5.29.2018

Diários de Jerusalém VI - O dia da Lenda do Cavaleiro





Cavaleiro e um conceitos chave da minha vida. O legado do Cavaleiro, todo o imaginário à volta das histórias, magia e  lendas que as várias ordens de Cavaleiros me transmitiram sempre me fascinaram e determinaram uma parte relevante da minha personalidade, forma de estar e forma de acreditar. O ideal do cavaleiro trespassou me a alma como uma Excalibur filosófica (espada lendária do Rei Artur) e fez-me ver para além dos meus muros e permitiu e contínua a permitir-me viajar pela insónia do passado, pelas auras do futuro e fugir a banalidade da realidade que prefiro fazer de conta que não existir. Só para que fique esclarecido, não vivo à parte da realidade.

Mas continuando... Hoje estive em Acra, cidade da Ordem dos Cavaleiros Hospitalários e mais tarde da Ordem dos Cavaleiros Templários, conquistada e reconquistada dezenas de vezes por turcos, franceses, árabes, judeus, cruzados, entre outros. 

Acra é uma lenda perdida no tempo, não só pelos pergaminhos lá encontrados que retratam muita da sabedoria ocidental cristã, mas sobretudo pelas ruínas incrivelmente preservadas e pelo que representou enquanto principal porto do mediterrâneo para chegar a Jerusalém. Nas paredes das catacumbas da cidade subterrânea encontramos as marcas dos grilhões dos prisioneiros, a sumptuosidade da magnitude das colunas que seguram os claustros principais e salões de generosas proporções por onde viveram os velhos cavaleiros da Ordem Hospitaleira e Templária. 

Fechando os olhos, deixando a plenitude invadir-nos conseguimos imaginar a vida de cavaleiro, a preparação da armadura para o combate, a paragem para meditar, a reunião de companheiros de guerra para preparar o próximo plano, o momento da partida e do regresso, o momento de pausa com o nobre escudeiro. 

Por fim chegamos a Cesarea Marittima, última capital romana de Israel. Aqui o mito do cavaleiro contínua. O anfiteatro romano, a fortaleza de Ricardo Coração de Leão, Rei da Inglaterra Medieval, desaparecido na Terra Santa, fazem-nos sentir de volta à Lenda do Cavaleiro.

Faço então parar o tempo retenho-me no cavaleiro que sou e renovo os votos de gratidão e resolução ancestrais. 

Ser cavaleiro é combater pela liberdade fazendo do destino um aliado. Ser cavaleiro é disputar cada combate como o mais importante da eternidade que nos resta. Ser cavaleiro é ser o mais engenhoso e pacificador que puder com tempo e recursos que as circunstâncias me permitirem. Ser cavaleiro é ver na diferença do adversário uma oportunidade para aprender e evoluir. Ser cavaleiro e ver em cada nova viagem a redescoberta da sua linha do tempo para o tempo que se segue. 

Cavaleiro!!! Faz os teus votos... escolhe o que vais ser com a tua liberdade.

5.28.2018

Diários de Jerusalém V - Os dias do horizonte e silêncio




O que é que encontras no teu silêncio? O que é que procuras quando te ausentas do mundo e te deixas perder nos trilhos que a tua mente te revelou na surpresa do momento? O que procuras quando entendes que não há ninguém no mundo exterior que te possa valer e com quem possas partilhar o que de único estás a sentir? É tudo apenas um engano do momento ou a nossa solidão a falar mais alto? 

Quando me perco nestes momentos procuro a sabedoria do silêncio e deixo de ter medo da minha espiritualidade e aceito que nunca vou ter as respostas para tudo. 

Na madrugada dos nossos dias, alimentada pelo espírito omnipresente de Israel multicultural, acredito cada vez mais no milagre do horizonte e no milagre do silêncio. Agradeço ao horizonte todos os novos cenários não revelados que me permitiu alcançar e ao silêncio a capacidade de descodificar toda a beleza e magia que os novos horizontes me revelam. 

Descobrir os milagres do silêncio e horizonte é voltar ouvir a nossa alma de criança adormecida e as vozes do tempo presente, aquele que nos faz SER, sem medo do passado e do inesperado do futuro. Dar tempo ao silêncio e ao horizonte significa pegar na mochila, enche-la com o essencial e voltar à viagem e ao peregrino que há em nós. Na caminhada só parem ao por do sol, quanto todas as galáxias e mundos intemporais se alinham para que a magia e silêncio se fundam numa fórmula alquímica única. 

Faz do horizonte a próxima aventura e cenário que não te atreves a planear e do silêncio o tempo em que percebes a magia interior que acabaste de renovar. Se não fores capaz de sentir o teu horizonte e o teu silêncio, não deixes de fazer a viagem, eles acabaram por se revelar.



5.27.2018

Diários de Jerusálem IV – A minha irmã e o sonho Kibbutz



A vida é feita de laços intemporais que de uma forma convergente, absoluta, única e invisível nos fazem. Os irmãos e irmãs são parte dessa importante e essencial equação.
Hoje dou-me ao tempo de dedicar o espaço que não me lembro de alguma vez ter dedicado à minha irmã… um texto no meu blog de histórias épicas e viagens.

Hoje conheci um daqueles sonhos impossíveis, uma cooperativa Kibbutz. Kibbutz são comunidades que partilham e integram todos os recursos gerados ao serviço do todo. Ou seja, são uma espécie de aldeias comunitárias que gerem os seus próprios negócios e que no final os lucros são totalmente reinvestidos na comunidade e de forma equitativa por todos os membros da mesma. Sem dependerem do estado, garantem todos os serviços aos seus membros, não deixando de respeitar a sua liberdade de ação e escolha. Todos os recursos pertencem à comunidade e são partilhados de igual forma, desde carros, espaços de lazer e as próprias habitações. Todas as principais decisões são tomadas em Assembleias Comunitárias onde a maioria prevalece.

Parece poético mas não é nenhuma invenção, esta é mesmo a realidade. Não é perfeita e alimenta muitas perguntas, mas no fim do dia, que melhor solução conheces tu?

E perguntam vocês, o que tem isto tem haver com a minha irmã? Tivemos o privilégio de experimentar e ser formados numa realidade que sendo totalmente diferente partilhou os mesmos princípios e que deu forma ao talento que ambos hoje revelamos.

Foi com base nestes princípios utópicos que hoje redescubro o talento da Ana na sua criatividade, na simbologia natural que coloca na liderança sábia que exerce junto das crianças e adolescentes com que trabalha todos os dias, na Mãe justa e assertiva que revela ser e na companheira de silêncio, presença e atitude que sempre foi.

Devemos deixar ao mundo a lembrança dos bons exemplos de vida e comunidade que tivemos o privilégio de conhecer e partilhar, hoje deixo o exemplo da Ana Costa, minha irmã e das Cooperativas Kibbutz. Não o faço para lembrar ao mundo que é possível mudar ou fazer melhor, faço-o para eu mesmo me lembrar que, façam o que os outros fizerem, eu tenho exemplos que me permitem continuar a  viver o meu. Termino com Obrigado.



5.26.2018

Diários de Jerusalém III - Os sentidos da diferença....




Na Jerusalém que pude sentir e viver com os meus próprios sentidos fiquei com a certeza que a diferença religiosa é só mais um vetor de centenas de outras diferenças que só nos engrandecem e aproximam na diversidade que o Homem foi capaz de gerar. Depois destes primeiros quatro dias, as guerras que acabamos por inventar são desculpas de indisposições que, nesta parte do mundo, matam milhares.

