mestra Aprendiz, permitimos que ela desempenhasse as funções que qualquer Mestre Aprendiz já fazia. Em nenhum momento nos perguntamos se seria cedo ou tarde. Eu, pessoalmente, olhava para o caminho que Lyntis traçava e sentia o orgulho de sentir que alguém poderia continuar o meu caminho. Com certeza que Lyntis o iria continuar de forma diferente, mas caminho não morreria no que eu era. Decidi nesta altura dar a Lyntis a liderança de um grupo de jovens aprendizes ainda crianças. Nessa altura pensei que ela estivesse preparada. 

Nas primeiras épocas anuais, Lyntis fez nobremente o acompanhamento do novo grupo nativo, ao mesmo tempo que continuou a desempenhar todas as funções que já desempenhava. 

Chegou o dia do seu Ritual dos Símbolos, altura em que lhe foi atribuído símbolo Lince e o título de Mestra Aprendiz. Era altura do corte doloroso porque já passara várias vezes. Desta vez, na minha ingenuidade, pensei que não seria tão doloroso, porque ambos continuaríamos amigos, mas desta vez sem os desníveis de autoridade naturais na relação entre Mestre e Aprendiz. Por esta altura parti em viagem com outro grupo de Aprendizes para explorar novas regiões ainda desconhecidas ao Império de Gaia.

Ao fim de uma época voltei para rever Lyntis e o seu primeiro grupo de aprendizes, mas não encontrei ninguém. Procurei na velha colina onde treinara com ela a arte do manejar da espada, mas nada encontrei. De volta ao Templo onde havia começado a treinar o grupo de Lyntis reencontrei Ste.

- Ste, minha velha amiga, como estás? – Perguntei.

- Bem, nobre Mestre. O que traz de volta? – Replicou Ste.

-Vim rever-vos, mas não encontrei Lyntis nem o seu grupo. Onde estão? – Voltei a perguntar.

- Não sabeis o que aconteceu Mestre? – Questionou-me.

- Não, o que sucedeu? – Questionei alarmado.

- Ninguém sabe muito bem, mas segundo o que me explicou Mestre Canis Lupus, Lyntis não soube lidar com todas as responsabilidades que assumira. Entrou em colapso emocional por achar que não estava à altura do que os velhos Mestre esperavam dela. Pouco depois desistiu da Ordem e partiu para o exílio.

Fiquei chocado com o que Ste me contara e procurei de imediato Canis Lupus. Contou-me que não havíamos sido prudentes. Que nos havíamos esquecido que há um tempo para tudo e que mais do qualquer outro aspeto, nos havíamos esquecido de colocar a hipótese de que Lyntis também poderia falhar, também era falível, também poderia não estar preparada. O facto de durante tanto tempo ter sido ela a que mais se havia superado, havia-me cegado e tirado o discernimento para perceber que a seguir a grandes escaladas podem seguir-se quedas mortais. 

Olhei para Lyntis da mesma forma que olhava o meu caminho e esqueci-me de tentar perceber se afinal havia outro que ela quisesse trilhar. Não agi com intencionalidade nem fui irresponsável na forma como a treinei. Mas não consegui perceber a tempo que provavelmente o seu caminho não era o meu.

Agora, por estes dias, procuro por Lyntis em todos os locais que treinamos. O exílio de um Cavaleiro é como a morte emocional. Deixamos tudo para trás sem olhar para onde vamos. 

Provavelmente Lyntis nunca quis o que achamos ser o melhor para ela, provavelmente ela quis mais do que podia dar, provavelmente ela até está determinada para este caminho. Mas neste momento o que humildemente sei, é que que existem caminhos que esperávamos nunca ter que trilhar. Ainda não sei o que aconteceu, mas tenho a certeza que vou continuar a ir atrás… muito provavelmente para voltar de onde nunca deveria ter partido. Mas para certos destinos um Cavaleiro tem mesmo de ter a certeza.. e este é um deles…

1.23.2015

Ouço o mundo que me rodeia mas só permito a crítica a quem não paralisa…


Numa das minhas muitas viagens com Mestre Canis Lupus e Mestre Chitra paramos na região de Boria, na cidade de Milkar, capital feudal de todas as terras borianas. Paramos para cear numa velha taberna vegetariana. Boria é conhecida como a região do Verde Infinito, as suas gentes baseavam toda a sua vivência na ligação com a terra, toda a sua cultura, gastronomia e arte nasciam e morriam no verde da natureza circundante. Por isso dizer que paramos numa taberna vegetariana é uma redundância porque em Boria todas as tabernas são vegetarianas.
Todos pedimos uma sopa de leguminosas e algum pão seco para continuar a viagem. Um desconhecido aproximou-se de nós, fez uma vénia em sinal de respeito e dirigiu-se diretamente a Canis Lupus:
- Mestre, a que devemos a honra de o ter por cá? - Questionou o desconhecido
- Lamento, mas se nos conhecemos não me consigo lembrar com quem estou a falar. - Retorquiu Canis Lupus
- Mestre, sou Edzo, irmão de Edo, com certeza que se lembra de mim. - Afirmou com entusiasmo o forasteiro
- Recordo-me bem de Edo, mas Edzo, seu irmão, nunca ouvi falar - respondeu Mestre Lupus, baixando posteriormente a cabeça e voltando à sua refeição.
- Mas Mestre, com certeza que se lembrará de mim. Treinou-me como seu aprendiz durante três épocas anuais. Eu próprio lhe levei o meu irmão para ser treinado por si. - Insistiu o auto denominado Edzo.
Sem responder, Canis Lupus, continuou a sua refeição. Edzo insistiu um par de vezes e eu respondi-lhe:
- Meu bom rapaz, o meu amigo já disse que não se lembrava de si, se não se importasse pedia que se retirasse para continuarmos a nossa refeição. Ainda temos uma longa jornada à nossa frente.
O rapaz lá cedeu e retirou-se cabisbaixo. Dirigi-me então a Canis Lupus:
- O que se passou meu bom amigo. O rapaz conhecia-te realmente, inclusive falou de Edo, um dos mais promissores Companheiros que treinaste, porventura até futuro Mestre. E antes que desmintas, os teus olhos tensos denunciaram-te.
- Não te vou contrariar, lembro-me bem de Edzo. Mas o que de bom ficou entre nós foi apenas o facto de este me ter dado a conhecer Edo. - Retribuiu Mestre Lupus.
- Mas porquê? - Questionou Mestre Chitra.
- Como todos estudamos e apreendemos, o Mestre que perdeu a capacidade de aprender, nada mais tem a ensinar. Edzo e Edo foram dois aprendizes com quem aprendi muito, mas apenas um deles foi capaz de chegar ao estatuto de Companheiro. Apenas um deles foi capaz de dominar o seu fogo interior e assim reger o quinto elemento, a sua sabedoria e a sua certeza na ação. O outro perdeu-se por entre ideias tão geniais quanto inertes. - Respondeu Canis Lupus.
- Mas o que aconteceu entre vós que te marcou assim tanto? -perguntei-lhe eu reforçando a curiosidade de Chitra.
- Quando treinamos os nossos aprendizes damos forma a uma rotina de treino sob a qual também fomos treinados. Com o tempo vamos moldando novas rotinas com base na experiência adquirida. São os nossos novos discípulos que nos obrigam a reequilibrar e calibrar as opções que fazemos. Edo e Edzo, para mim, foram o início desta fase de descoberta.
E continuou:
- Tudo começou quando lhes sugeri que ambos plantassem um campo de cereais em pleno Inverno, naquele ano mais rigoroso que o normal. Cada um tinha o seu. Edzo cedo percebeu que era inútil aquela tarefa e desistiu. Edo por sua vez, apesar de ter feito a mesma análise continuou a missão que eu lhe confiara.
À noite, à volta da fogueira, partilhávamos a experiência do dia e ambos mostravam-se desmotivados e irritados com a tarefa que lhes tinha dado. Ambos me questionaram até quando o tinham de fazer. E respondia sempre que as ordens que tinha dado eram aquelas e não outras, competia-lhes a eles lidar com elas. Com o tempo Edzo tornou-se permissivo e passivo, passando o dia a treinar outras artes marciais que mais lhe apraziam. Edo por sua vez, mesmo discordando de mim, tentava novas formas de dar vida aos cereais. Por vezes tentava inclusive fazer o trabalho que o seu próprio irmão negligenciara.
À noite, como sempre, encontrávamo-nos à volta da fogueira e, como sempre, ambos se mostravam frustrados e irritados. Até que ao fim de uma longa temporada Edzo se mostrou farto e me enfrentou abertamente. Não permiti que continuasse a falar, mandei-o calar, inclusive recorri à força bruta para o fazer. Neste momento Edo levantou-se e fez o irmão recuar, tentando explicar a frustração dos dois. Deixei que Edo partilhasse tudo o que estava a viver e o sentimento sobre a inutilidade da tarefa que estava a realizar. Explicou-me que o solo nesta altura não possuía os nutrientes necessários à produção de cereais e que seria melhor esperar pela época primaveril. Nesta altura, pedi que ambos se voltassem a sentar e expliquei-lhes que só reconhecia autoridade para ser criticado a quem não abandonava o seu projeto. Edzo tinha desistido de tentar e preferiu procurar outros interesses, por sua vez Edo tentou perceber a tarefa que lhe foi dada e com isso aprendeu a dominar o solo e a gerir todo o seu potencial. Apesar da inutilidade da tarefa, um foi capaz de aprender com ela, enquanto outro preferiu esperar para que os acontecimentos se vencessem a eles mesmos.