Aqui no centro do mundo de todas as convicções religiosas pergunto-me por onde caminha o Homem, portento de emoções, criatividade, raiva, alucinações e crenças. Será que se esqueceu que sente, respira, toca, ouve e se perde como qualquer um dos seus irmãos, independentemente do credo que escolheu professar.

Nas ruas de Jerusalém, a lenda da criança judia perdida em brincadeiras com a criança católica arménia enquanto a eles se juntam o “puto” muçulmano e a “miúda” católica com equipamentos das seleções brasileira e argentina é uma verdade tão natural como a indisposição que o café turco me provoca.

Aqui, bem ao lado do muro onde os vivos depositam as suas mágoas e despertam para um novo amanhecer, deixo cair a minha capa usada e gasta das batalhas que travei. No entanto, no meu íntimo, arresto as minhas armas usadas pela vaidade, excesso de confiança e derrotas que me tornaram mais forte.

Perco-me nos olhares díspares, nos cheiros intensos, na naturalidade da Babilónia que me trespassa a alma e me encanta em todas as direções. Por fim, em silêncio perante o Muro das Lamentações… no hoje do agora, só lamento que nós humanos não entendamos a simplicidade da diferença. Afinal, no mundo em que todos queremos a diferença, no final do dia só afirmamos o medo que temos dela. 

5.25.2018

Diários de Jerusálem II - Os dias da fé....





Que fé desperta em ti a essência da tua existência? Que fé te faz percorrer o caminho do autoconhecimento sem olha para trás? Que fé faz de ti o peregrino que não desiste do caminho?

Hoje coloquei-me todas estas perguntas e mais algumas dezenas que só adensaram minha confusão sobre o dilema da Fé. Por estas bandas Jesus Cristo e o seu nascimento tornaram-se num negócio de milhões para uns e de sobrevivência para outros, as leis de Alá são a desculpa para interpretar as desavenças entre palestinianos e judeus, a confusão de religiões na cidade antiga de Jerusalém junta dezenas de religiões, cada uma advogando a verdade dos factos para a existência humana.

Mas fico-me pelas três perguntas iniciais. Vir a Israel, conhecer o início dos tempos modernos faz-nos perceber que a fé não tem dono, depende da vontade que temos para acreditar em algo que nos supera e dá sentido à nossa existência. 

Reafirmo mais uma vez, nestes dias de redescoberta do caminho do autoconhecimento, que a fé nunca foi sobre nós, foi sempre sobre os outros, sobre a sua capacidade para fazerem parte da solução comum, do bem maior, para serem o que ainda não foram capazes de descobrir sobre si mesmos. A minha fé continua a estar no que de melhor os outros podem ser e dar ao mundo que partilham comigo todos os dias.

Por fim, reafirmo a minha estrada de peregrino e viajante, que continua a sentir o apelo do caminho que levará à montanha seguinte, que me permitirá ver o próximo horizonte. Um horizonte onde a fé dá sentido ao que acredito que ainda falta descobrir. Estás disposto a dedicar a tua fé aos outros?....

5.24.2018

Diários de Jerusalém - Os dias do sacríficio....




Perguntamo-nos muitas vezes, até onde estamos dispostos a ir. Acreditamos que no momento certo estaremos disponíveis para o último sacrifício. Se tivermos sorte este momento nunca chegará e nunca teremos de o fazer.

Hoje estivemos por Massada, fortaleza épica com mais de 3000 anos de história, situada em território impossível, em pleno deserto da Judeia, a poucas centenas de mettros do Mar Morto. Massada é o símbolo da resistência judaica à opressão romana. O cerco de Massada foi um dos últimos eventos da primeira guerra romano-judaica, ocorrido entre 73 e 74. Estes  eventos foram relatados por Flávio Josefo, um líder rebelde judeu capturado pelos romanos e que depois se tornou num historiador ao serviço de seus captores. Segundo ele, o longo cerco pelas tropas romanas levaram a um suicídio em massa dos sicários rebeldes e das famílias judaicas que viviam na fortaleza. Massada tornou-se desde então num evento controverso na história judaica, com alguns a considerar o local como merecedor de reverência, uma comemoração de ancestrais que deram a vida numa luta heroica contra a opressão, enquanto que outros consideram todo o evento como um trágico alerta contra o extremismo e a incapacidade de ceder. 
A crença judaica proíbe o suicídio, a vida é encarada como a dádiva que apenas Deus tem a capacidade de tirar. Massada ultrapassa essa máxima em nome da resposta à opressão e da liberdade. Preferiram o suicídio a ser dominados pelo opressor. O último sacrifício em nome de um suposto bem maior. 

Não tomo partido sobre o que não entendo e é bom termos consciência que existem domínios, espaços da mente e do tempo que nunca vamos entender. Respeito o sacrifício que fizeram, mas preocupa o que o mesmo inspira nos dias de hoje.

Em dias de sacrifício fica a certeza que uma ponte continua a ser mais poderosa que um muro e que com um mar pela frente, mesmo sem ponte, podemos sempre fazer um barco só para ver como é do lado de lá.

4.30.2018

A Ilha de Gorge e os 5 artefactos do Silêncio


Por estes dias parti. com os meus aprendizes Yber e Phili e Mestre Lyn para a ilha de Gorge, parte dos territórios de Milénia, as terras da magia intemporal, perdidas num tempo sem história. 

A nossa aventura passava por descer as enormes Colinas do Cobre até às Fajãs de Milénia, pequenas aldeias bem coladas ao mar e de acesso quase impossível por onde habitam os 5 Mestres do Silêncio. 

Estes Mestres são Sábios da Velha Ordem dos Cavaleiros do Poder que guardam os segredos dos Artefactos do Silêncio, cinco artefactos antigos, que segundo o Livro dos Elementos, guardam o poder do Intangível, aquele que está presente em todos e em tudo, mas que nunca materializamos e que só descodificado através do domínio da Linguagem do Silêncio. Eles são o a pedra da Alma, o colar do Tempo, a máscara do Infinito, a adaga da Utopia e o Lenço da Magia. Segundo os Mestres Antigos, a pedra da Alma é capaz de ler as intenções escondidas, do subconsciente mais profundo de cada um. O Colar do Tempo é capaz de parar o Tempo e, segundo alguns, através de um poder superior, é capaz de fazer avançar e recuar o mesmo tempo. A máscara do Infinito é capaz de abrir portais entre mundos. A adaga da Utopia, reza a lenda, é capaz de filtrar todo o mal enraizado no coração de qualquer ser ou entidade viva transformando-a em energia benigna. Por fim, a lenda conta ainda que o Lenço da Magia é capaz de desvendar a magia escondida, sem que no entanto a consiga manipular. 

Gorge era uma ilha quase inatingível, talvez por isso os artefactos tenham sido lá guardados. 

Chegamos à ilha de Balão de Ar Quente, mas para chegarmos às Fajãs do Silêncio teríamos de descer montanha abaixo e enfrentar quedas de água mortais, penhascos tornados invisíveis pela flora luxuriante e descobrir trilhos à muito deixados ao abandono. 

Como chegamos perto do anoitecer montamos acampamento, acendemos uma fogueira e pernoitamos nas encostas do pico da Esperança, a encosta mais favorável para descer até às Fajãs do Silêncio. 

Com o primeiro amanhecer, levantamos acampamento, preparamos o equipamento e descemos montanha baixo. Mesmo sendo uma descida difícil fomos arrebatados pelas quedas de água que esventravam a montanha e reluziam à distância através do efeito do Astro Maior. Por entre floresta densa, mais abaixo, fomos capazes de descobrir um pequeno trilho. Percebia-se que era um caminho vulgarmente utilizado e em passada larga seguimo-lo, até que, bem ao fundo, no sopé da grande escarpa, lá estavam as Fajãs do Silêncio. Quilómetros e quilómetros de pequenos templos construídos pelas mãos dos velhos Mestres do Silêncio, a maior parte já desabitado. 