Só permito a crítica a quem não paralisa, a quem apesar de falhar continuou a tentar. Quem nunca tentou, quem nunca empreendeu não tem o direito nem o privilégio de aconselhar quem se arrisca a falhar. Neste momento convidei Edo para uma nova viagem e despedi-me de Edzo para todo o sempre. A nossa história acabava ali.

10.23.2014

O caderno de encargos (Livro Tempo)

Somos aconselhados pelos nossos Mestres em determinada altura da nossa vida a desenharmos, a escrevermos, a determinarmos o nosso caderno de encargos. São uma espécie de objetivos, de metas que sentimos ser capazes de cumprir na nossa relação com o mundo. De qualquer forma, qualquer um de nós já o fez ou vai fazendo isso todos os dias. Quem de nós nunca se permitiu a planear o que considera ser realmente importante e fazer sentido para o caminho que escolheu para si.

Mestre Ant Elael referiu-me o caderno de encargos como sendo o estabelecimento de metas existenciais e significantes que nos permitem alimentar o espírito inconformado e elevarmos o nosso nível existencial, simbólico e cósmico.

O ser humano tem a tendência para se auto deteriorar e ritualizar-se numa busca obstinada por meandros mesquinhos, egoístas que o destroem e violam a sua integridade. O divertido e rebuscado da situação é que boa parte das vezes o ser humano tem plena consciência da sua insanidade, mas insiste porque é imperfeito, fraco e "humano". O nosso caderno de encargos é mais uma forma de nos orientarmos e percebermos para onde queremos caminhar, pondo de parte esta nossa incrível tendência para desumanização.

Mas voltando ao porquê desta reflexão, tenho a plena consciência do que me deteriora diariamente e me faz ritualizar os meus devaneios. Temos direito a vivê-los enquanto nos testamos e aprendemos o caminho do tempo, mas não podemos eternizá-los, eles podem-nos tornar obsessivos e fazer com que nos percamos na nossa própria irregularidade. Não estou a afirmar que deixemos de ser irregulares, estou apenas a relembrar, que nada é tão bom que não acabe ou se deteriore, nem nada é tão mau que não possa melhorar ou mudar de sentido.