Não avistávamos ninguém… passaram horas… decidimos avançar. As Fajãs não podiam estar abandonadas, o cuidado com que estavam tratadas mostravam que ali pelo menos tinha passado alguém. 

De templo em templo começamos a explorar todos os recantos em busca de alguém. Após quase um dia de buscas, Yber questionou-me: 
- Já não deve estar cá ninguém, para onde achas que foram todos, Mestre? 
- Não faço ideia, as informações que tinha confirmaram-se até agora, menos a presença de quem procurávamos. - Respondi. 
- A viagem foi em vão Mestre, não está cá ninguém. – Retorquiu Phili, constrangida por todo o esforço que havia feito em vão. 
- Lamento o que sentes Phili. Se não foste capaz de ver para além do que procuravas então estás no sítio errado. 
- Não te percebo Mestre, o que quereis dizer? 
- Podemos não ter encontrado ninguém, mas levamos uma história nova para contar. Ninguém a paga a memória da nossa descida tenebrosa, das cascatas de água selvagem que descobrimos, da longitude que havistamos e a visão de deslumbramento que as Fajãs do Silêncio nos proporcionaram. Há sítios que só por si são a própria magia e essa só é visível se estivermos disponíveis para ver além do que procurávamos. 

Neste momento uma sombra ergue-se atrás de nós de surge Alihas, Mestre do Lenço da Magia e um dos 5 guardiões das Fajãs do Silêncio. Espantados com aquela presença inesperada, a nossa aventura começava agora… Nunca me esqueço das suas primeiras palavras: 
- Bem vindos ao que está para além do que procuravam……

2.07.2018

O legado de um guerreiro de gelo



Antes que a neblina cede-se
Que o mar se deixa-se ir
E que as estrelas voltassem,
O Guerreiro de Gelo alimentou o espírito,
Guardou a espada
E buscou mais uma tentativa de regresso.
Não é que ele não quisesse ali estar,
Mas o seu intuito e presença antecipavam outra direcção.
A sua consciência não o orientava,
Mas isso não era importante,
O relevante era ter a certeza de onde deveria estar.


A neblina cedeu,
O mar deixou-se ir
E as estrelas voltaram.
O nobre soldado fez-se vivo e partiu
Sem que a sua natureza o desvendasse
Uma estranha criatura seguia-o
Algo de um rosto desfigurado,
Presença incómoda
E corporalmente invisível aos olhos.
O Guerreiro de Gelo sentia-se ameaçado,
Talvez até desorientado e vago,
Nada que fizesse recair a sua desmedida coragem
Sentia-se parcialmente perseguido,
Mas o seu legado estava presente demais para ceder.

Os dias completavam-se uns nos outros,
As verdades escoavam-se,
O herói personificado ousava continuar.
Naquele dia ele conheceu uma Bruxa,
Esta contava-lhe que em tempos foi fada
E se hoje assim o era
A causa estava num envelhecimento encantado que lhe haviam destinado.
O Guerreiro de Gelo perguntou-lhe
Se poderes não tinha para operar a mudança
Esta responde que só para os outros, nunca para ela,
Para ela só outra de uma mesma vida.
O Guerreiro de Gelo ofereceu-se para desmistificar este encantamento encantado,
Mas a Bruxa não aceitou,
Profetizou-lhe que outras glórias não podiam esperar
E que estranhas presenças não o podiam parar.
O Guerreiro de Gelo promete continuar,
Desde que a vulnerável Bruxa o acompanhasse,
Para juntos encararem a diferença.
A estranha presença de face desfigurada continuou a segui-los.

Alguns dias mais, o Guerreiro de Gelo conheceu um Órfão,
Os seus pais haviam partido em viagem eterna,
Porque a verdade haviam revelado.
O pequeno era o que restava de um dado sonho
Que agora fugia da vulgaridade.
O Guerreiro de Gelo convidou-o a acompanhá-lo
A criança pensou em breves consciências
E perguntou porque haveria de o acompanhar,
O suposto herói argumentou que também ele,
Também ele queria viver o sonho,
Também ele o procurava por entre tudo e nada.
A invisível presença continuava no seu encalço.

Algumas luas após,
Avistaram uma cidade perdida,
Profundamente perdida por entre vazios.
Um Velho Soldado acenou-lhes,
O Guerreiro pôs-se em guarda,
O homem vinha em paz.
Era o último guardião da cidade perdida,
Era o último sonhador daquelas paragens,
O único que acreditava num regresso.
Mais uma vez, o Guerreiro de Gelo, convidou-o a seguir com eles.
Com os olhos na face do homem,
Segredou-lhe que juntos regressariam ao sonho.
Aquela estranha e incómoda presença não os largava.

Passaram dias, meses, séculos,
Quem sabe, milénios.
Estes quatro peregrinos continuam a sua busca,
Continuam a tentar encontrar,
Continuam a tentar regressar,
A estarem de novo presentes,
A estarem de novo presentes em vida e espírito.
E esta desfigurada presença,
Incomoda e corporalmente invisível que sou
Continua a persegui-los
E em cada nova caminhada
Eles encontram alguém novo que se lhes junta,
Encontram alguém novo que também ambiciona sonhar,
Alguém desesperadamente à procura de conquista.
Por entre céus e infernos
E em todas as realidades
Eu irei também lá estar,
E aposto que também cada um de nós,
Porque duvido que estejam mortos
Porque duvido que não queiram ser vida.
Porque sei, tenho a certeza,
Que o Guerreiro, a Bruxa, o Órfão e o Velho
Irão viver o seu sonho...
E eu o meu...

11.14.2017

Diários de Unaion - O significado de Sarah e do mundo maior


Por estes dias ando perdido por terras de Unaion onde conheci a minha companheira de todos os dias, Sarah. Hoje este dia é para ela e para o que ela representa na vida das pessoas.
As homenagens no mundo dos símbolos ficam para os que já partiram, mas nunca se esquecem os Mestres, que vivos, continuam a  contaminar e incendiar benignamente o mundo à sua volta. Sarah é a montanha intermédia que une os grandes desníveis de todas as outras montanhas. Esconde-se por entre as fendas mal preenchidas de montanhas e vales imensos, reaparecendo ao nascer do sol acenando a todos com as boas novas de uma nova oportunidade de viver que cada novo dias nos trás.
Alimenta o espírito dos descrentes, faz ponte com as almas que deixaram de acreditar que um dia tiveram tempo e procura o amor em cada ser vivo que encara a fé como destino.

Escolheu ser diferente percebendo sempre que a diferença já é banal e que só a superação pode, agora, ser o caminho.

Sarah tem medo de perder o rumo porque escolheu viver sem ele, teme pelos que ama porque sabe que o amor é raro e demora a ser conquistado, anda perdida no tempo porque sabe que precisa dele. Por outro lado é luz na vida dos que toca, é caminho nos que a escolhem para companheira de jornada, é inspiração aos mundos simbólicos em que flutua.

Hoje, de forma direta, em nome do mundo que a rodeia, lembro-lhe que o mundo não espera por ela, mas ao contrário dos seres humanos banais, desespera por ela. Estás destinada a um mundo maior. Resta saber qual vais escolher...

8.29.2017

Perdidos e Achados – Diários de Geray – Parte III


Na vida de um Cavaleiro do Poder habituamo-nos a perder e ganhar. Há uma altura em que já nem sabemos muito bem qual a diferença entre os dois mundos. Há derrotas que nos levam a conquistas maiores pelas aprendizagens que nos permitiram e vitórias que se limitaram a adiar o inevitável. Mas mais que as derrotas e vitórias no campo de batalha, o que mais custa são os amigos, parceiros, cúmplices e confidentes que somos obrigados a ver partir ou de quem perdemos o rasto. A velocidade a que passam na nossa vida levam a que ao fim de algumas épocas anuais nos resguardemos cada vez mais ao ponto de nos mecanizarmos, só para disfarçar o sofrimento que não queremos admitir. Felizmente, para a maior de nós, nem há tempo para respirar, e assim o luto acaba por nem existir e o sentimento de perda acaba por ficar amordaçado.

São colocadas centenas, milhares de pessoas no nosso caminho, são dezenas os refúgios e territórios que abraçamos, são imensas e incontáveis as vidas que vivemos. Ao fim da jornada parece que só temos tempo para a nossa solidão. 

Por estes dias em Geray, fui visitar o Mestre Viare Ferdi pouco antes de regressar a casa. Amigo de longa data, Viare havia abandonado a sua jornada como Mestre Cavaleiro do Poder. Sem por em causa a sua alma de viajante, dedicava os seus dias à gestão do Templo do Refúgio dos Nobres de Outrora. Este era um Templo onde todos os Cavaleiros recorriam quando queriam voltar a encontrar alguém, contactar um antepassado em busca de aconselhamento espiritual ou saber informação sobre o paradeiro de alguém importante das suas relações. Só os Mestres Aprendizes podiam recorrer ao Templo e apenas para questões pessoais. Estavam proibidos de recorrer ao Templo como auxílio às suas missões. Era uma espécie de último privilégio que nos era dado, já que abdicávamos da maior parte da nossa vida pessoal, fruto das nossas responsabilidade e tarefas.

No centro do Templo ficava o Espelho de Água dos Nobres de Outrora onde através da meditação guiada por Mestre Viare tentávamos descobrir as respostas que procurávamos.

Fui sozinho e ao contrário do que possam pensar não fui à procura de nenhuma resposta. O meu objetivo era simples, rever Viare e recordar as nossas aventuras.

À entrada do Templo fui recebido por um dos ajudantes templários de Viare que me levou até ele. Qual não foi a minha surpresa quando o avistei com Monterius, minha antiga aprendiz e agora Mestre Aprendiz.

Sentamo-nos os três à volta de uma imponente mesa redonda em carvalho maciço com a companhia de hidromel. A conversa acabaria por redondar no motivo porque nos encontrávamos ali. O meu era claro, o de Viare, o de sempre, o de Monterius, mais nebuloso, acabou por surgir. De uma forma ou de outra todos recorremos ao Espelho de Água dos Nobres de Outrora para procurar algo ou alguém que de alguma forma achamos que vai preencher um vazio qualquer que o tempo de encarregou de destapar. Monterius nunca revelou de quem veio à procura ou do que veio à procura, mas questionou-me:

- Nunca te questionaste porque é que algumas pessoas partiram sem deixar rasto? Nunca te penitenciaste pelo amigo de sempre que um dia passa no teu caminho e finge que não te conhece? Nunca te perguntaste porque o tempo não permitiu que continuasses a jornada junto daqueles porque quem te apaixonaste? Nunca quiseste voltar a encontrar quem ficou perdido?

- Milhares de vezes, minha boa amiga, milhares de vezes…. E vou continuar a perguntar. Mas ao fim de tantas épocas anuais aprendi que entre perdidos e achados, só encontramos realmente quem nunca perdemos. O tempo e a distância podem ser detalhes dolorosos, mas o caminho continua a ser mais importante do que o fim a que ele nos leva. É como o caminho de hoje, levou-me a que te voltasse a encontrar. Eu acredito na generosidade do Universo e confio, que por cada caminho que eu ajudar a abrir, outros se abrirão e o meu…. será um deles…. E mesmo que no fim não sobre caminho algum, saberei sempre que este era o caminho que eu havia escolhido.

8.28.2017

Escolhes o Destino ou a Liberdade - Diários de Geray - Parte II





Nas montanhas de Geray existe um local especial onde os Mestres da Ordem dos Cavaleiros do Poder levam os seus aprendizes para aprenderem a diferença entre a Liberdade e o Destino. À partida a diferença parece clara, objetiva e até básica, mas seria tão linear assim esta diferença.

Falamos das quedas de água de Xuen. Bem no coração de Geray, ergue-se uma enorme fenda com mais de 200 metros, por onde descem de forma vertiginosa as águas do Rio do Caldeirão Nascente.

Nas quedas de água de Xuen os aprendizes são desafiados a descobrir se as escolhas que efetuaram são de facto o seu destino. São colocados perante a pergunta: O teu destino trouxe-te até aqui. Continua a ser este o teu destino?.

Perante a dúvida, o aprendiz então escolhe se prefere subir ou descer a queda de água sem o apoio de qualquer instrumento. A subida é vagarosa e exigente. A pressão da água nas costas e cara pode ser impossível de aguentar e por vezes o aprendiz acaba por ceder e cair, pondo em risco a sua vida. A descida é vertiginosa. O aprendiz tem segundos para escolher o ângulo certo para o mergulho para o precipício. Um salto mal calculado para o abismo pode significar o último momento de vida.

Embora todos os aprendizes soubessem da existência de Xuen e o ensinamento que pretendia transmitir, nunca ninguém conheceu alguém que tivesse completado a prova ou mesmo o que significava a escolha de escolher subir ou descer a tenebrosa queda de água.

Era o dia de Yber, Juny e Tartarus testarem a sua sapiência. Yber era sobretudo instintivo. Leal e astuto era ao mesmo tempo extremamente indeciso sobre pressão. Tartarus era uma líder e muito incisiva, mas baqueava na altura de ter de engendrar um plano. Por fim, Juny, mais nova dos três, era a mais pura e comunicativa. Na hora da decisão o coração falava sempre mais alto.

Pusemo-nos a caminho de Xuen. Era meio dia de caminho por entre trilhos escondidos e subidas assombrosas. Paramos para comer num sopé de uma colina e após algum descanso seguimos caminho. Por fim chegávamos à imponência de Xuen.

Tartarus e Yber eram meus aprendizes. Juny era aprendiz de Lyn. Era a hora da verdade. Por muito treino físico, mental e espiritual que tivessem, nenhum deles havia treinado para aquele momento. Foram então colocados perante a questão: O teu destino trouxe-te até aqui. Continua a ser este o teu destino?.

Yber respondeu: Mestre devo responder à pergunta ou escolher qual das tarefas devo efetuar?

Ninguém lhe respondeu. Perante o silêncio, Tartarus decide agir e escolhe o mergulho no abismo. Juny, perante o silêncio dos Mestres e a decisão do instante de Tartarus, olha em pânico para a sua Mestre, mas em resposta obteve mais silêncio. Yber, inspirado por Tartarus, decide escalar a queda de água. Faltava Juny, a menos apta de todos em termos físicos. Tartarus mede o impacto do mergulho, mas prefere confiar nos seus sentidos. Fecha o olhos, controla a respiração, funde-se com os elementos e deixasse levar pela velocidade alucinante da água até ao mergulho final nas profundezas do Lago de Xuen. Por sua vez, Yber encontra uma espécie de túnel entre as saliências da rocha atrás da queda de água e , confiando nos seus instinto, elevasse rocha acima aproveitando todos os pontos secos ou menos húmidos para evitar a queda no abismo. Já a meio do caminho, não há mais túnel improvisado e é impossível ver qualquer tipo de passagem, a água e a sua torrente interminável não o permitiam. Tinha duas hipóteses, confiar nos seus sentidos e tentar uma escalada suicida ou desistir mergulhando nas águas de Xuen. Após quatro tentativas, acabou por ceder e deixar-se levar de volta às águas superficiais de Xuen. Juny paralisou, ajoelhou-se perante a sua Mestre e pediu perdão pelo seu fracasso.