Em tempos parti, como muitas outras vezes, em jornada solitária para as Montanhas de Geray. Tinha como objetivo perceber o que queria incluir no meu caderno de encargos. Nessa jornada dirigi-me a um velho templo abandonado da Velha Ordem do Livro dos Elementos para estar em retiro. Qual não foi o meu espanto quando dou por mim no meio de uma cerimónia pagã num templo da Velha Ordem. Para não dar nas vistas e respeitar o momento, deixei-me ficar bem cá trás a apreciar o momento.

Era um ambiente estranho, e eu era uma estranha e pálida presença por entre os presentes. Mas não deixa de ser assombroso que é mesmo assim que me sinto diariamente, um estranho num mundo de estranhos que me estranham e se estranham.... 

Por breves minutos entrei em astral (momento em que o nosso ser simbólico viaja para além da nossa carcaça) e em transe fiz daquele estranho momento uma ponte entre mim e o mundo dos espíritos. Desenhei pela primeira vez, e de uma forma clara, o que acredito ter sido "o meu caderno de encargos". 

Guardo para mim o que determinei, mas fico com uma certeza, ele não é para concretizar sozinho. O nosso caderno de encargos é só mais uma oportunidade de nos lembrarmos que a nossa missão está na missão de todos aqueles que escolhemos para existirem connosco.

11.03.2013

Mudar tudo sem nada mudar... -1ª Parte




Pelas viagens que fiz para além de Ethérnia, a minha terra natal, conheci  na região de Islam, Uisce, uma estranha feiticeira da Ordem do Templo das Lágrimas de Sangue. Também conhecida como a Feiticeira de Naga Air. Dominava os poderes da água e do fogo profundo, aquele que reside na centelha escondida na mente de cada um.
Conhecia enquanto assistia a uma cerimónia da "Prova dos Três Trevos". A forma estranha como sobressaia longe de todos e isolada no olhar captou por alguns segundos a minha atenção. Foi o suficiente para partilhar aquela visão com as minhas companheiras de caminho, Nebula e Uni, durante uma sessão de frenética conversa amena numa das muitas tabernas de Islam.

No dia seguinte fui ter com Mestre Ant Elael, que me pedira para deslocar ao Templo das Lágrimas de Sangue para falarmos. Ant Elael tinha reservado para mim algo de totalmente inesperado e até abrupto. Convidara-me a aceitar uma nova aprendiz, de seu nome, Uisce, a tal que havia captado a minha atenção no dia anterior. Por norma questionava sempre as propostas e decisões de Ant Elael, mas neste caso, nem emiti parecer. Sem pensar muito, fiz como fazia com todos os novos aprendizes que acolhia, integrava-os num grupo nativo, A Uisce integreia no grupo de Nebula, Ste e Ruy.

Antes de contar qualquer outra história importava perceber a sintonia que nos unia sem sentido e inoportunamente. Percebia que simbolicamente habitávamos a mesma morada, partilhávamos o mesmo fardo de desumanidade, éramos ambos filhos do poder do Dragão. Eu o Dragão de Fogo, e ela o Dragão de Água.

Recorri a um velho manuscrito simbólico da Velha Era para entender o que era um Dragão de Água, do mesmo transcrevi estas palavras:

"Estamos a falar de uma pessoa inibida mas progressiva, porém não será ele que vai ser etiquetado como conciliador. Pode supor uma atitude de "esperar para ver" e as suas sagacidades são tão formidáveis quanto a sua força de vontade.

O Dragão Água tem uma filosofia de vida muito própria e gosta de a impor aos outros, no entanto não procura vingança junto daqueles que escolhem ir pelo caminho oposto. Democrático e liberal, pode aceitar a derrota ou a rejeição sem se defender.

É rápido, de confiança, capaz de promover as suas ideias de forma devota e incansável. É provável ser bem sucedido como mediador, porque conhece e sabe quando, onde e como aplicar a força negocial.

O inconveniente principal é que pode ser como um construtor demasiado otimista que se esquece de reforçar a fundação. Por tentar segurar muita coisa ao mesmo tempo pode perder tudo. Tem de aprender a fazer escolhas difíceis e abandonar o que quer que seja duvidoso ou desnecessário."

Peguei no meu rascunho, entreguei a Uisce e esperei pela sua resposta..... a nossa relação estava a começar...