Nesta altura, tanto eu como Lyn retiramo-nos. Tínhamos convidado Mizegui para nos auxiliar nesta prova. Dos atuais Mestres, era o que mais aprendizes havia levado a Xuen e o mais sábio nas suas avaliações. Pelo menos era o que achávamos.

Mizegui voltou a perguntar: O teu destino trouxe-te até aqui. Continua a ser este o teu destino?.

Tartarus, meio confusa respondeu: Tenho muita dificuldade em acreditar no destino. Estou aqui quase por coincidência, mas hoje, se este era o meu destino, é porque quero.

Entretanto, Mizegui virou o seu olhar em direção a Yber. Este tenso, lá responde: Não sei bem o que dizer Mestre. Não sei se a escolha que fiz era a correta, mas garanto-lhe que foi inteiramente minha. E acho que se estou aqui, este continua a ser o meu destino. Mas estou confuso Mestre.

Por fim chegava novamente a vez de Juny. Juny, sem grandes divagações, desta vez foi direta ao assunto: - Não vou mentir. Fui fraca. Foi minha escolha estar aqui, mas não era a minha escolha paralisar. Agora Mestre, não sei se é destino ou maldição, o que aconteceu foi o que aconteceu.

Mizegui sorriu para os três e disse: Na Ordem dos Cavaleiros do Poder não acreditamos em destino. Aliás o destino é só uma desculpa para não nos sentirmos banais e escondermos a nossa culpa, a nossa inação. Na Ordem acreditamos em Liberdade, na capacidade de cada um com os seus defeitos, qualidades e ofícios ser capaz de escolher em cada momento com quem quer estar, como quer estar e onde quer estar. O caminho da Redenção, da vossa Redenção é o caminho da vossa Liberdade e não o destino vazio.

8.27.2017

Uma ponte entre mundos... - Diários de Geray - Parte I




Era o fim da época seca. Estávamos a caminho de casa, mas decidimos passar uma temporada pelas montanhas de Geray antes de voltarmos às nossas lides do dia a dia. Por esta altura são as comemorações da época da Noite Profunda, altura da época anual onde as populações de Geray homenageiam os seus mortos.

Entre as muitas iniciativas destacava-se o Ritual de Mundanis, praticado na denominada Ponte entre Mundos, uma antiga ponte em granito maciço, imemorial, sem grandes certezas sobre quando havia sido erigida. O ritual consistia num exercício de meditação grupal em que os habitantes da comunidade de Misai (aldeia onde ficava a ponte) concentravam a sua energia benigna numa visão imaginária coletiva de fortalecimento das fundações da ponte. Na sua mente cada um via uma espécie de aura azul a sair do seu corpo que depois era canalizada para uma das vigas ou fundações da ponte. A harmonia era tal que cada participante, mesmo sem falarem entre si, conseguiam canalizar a sua energia benigna para um ponto diferente da ponte, sem que as diferentes energias alguma vez se interrompessem ou chocassem entre si. Este exercício significava deixar seguro um dos caminhos possíveis entre este e o outro mundo, o Mundo Eterno, que habitantes de Geray acreditavam ser a última morada. 

Este era um ritual pagão, não reconhecido pela Ordem dos Cavaleiros do Poder, mas como todos os Mestres, tínhamos sido ensinados a respeitar cada um, cada comunidade, cada território nas suas crenças, formas de estar e formas de interpretar a sua própria realidade.

Hoje o nosso destino seria Misai e o Ritual de Mundanis. Nesta viagem estava eu, Mestre Lyn e os aprendizes Yber, Juny e Tartarus.

Chegamos bem cedo para podermos assistir a tudo sem causar alvoroço entre os locais. Sentamo-nos discretamente numa falésia com ampla visão para a ponte e deixamo-nos envolver pelas indicações do Feiticeiro-Mor de Misai. Seguimos todos os passos que nos foram sendo debitados pela sua voz, e envolvemo-nos espiritualmente naquele momento de existência maior, em que homens e mulheres se esquecem dos detalhes e se acrescentam uns aos outros em busca de algo maior, sendo eles o todo de algo maior, a Humanidade que é capaz de despertar em cada um de nós o melhor que somos e queremos ser.

Exercícios de meditação coletivos eram normais entre Mestres, mas aquele estava para além da nossa compreensão. Pessoas de todos os credos, de todas as castas da sociedade, misturam-se entre si, esquecendo passados, presentes e futuros. O que contava era a tarefa ancestral que estavam ali para realizar em nome de uma edificação maior.

Ao fim de algumas horas acabamos o exercício. A imagem mental que todos tínhamos tido das várias energias a entrelaçarem-se de forma perfeita terminando com uma visão da ponte protegida por uma imensa aura azul clara arrebatou-nos. Era em momentos como estes que percebíamos que continuávamos a ser pequeninos e que o caminho ainda estava todo por fazer. 

No final dirigimo-nos ao Feiticeiro-Mor para lhe prestarmos o nosso tributo. Abençoou-nos aos cinco e ficamos algum tempo a conversar sobre o significado do Ritual de Mundanis. Sem revelar o que falamos, há uma mensagem que nos deixou e que passo a transcrever, retirada diretamente do Livro dos Elementos:

- Entre este mundo e o outro há muitas passagens. Alguns nunca as verão, outros nunca saberão da sua existência, uns poucos farão da sua busca a eterna caminhada. Por fim, um conjunto ínfimo de nobre guerreiros perceberá que cada um é a passagem, que ele é ponte entre mundos. Por fim sobra uma escolha, quando é que deixaremos o outro passar a ponte?.

8.23.2017

O detalhe que distorce.... - Diários das Terras de Cavaleiros - Parte IV




Os nossos dias por Brar estavam a terminar, era altura de voltar a Ethérnia. Mas antes não podíamos deixar de pernoitar em Onis de Brar, também conhecida como a Aldeia do Manto Eterno porque passava mais de metade de uma época anual coberta por neve. Onis de Brar era uma antiquíssima aldeia, mais antiga que a inicio da que pôs fim à Velha Era.

Era uma aldeia de pastores e local de passagem. Eram várias as suas tabernas, casas de repasto e residenciais que faziam com que se tornasse num local de raros encontros e momentos verdadeiramente inesperados.

A mim e Mizegui juntaram-se Fern e Nure. Fomos jantar a uma das muitas casas de repasto de Onis de Brar. Esta mesmo em frente a um pequeno riacho que desaguava no Rio Dorei. Estava uma noite de tempestade. No prato tínhamos um enorme bife de bisonte dos Prados de Brar. Mizegui, de acordo com os seus princípios naturalistas, ficou-se por uma salada de urze.

Pessoas entravam e saiam, mas uma captou a nossa atenção. No meio da multidão, sozinha numa das mesas, completamente ensopada, de cabelos ruivos e ar desgastado descansava uma mulher que ao seu lado guardava o seu arco e flechas. Mesmo não sendo uma arma fora de uso, nunca tínhamos visto uma guerreira de arco e flechas.