9.27.2013

Um castelo feito de pedras soltas.... Diários de Idanha (2ª Parte)

Já vai longe o fim das férias, mas não me esqueci de fechar os diários que abri durante esse período. Foi um mês de agosto de aventuras non-stop e momentos de rara beleza, sobretudo pelos locais em que passei. Mas isso já passou e fica agora apenas a lição que sobressaiu por estes dias.
 
As dinâmicas e organismos vivos que ajudamos a fazer nascer e que nos fazem crescer (como são o grupo de amigos, as associações de que fazemos parte, as relações humanas que nos preenchem, entre outras) são castelos de pedras soltas.
 
Todos os dias imaginamos quando vai acabar o que de bom temos e demorou tanto tempo a construir. Partimos do principio real de que nada é eterno e que de alguma forma ou de outra, nos iremos perder no labirinto do destino que invariavelmente nos levará à perda... Não fujo a este labirinto, muito pelo contrário.... mas os castelos de pedras soltas que ajudei a erguer levaram-me ao engano pelo melhor dos motivos.... nenhuma das pedra que se soltou  fez cair o castelo, apenas permitiu o espaço suficiente para que uma nova pedra, mais robusta e mais forte, ocupasse o seu lugar... permitindo um castelo cada vez maior e real...

8.14.2013

Os Diários de Idanha - Iº Parte - Ser monumental...

Chegada ao passado...

O passado pode ser perigoso se visto de uma forma turva e estanque. Podemos perder-nos em memórias de trevas ou deixar-mo-nos trair por um aquário de boas sensações. 

Antes de chegar a Idanha-à-nova (por onde descanso por estes dias...) parei na Vila da Feira para recordar as paredes imponentes do seu castelo e os rostos gastos das suas masmorras. Olho para a nossa memória como um castelo em que cada uma das suas divisões representa parte do que fomos com uma janela apontada ao infinito do que podemos ser. Entrar na Raia (zona pela qual é conhecida esta zona do Parque Natural do Tejo Internacional) é entrar numa história de paisagens intermináveis, num horizonte de plenitude de azinheiras e alguns sobreiros devidamente alinhados num jogo de cores pálidas mas monumentais. Parando o carro é possível ouvir o silêncio, contemplar o tempo a parar sem que qualquer carro passe durante mais de 10 minutos. Por estes dias vou viajar pelo passado, regressando ao futuro por entre castelos, ruínas e lendas de futuro.





A lenda de Monsanto...

A arqueologia diz-nos que o local foi habitado pelos romanos, no sopé do monte. Também existem vestígios da passagem visigótica e árabe. Os mouros seriam derrotados por D. Afonso Henriques e, em 1165, o lugar de Monsanto foi doado à Ordem dos Templários que sob orientações de Gualdim Pais, que mandou construir o Castelo de Monsanto. Os Templários foram uma Ordem mítica que entre outras lendas foram os protetores do Santo Graal. 

Mas referências históricas e arqueológicas à parte, Monsanto, mais que a aldeia mais portuguesa de Portugal (designação pela qual é conhecida), é uma viagem a um filme épico que deveria ser obrigatório ver ainda no 1º ciclo do ensino básico. 

Já partilhei com vocês que para mim a nossa memória é como um castelo em que cada uma das suas divisões representa parte do que fomos com uma janela apontada ao infinito do que podemos ser. Quando vi Machu Pichu (antiga cidade inca) pela primeira vez senti que os meus demónios e insatisfações encontravam naquelas ruínas o refúgio para pernoitarem longe do raio de horizonte que me entrava por uma fenda a apontar para o amanhã. Mas assim não foi. Nem sempre temos o que procuramos. Hoje, nas ruínas da antiga fortaleza templária, consegui completar esse exercício. Se vai resultar ou não, só o horizonte o poderá responder.

Para além do dia memorável, Mosanto proporciona-nos o sentimento que ainda não vimos nada, sobretudo se nunca cá tinham vindo antes. Não há nada de mais perfeito que acabar uma tarde de calor (38 graus) a beber uma cidra bem gelada vendo do topo o mundo como companhia. Até amanhã...