Continuamos a nossa refeição. Alguns momentos após a desconhecida levantou-se, colocou a sua capa e capuz, levantou o seu arco e flechas e dirigia-se para a saída quando se virou na nossa direção e caminhou até nós. Mizegui estava de costas e não reparou no momento. Esta colocou a mão sobre o seu ombro e chamou pelo seu nome:
- Mestre Takasugui? O que o faz parar por terras de Brar? - perguntou a forasteira.

Takasugui era o nome de família de Mizegui. Era raro ouvir alguém chamá-lo por aquele nome. Mas apesar do questionamento direto, Mizegui nem pestanejou, continuou a sua refeição.
Percebendo que Mizegui não queria ser perturbado e que aquela presença o incomodava intervi:
- Forasteira, deve estar enganada, nesta mesa não para ninguém com esse nome. - respondi.
- Devo-me ter enganado, perdoem-me senhores. Sigo então o meu caminho. Fiquem bem. - respondeu a forasteira saindo de seguida.
- Mizegui, a forasteira conhecia-te. Porque não  respondeste? Perguntei.
- Aquela era Poesis, companheira de caminho. Fomos ambos aprendizes de Ant Elael no Templo das Lágrimas de Sangue. Foi o meu ponto fraco durante muito tempo. - respondeu
- O teu ponto fraco? Como assim? - questionou Fern.
- Ant Elael recomendava que durante o treino no concentrássemos nas nossas tarefas e não deixássemos que relacionamentos paralelos nos demovessem da nossa missão. Com Poesis não foi possível. Durante algum tempo ainda conseguimos, mas foi inevitável o corte para o bem de ambos. Pelo menos eu achei que foi para o bem de ambos. Quando terminamos o treino e passamos a Mestres, pensava que estávamos preparados para recomeçar e assim o fizemos. A relação nunca foi pacífica, mas raramente discutíamos. Tínhamos demasiado treino para nos deixarmos levar por caminhos fáceis como o ciúme, a mentira ou discussões inúteis. Nessas alturas o silêncio vencia sempre. Quando reparamos estávamos a viver uma relação de treino e menos uma relação de duas pessoas que se queriam e que tinham escolhido o mesmo caminho de descoberta e partilha comum. A relação tinha-se tornado numa arena de bons momentos, eficácia e harmonia para a missão. Sem querer confundimos a nossa missão com a nossa relação. Depois nunca nenhum foi capaz de admitir onde realmente estava mal. Na realidade, nunca tivemos dúvidas que gostávamos um do outro, mas estávamos demasiado cegos pelo treino de cada um que nos limitamos a adaptar aos défices que cada um permitia que o outro preenchesse. Há detalhes que podem distorcer tudo e este foi um deles. Para mal dos meus pecados, durou uma vida inteira... - respondeu com um ar de tristeza como nunca havíamos visto nele.

Fern, o mais velho e vivido de todos nós, que já se havia casado por duas vezes surpreendeu-nos com as suas palavras:
- Há detalhes que distorcem tudo... no final importa perceber é se são, realmente, apenas detalhes?

8.22.2017

Aprender a estar... - Diários das Terras de Cavaleiros - Parte III






Pela manhã, eu e Mizegui partimos rumo à fortaleza mais importante de Brar, Langalan. Imponente e muito bem situada bem no centro da cidadela de Brar, era aí que todos os Mestres Aprendizes trocavam armas e pediam a sábios ferreiros e armeiros que corrigissem ou arranjassem as suas armas e adereços de combate. Ao mesmo tempo era um refúgio para treino militar. 

Nessa manhã revimos Nure, Mestre Aprendiz da Noite Continua. Nure era um Mestre de grande experiência nas artes de regeneração e havia dedicado a sua vida à região de Vimian. Embora viajasse muito, voltava sempre a Vimian e ao seu grupo de Aprendizes. Por outro lado tinha feito um voto de pobreza, vivia apenas com o que era estritamente necessário. Tudo o que não precisasse devolvia à natureza ou partilhava com os seus. A juntar a isto era conhecido por ser um sonhador de projetos adiados, um saudável desorganizado de temperamento refinado e algo preguiçoso.

Cumprimenta-mo-nos respeitosamente e rapidamente nos perdemos em memórias e momentos menos sérios que nos fizeram sorrir e corar. Todos estávamos ali para rever as nossas armas e deixar que os nossos armeiros de confiança pudessem verificá-las e, se assim fosse, melhorar a sua precisão e pontos de segurança.

Nessa tarde, eu e Mizegui íamos para as margens do selvagem rio Dorei treinar nos seus imensos desfiladeiros e convidamos Nure a vir connosco e a pernoitar por lá na nossa companhia. Há muito que não estávamos juntos e seria mais uma forma de passar um bom bocado enquanto nos ajudávamos mutuamente no treino de cada um.

Já por Dorei, num dos seus penhascos mais íngremes, aventura-mo-nos num mergulho vertiginoso de mais de 200 metros rumos às suas aguas indomáveis. Primeiro fui eu, seguiu-se Mizegui e Nure, ao contrário do que esperávamos, decidiu ficar-se pelo topo do penhasco e fitar-nos. Com muito esforço iniciamos a insana escalada até ao topo do penhasco onde Nure nos esperava:
- Que se passou amigo, não te queres molhar? - perguntei em tom de provocação.
- Fica para mais tarde. Esta não era a minha hora. - respondeu Nure.
Respeitei o seu espaço e deixei-o ir. Nure retirou-se e amavelmente cozinhou para os três. Há noite, à volta da fogueira, confortavelmente fortalecidos por um poderoso repasto de javali confecionado por Nure, Mizegui voltou a perguntar:
- Há momentos em que não te compreendo Nure. Vieste connosco para treinar e no momento da verdade ficas-te-te pelo chão firme.
- Não me entendas mal amigo, apenas não o quis fazer. Se porventura acordar na disposição de o querer então o falo-ei. - retorquiu Nure.
- Por vezes acho que subestimas o teu poder. Cedo, todos aprendemos que não podemos ter medo do nosso poder, é ele que nos faz. Ter dúvidas, medos, muito bem. Mas não avançar!!.... Sei bem que não é isso. Acredito mesmo que às vezes é só a tua preguiça. - insistiu Mizegui
- É bom saber que me conheces Mizegui. Pode até ser a minha preguiça, posso até estar com medo, pode ser só que não queira. Concordando ou não amigo, este é o meu ritmo. Há muito que aceitei os meus poderes e os meus defeitos. É com eles que continuarei caminho. Hoje, apenas pretendia estar convosco, foi isso que me trouxe aqui. Foi o poder da relação e não o poder do treino. Hoje escolheste treinar e eu escolhi estar. Nenhum de nós está errado, apenas escolhemos papeis diferentes.
Sem ponta por onde discordar, Mizegui ficou sem argumentos para Nure. A noite continuou e no fim acabamos todos por apenas estar. Foi nesse momento que me lembrei do ensinamento de Mestra Caelum, que o treino, embora nunca pare, também se faz a estar. Ela dizia: "Só aprendemos a não ter medo do nosso poder quando aprendemos a estar com o outro e com o seu poder, dando origem a um poder novo. Nessa altura aprendeste a estar contigo..."

8.21.2017

As velhas que são novas histórias.... Diários das Terras de Cavaleiros II




Ainda pelos planaltos das Terras de Cavaleiros, eu e Mizegui tiramos um dia para visitar um velho Ermita de Brar, Fern Brama.

Fern era um viajante de sempre. Em tempos a sua missão havia sido ser mensageiro da Ordem dos Cavaleiros do Poder, levando as mensagens de povoação em povoação, dando a conhecer ao todo o que só a alguns era permitido.

Encontra-mo-nos à entrada da gruta onde habitava Fern, bem no sopé de uma das muitas montanhas de Brar, muitos vales abaixo da Fortaleza de Algor e com uma paisagem deslumbrante. Mesmo à frente da gruta erguiam-se as Lagoa de Azis, um imenso espelho azul polvilhado de pequenas ilhas onde habitavam outros Ermitas que também haviam tido responsabilidades na Ordem dos Cavaleiros do Poder.

Fern preparou-nos Javali. Mizegui ainda resistiu devido às suas  fortes convicções sobre o balanço e equilíbrio com Gaia, a Mãe de tudo o que é natural e puro, mas acabou por ceder. Já havia provado javali mas aquele estava estranhamente bem cozinhado e apetitoso.

Há volta da fogueira as conversas fizeram com que perdêssemos a hora até que Fern voltou a falar sobre os seus filhos e a distância a que ambos se haviam votado, por força das escolhas de vida que ambos haviam feito:
- Lamento não ter estado mais presente na vida dos meus filhos. A vida de mensageiro deu-me quase tudo, mas tirou-me quase tudo. Hoje sobram-me as minhas orações, as minhas meditações e os amigos de sempre.- refletia Fern
- Não sei o que é ser pai, nobre Fern, mas sei o que é ser filho. A partir do momento em que nos conhecemos em consciência e que a infância passa a ser apenas um estado de espírito a responsabilidade deixa de ser uma via de um sentido, passa a ser um caminho percorrido por ambos os sentido. Neste momento, a quem assenta a maior responsabilidade? - questionei-o
- Não se trata de responsabilidade meu amigo. Trata-se das barreiras e muros invisíveis que ergues dentro do teu coração. Há dias em que passamos uns pelos outros e fingimos que nem nos conhecemos. Ficamos há espera do milagre do discernimento e que algum de nós tome a iniciativa. Chega a uma altura em que parece que o universo escolhe por nós e que o muro invisível chega parecer real. - respondeu com voz perturbada.
- Não te quero por em causa, mas o que diz o teu coração? - voltei a questionar.
- Já nem sei bem. Já fui atrás da nossa relação, voltei a tentar ligar o que somos, mas pura e simplesmente eles não deixam que chegue até eles. Já não consigo ler de quem é a responsabilidade. - lamentava-se.
- Somos finitos e limitados e não temos de ter coração e sabedoria para todos os desafios que nos são colocados. Isso não significa que não continuemos de coração aberto. Fern, a história diz-nos que da maldição mais rebuscada pode vir a maior das bênçãos. Da inimizade mais estranha pode vir o maior dos aliados, do caos poderá nascer a solução nunca sonhada. Volta ao treino, mantém os sentidos alerta e deixa o teu coração continuar falar... 

8.20.2017

As vertigens do medo.... Diários das Terras de Cavaleiros I




No seio da grande aventura que é ser Cavaleiro somos levados durante o treino para territórios de imensidão vasta em que nos chamamos a nós mesmos ao silêncio, à meditação e à recaptura dos nossos medos mais mais primários.

Voltei a Terras de Milénia, aos planaltos denominados Terras de Cavaleiros, um território mais antiga que a existência que conhecemos. Nestes primeiros dias fico-me pela fortaleza de Algor, no topo das colinas de Brar. O objetivo é só um. Relembrar o medo do precipício, da vertigem abrupta, do salto para o nada.

Por este dias viajo com Mestre Mizegui, velho amigo de caminhada. A tarefa que me incumbiu era simples, procurar o velho medalhão de Corr que lhe havia sido confiado pelo seu pai. O único senão é que o tinha escondido na fenda intermédia da elevação que permite a vista da fortaleza de Algor a mais de 30 km de distância. A elevação é uma rocha maciça, quase sem pontos de apoio que se ergue ao longo de 500 metros. O exercício deveria ser simples. Chegar até ela não seria impossível. O meu medo era o ato de voltar. Embora nunca tenha sucumbido ao medo das vertigens e de ter no meu registo aventuras a mais de 5000 metros de altitude, Algor era diferente. A linha reta vertical que ligava a muralha principal ao profundo negro, que não deixava que visse o chão seguro, perturbava-me e lembrava-me que por mais treino que tenhamos há medos primários que nos acompanharão sempre.

Sabia que faria o exercício. Ser Mestre Aprendiz não permitia que me ficasse por ali. Subi a muralha, atei duas cordas à volta do maior dos pináculos, uma para descida, outra para segurança e comecei com brevidade a minha descida. Os primeiros 100 metros foram um exercício de concentração e respiração. Entretanto Mizegui dá um grito de aviso: - Amigo, agarra-te à rocha!!!

Nem tive tempo para pensar, agarrei-me à primeira saliência que encontrei. Mizegui havia cortado as cordas. Estava por minha conta. Não havia tempo para pensar, entrar em pânico ou pensar no que vinha a seguir. Foi um instante de instinto, sentidos apurados e esquecer o essencial. Naquele momento só contava com um micro ciclo vital que vencia ou morria. Concentrei-me apenas na parede impossível, desliguei os medos que estavam ainda mais presentes e apenas vi a função descida.

Com mais ou menos dificuldade cheguei cá baixo. Mizegui com um sorriso irritante esperava-me. As minhas primeiras palavras para Mizegui não foram de "vou-te matar", mas antes de perdão por não ter completado a minha tarefa. Nesta altura, Mizegui abraçou-me e lembrou-me:
"Nem sempre podemos ter o todo. nem sempre o tempo permite que cheguemos a todos e a tudo. Por vezes temos que escolher entre o chão e o céu, entre a vida e a morte. Não nos é permitido mais. Nesta altura a escolha é hoje ou amanhã. Um Mestre Aprendiz perante tal vertigem do medo, só tem uma escolha, o amanhã... porque o amanhã não é de ninguém, muito menos do medo...

5.12.2017

O poder de Angkor - Diários da Indochina XI






O Hinduísmo ensina-nos que cada acontecimento não é um fato isolado,mas sim uma reação em cadeia. Cada palavra que dizemos, cada interação com outra pessoa, cada pequena escolha. Nada passa sem causar um efeito, que por sua vez será a causa de outro efeito… E assim consequentemente, no chamado Efeito Borboleta.

Segundo os ensinamento hinduístas o universo possui uma mecânica de interconexão, onde todas as partes estão intimamente relacionadas entre si. Para explicar este príncipio têm uma metáfora apelidada de "A Teia de Indra“. 

Francis Harold Cook descreve a metáfora, também conhecida como " A Rede de Indra", da seguinte forma:


"Muito além na abóbada celeste do grande deus Indra existe uma maravilhosa teia, pendurada por um habilidoso artesão de tal forma que se estende infinitamente em todas as direções. De acordo com o gosto extravagante das divindades, o artesão pendurou uma jóia reluzente em cada "olho" da teia, e, assim como a teia é infinita na sua dimensão, as jóias são infinitas no seu número. Assim ficam penduradas, reluzindo como "estrelas" de primeira magnitude, uma visão deslumbrante para se admirar. Se agora selecionarmos qualquer uma dessas jóias e a examinarmos de perto, descobriremos que em cada face polida estão refletidas "todas" as outras jóias da rede, infinitas em número. Para além isso, cada uma das jóias refletidas nesta jóia também reflete todas as outras jóias, o que faz com que exista um processo infinito de reflexos."