7.21.2013

Os dias do Cavaleiro: Quando o mundo já não nos chega (Livro Tempo)


Um grande pensador, que nunca assinou o seu nome ou passado, ainda do tempo da velha era, que alguns especulam ter sido um sanguinário conquistador, talvez um dos que fez cair a velha era, deixou o seguinte escrito: “Com a ajuda do Céu venci um império enorme. Mas a minha vida era muito curta para alcançar a conquista do mundo. Essa tarefa foi deixada para os que vêm a seguir a mim.”

Todos os Mestre recordavam aos seus aprendizes estas palavras por um simples motivo: todos chegávamos ao dia em que o mundo já não nos chegava; todos chegávamos ao dia em que almejávamos a novidade, porque a singularidade do presente já não era suficiente; todos nos deixávamos levar pelo momento em que a montanha mais alta era apenas mais um instante antes da montanha que era ainda maior, tudo porque achávamos que um desafio superior, que não sabíamos definir, nos chamava algures num vazio desconcertante que não conseguíamos controlar.

A este sentimento os nossos Mestre chamavam de soberba. Ele aparecia entre retalhos mal preparados do nosso ser e rendilhado de sobranceria, fazendo-nos esquecer o dom da humildade, da simplicidade, tornando-nos seres altivos e arrogantes, porque nada do que vivíamos era suficiente para alimentar o nosso “eu”.

A este respeito Mestre Ely deixou-me a mais valiosa das lições:
- Quem não souber perder nunca, estará preparado para vencer; quem não for capaz da simplicidade das pequenas tarefas, nunca estará preparado para a dureza das grandes. Quem não souber apreciar o sorriso gasto da sua mãe, nunca saberá realmente o que é sorrir; quem não for feliz a recordar o primeiro livro que leu até à última página, nunca estará preparado para aprender novas línguas…

5.04.2013

Do Túmulo ao Ritual

Há um momento decisivo na vida de cada um de nós que nos marca para sempre de forma diferente de todos os outros. Enquanto vos contei as minhas histórias falei-vos de algumas dezenas destes momentos, mas este que vos conto agora é sobre o compromisso inadiável, de dogma, do olhar para a frente sem nunca voltar para trás. 

Já vos contei que sou Mestre Aprendiz da Ordem dos Cavaleiros do Poder e que o meu símbolo é o Dragão de Fogo. Mas ficou por contar como tudo aconteceu. Na Ordem dos Cavaleiros do Poder chamamos ao momento em que somos entronizados como Mestre Aprendizes e nos marcam com o nosso símbolo como o Ritual dos Símbolos. Para lá chegarmos devemos passar pelo derradeiro caminho da redenção, mas sobretudo por uma prova que nos surge no ponto ar. Para os mais distraídos, só para recordar, o caminho da redenção tem sempre quatro pontos distintos: o ponto terra onde iniciamos a caminhada; o ponto água onde nos vemos perante nós mesmos; o ponto ar onde finalmente buscamos a aceitação do que é e não do que desejávamos que fosse; e por fim o ponto fogo onde firmamos o nosso compromisso com o nosso tempo e o tempo dos outros. 

É entre os pontos ar e fogo que surge a prova do Túmulo, um exercício de insanidade mental que nos faz perguntar onde realmente deveríamos estar e torna claro se estamos predispostos a assumir o lugar de Mestres Aprendizes e dessa forma passar a influenciar a vida dos outros e dos seus. 

Mestra Caelum levou-me para Ethérnia até uma velha cabana perdida atrás de uma velha ermida abandonada. À espera estava Blua, companheira da Ordem dos Cavaleiros do Poder que praticava o velho culto do Dragão Azul. 