Este é o poder de Angkor e dos seus Templos. São centenas, permitindo ao viajante escolher o seu próprio caminho, encontrando para si mesmo o momento, que em paz, se permite descobrir como Angkor foi possível. Angkor junta o Budismo e o Hinduísmo numa conexão perfeita. Na realidade ocidental estaríamos a falar de Jerusalém como a casa de todas as religiões. Angkor, mais que casa é um refúgio intemporal. Angkor é única porque uniu uma religião monoteísta (Budismo) a uma religião politeísta (Hinduísmo), realidade diferente de Jerusalém, que une muçulmanos, cristãos e judeus, todas elas religiões monoteístas.
   
Angkor faz-nos voltar a perceber que todos somos um, que todos somos responsáveis por todos, incluindo as vitórias e derrotas que isso nos trará. Hoje percebo que o melhor tributo que posso prestar a Angkor é voltar a casa e no meu trabalho, no amor, na família e com os amigos "fazer o melhor que posso e sei com o tempo e recursos que tenho...". Percebo, relembro, que não há que ter medo do nosso poder, que não há que deixar de fazer caminho, que, mesmo duvidando, não há que paralisar.... porque existem mesmo dias em que tudo pode e deve mudar.

5.11.2017

A alegria de viver... - Diários a Indochina X





Já se perguntaram "onde é que realmente deverias estar?". Faz alguns dias que não me faço essa pergunto. Significa que estou onde deveria realmente estar.

Hoje foi o dia em que agradeci realmente estar aqui. Halong Bay e Hue foram impressionantes, mas Siem Riep ultrapassou o que havíamos de esperar e não foi pelas paisagens (essas ficam para Angkor). Foi pelas pessoas e pelo que são capazes de erguer a partir do nada, neste lado do Oriente, em situações reais de pobreza extrema. Vivem anualmente com uma média de 900 euros ano, repito 900 euros ano.

Chegamos finalmente ao Cambodja, o nosso destino derradeiro. Pela manhã visitamos um projeto incrível. Uma Escola Profissional de Artesanato que retirou mais de 1200 crianças da pobreza e que neste momento dá emprego a boa parte delas através de uma Cooperativa Social que criou. Todo o lucro produzido é reinvestido nas próprias pessoas. Tem o único sistema de Segurança Social do país, criado pela própria cooperativa. Sim é verdade, no Cambodja não há Segurança Social. Em Portugal ainda nos queixamos.

Pela tarde visitamos uma cidade flutuante, verdade, uma cidade flutuante!!!!. Dá pelo nome de Chong Khneas. Toda uma estrutura urbana erguida por cima de um rio. Todas as instituições e casas são em madeira incluindo o centro de saúde, escola, igreja, o mercado, as zonas de lazer. Por outro lado as condições de higiene lembram que em Portugal isto seria um atentado ambiental. Vendem crocodilo, tem criação de peixe gato, capturam pitões (cobras gigantes), tudo aquilo que jamais imaginaria ver na minha vida. A pobreza extrema está por todo lado. Mas ao mesmo tempo vejo-os sempre a sorrir, a cuidar do seu par e a cumprir com ardor as tarefas diárias.

É realmente possível sermos felizes com pouco. No Cambodja as pessoas vivem aproximadamente até aos 54 anos, não há sistema de Segurança Social , não há água canalizada nem eletricidade pública em mais de 80% do país. Mesmo assim todos sorriem, todos são amáveis, todos nos recebem como se nos devessem alguma coisa quando somo nós que temos tudo aprender com eles. Quando digo eles refiro-me às populações locais porque o Estado, por aqui, não existe.

Lamento mesmo não vos conseguir transmitir o sentimento do dia de hoje, porque é preciso ver para acreditar. Ninguém tentou disfarçar a pobreza do país para turista não ver, muito pelo contrário. Questiono-me sobre as minhas opções de vida, sobretudo depois de ter conhecido novos companheiros e companheiras que mudaram de vida só para dar alma a estas causas, ou que então nos mostram como é possível ser feliz com quase nada.

Hoje não há grandes lições para reforçar, só recordar que podemos ser felizes com muito pouco (materialmente). Basta que em cada dia em que acordamos possamos estar com quem nos importa e a fazer o que nos realiza,  percebendo a "alegria e bênção que é viver."

5.09.2017

Um mundo que é de todos... - Diários Indochina IX




Ir para a Guerra pode ser encarado como um ato heroico, algo destinado aos grandes guerreiros que de forma descomplexada e despojada dão a vida por algo maior que eles mesmos num ato de fé difícil de compreender. Mas a realidade dos números e dos atos pode ser completamente diferente. Ao conhecer a realidade da Guerra do Vietname, mais do que os números, impressionam as atrocidades cometidas. Mas o que me faz pensar realmente que a Guerra é sempre a última das vias, é o facto de perceber que por vezes "é tudo porque um louco se lembrou", e com isso morreram milhões.

Das últimas Guerras iniciadas pelos Estados Unidos, lembro-me pelo menos de 3 que foram iniciadas "só porque sim" com uma desculpa que "não lembra ao mais criativo dos poetas". A Guerra da Jugoslávia foi criada com o falso pretexto de proteger o povo Kosovar, a Guerra no Iraque foi iniciada para acabar com armas de destruição maciça que nunca existiram e a Guerra do Vietname foi iniciada porque um barco americano foi atacado por lanchas militares vietnamitas em águas internacionais, facto que se veio a provar uma fraude que serviu de desculpa à invasão americana. Fim de história, mais de três milhões e meio de mortes e conseuências noutros tantos milhões que duram até hoje.

O mundo pode estar na mão de loucos e cabe a cada um de nós fazer parte do "equilíbrio" que o mundo precisa. No futuro todos podem e deverão ter direito a um trabalho, todos podem e deverão ter direito a escolher fazer escolhas, mas sempre na consciência de que tem de chegar para todos, o que implica abdicar-mos de parte. A mim não me custa abdicar de parte porque a parcela que me interessa está nas pessoas de quem gosto e no que posso construir com elas.

Até que ponto estamos dispostos a procurar o equilíbrio, pondo de parte o acessório e a loucura do ter? Até que ponto temos consciência de que este mundo nunca foi nosso, mas que pode ser de todos?

5.08.2017

A história do Leão da Água - Diários da Indochina VIII




Os dias eram dias e os momentos eram momentos. Os segundos eram segundos e a vida prosseguia sem grande história ao sabor dos ódios e conspirações do dia-a-dia. Esta é a história de um leão que viria ficar conhecido como o Leão da Água.

Um dia aventurou-se a atravessar o Rio das Almas Profundas pela primeira vez. Não era costume e para além disso os leões daquela região não sabiam nadar.

Podia seguir pela ponte de bambus. Podia até improvisar uma jangada. mas decidiu arriscar lançar-se à água e chegar à outra margem.

Do outro lado ficava o Templo dos Animais Míticos, sítio onde pretendia buscar ensinamentos para conduzir melhor o seu reino. Nesta aventura o mais estranho aconteceu quando se atirou às águas bravias do Rio das Almas Profundas. Era o primeiro Leão daquelas terras a fazê-lo. 

Inicialmente ainda tentou nadar mas foi rapidamente ao fundo,. Entretanto com a ajuda das correntes e alguns velhos troncos de árvore flutuantes, perdidos no meio da água, lá conseguiu chegar à outra margem.

Levantou-se em esforço, fez o caminho ofegante até ao templo e lá esperava-o um dos Ansiães do Templo, o Dragão de Fogo que lhe deixou as seguintes palavras:
" A tua viagem começa agora. Não esqueças nada do que aprendeste mas deita fora todas as tuas certezas. Hoje, aqui, começamos como Mestre e Aprendiz, amanhã seremos companheiros de jornada, depois faremos do mundo um refúgio melhor para que outros animais míticos também possam atravessar para a outra margem..."