Os praticantes do velho culto do Dragão Azul são cavaleiros com o poder da hipersensibilidade, conhecidos pela capacidade que têm de fazer os outros revelarem os seus verdadeiros demónios, mesmo aos cavaleiros mais fortes e preparados. Eu e Blua já nos conhecíamos à algumas épocas anuais, tinha sido eu a treiná-la nas artes da sobrevivência em locais inóspitos e nas artes do combate com espada. Pensava que sabia o que me esperava, mas Mestra Caelum havia-me ensinado que o Túmulo não é um caminho, é um abismo. Escalá-lo é a superação final rumo ao potencial que tencionamos ser. 

Fui fechado na velha cabana com Blua. E ela confrontou-me: 

- Então és tu o meu Túmulo? 

- Como? – questionei surpreendido. 

- Muito bem… estou pronta para perceber o que me trouxe até aqui… - continuou Blua, pensando que a minha pergunta era parte daquela encenação obtusa. 

Naquele momento fiquei também eu confuso. Não estaria também ela a testar o meu momento e a minha integridade. Nestes momentos somos ensinados a não ter preconceitos e a aproveitar o que de melhor a situação nos pode dar. Então eu continuei: 

- E o que te trouxe até aqui Blua?- perguntei. 

- Disseste no último dia que treinamos perto das Lagoas de Ribra que o nosso caminho havia acabado naquele momento. Disse-te que não aceitava, que não percebia. E agora, aqui estás… para me lembrares que o caminho acabou. Que tive de te perder, que vou continuar a perder quem gosto… que vou continuar a caminhar, a conquistar, a amar só para voltar a perder mais à frente. Dizias-me que o nosso caminho era esse, que esse era o teu caminho…… Então porque voltaste? Para me lembrares que tenho de te perder outras vez quando nunca me deste a oportunidade de continuar. – argumentou com a voz gasta como se lhe faltasse o fôlego para se fazer perceber a ela própria. 

Fiquei petrificado, agarrado ao chão sem me conseguir mexer. Esperava ouvir tudo, menos o passado que tudo fizera para esquecer. Sempre me refugiei na minha ausência para não ter que sofrer com a ausência dos outros. Blua tinha sido um desses casos. Tinha-me ligado aos seus olhos, à forma como pronunciava os poemas que escrevia e à forma como sorria desligada do horizonte. Como sabia que não poderíamos continuar a caminhar, havia preferido dar à ausência a resposta para não sofrer. Mas o meu Túmulo trouxe-me aquele abismo de volta. 

- Não voltei, foi o meu Ritual que me trouxe. És o caminho que me falta percorrer antes de receber o meu símbolo. Agora percebo porquê. – retorqui ansioso e tentando não mostrar que estava a falir emocionalmente. 

- Então é isso que sou, mais uma etapa? – perguntou-me num berro furioso agarrando-me pelo pescoço. 

- Não, não o és… eu é que sou a ausência da etapa… o que não existe do caminho. Somos finitos na existência e não sabemos como lidar com isso. Somos imperfeitos a lidar com o futuro e com o medo da distância da ternura que nos liga, da felicidade que nos fez ter lugar…. não quis lidar com a tua ausência, com o futuro sem te ver a ver o horizonte…. por isso parti…. sabia que tinha de ser assim… - respondi com uma dor aguda no peito correspondendo ao seu agarrar com um abraço. 

Paramos durante horas a conversar, choramos de forma ruidosa e perdemos a noção de onde estávamos. Não sei com que sentimento Blua saiu daquele momento de insanidade, mas imagino. Eu, por minha vez, aceitei que vou continuar a fazer da ausência a fuga para o meu “finito”, para a incapacidade que tenho para não saber lidar com a ausência de quem me marcou o caminho. O Túmulo recordou-me como é duro perder, como é sofrer pelo caminho a dois que sabemos que é efémero. 

Somos limitados, somos finitos, transitórios e passageiros. Isso não limita a nossa capacidade de sonhar, amar e subir ao topo da montanha, mas lembra-nos como o caminho é difícil e nós imperfeitos. E é bom ser imperfeito, porque é isso que nos dá uma nova razão para voltar a sonhar… 

Depois do Túmulo avancei com Mestra Caelum para o meu Ritual dos Símbolos e cumprir a suprema honra de ser o Mestre Dragão de Fogo.