6.02.2019

Diários do Serengeti – Parte VI – O regresso e o encontro com os elefantes negros…



Hoje imergimos nas planícies de Amboseli para descobrirmos os maiores mamíferos do universo conhecido, os monumentais elefantes negros. Em Amboseli habitavam as maiores manadas. Para além de ser raro avistá-las, os que conseguiam fazê-lo eram considerados “escolhidos para uma tarefa maior” pelas tribos nativas da região. 

Depois de horas de caminho paramos numa enorme floresta palmilhada de palmeiras e lá estavam eles, imponentes e ás dezenas. 

Já me haviam contado histórias deste momento, mas estar no momento… prende-nos o coração, desorienta-nos, faz-nos curvar perante a alquimia de um momento perfeito. Naquele instante não há continuidade, há um estar eterno que te eleva à meditação e te faz só… estar. 

É um daqueles momentos que sabes que não voltarás a ter. Nesse momento não me contive. Alinhei o meu diário simbólico e dei forma a estas palavras que transcrevo: 

“Quando fazemos planos sobre uma grande viagem para treino espiritual e meditativo queremos que tudo seja perfeito. Queremos ver os sítios, conhecer as pessoas, privar com os sábios e mestres de um tempo que não é nosso, meditar nos lugares impossíveis onde nunca esperas refletir e que, em nenhum momento, nada abale o teu silêncio. 

Com a experiência percebes que nunca será assim. A aventura acaba por perder-se nela própria e é o detalhe que não esperavas que te vai deslumbrar e a fissura mais invisível que te vai fazer cair. A realidade da grande jornada é aleatória e rotineira como os banais dias da tua labuta diária. 

Temos de estar atentos aos sinais, aos pequenos, mas sobretudo, condensar, absorver e viver os que sabemos que são os grandes. O encontro com a manada de elefantes negros foi um desses momentos raros. 

São muito poucas as famílias de elefantes negros livres. Ter podido preservar, viver esta bênção, faz-me lembrar o quanto eu lamento ter de voltar já a casa. Saber que não vou conseguir partilhar verdadeiramente a dimensão daquele momento deixa-me ansioso. Como descreveria o privilégio que vivi?.... 

Então prossigo a minha reflexão… 

Quando está para morrer o grande elefante negro volta ao território de origem. Consegue percorrer milhares de quilómetros de volta ao exato sítio onde tudo começou, mantendo vivo o vínculo sagrado às suas raízes, à sua história que permitiu que novas histórias surgissem. 

É assim que vejo este momento. Regresso não para ficar, mas para partilhar, dar, somar e redimensionar antes de partir outra vez. A nossa jornada espiritual só faz sentido na partida e no caminho quando percebemos quando temos e regressar.

5.28.2019

Diários do Serengeti – Parte V – A hora do Kilimanjaro





Sétimo dia. Hoje era a hora do Kilimanjaro. A enorme montanha que dividia o Serengeti dos domínios de Amboseli, conhecida como a Terra Negra. O desafio era passar o lago Naivasha, avistar os seus inquietos hipopótamos e marabus para em seguida arriscarmos a subida até ao cume da Casa do Deus Negro, nome pelo qual era conhecido o Kilimanjaro entre as tribos locais. 

Logo nos primeiros momentos do dia enchemos a canoa de mantimentos e navegamos pelas águas calmas do Naivasha rumo ao nosso objetivo. Na acalmia da viagem fomos presenteados pelo voo rasante dos marabus, tivemos dificuldade em passar despercebidos entre dezenas de hipopótamos e para nossa surpresa, fomos abençoados por um espetáculo único. Bem à nossa frente, um grupo de pelicanos buscavam alimento, num momento de voo picado de enorme elegância e intensidade. 

A viagem continuou. A determinada altura encostamos a canoa e continuamos a pé. Ao fim de quase um dia de caminho e com o por do sol como pano de fundo, lá estava ele, a Casa do Deus Negro, o enorme Kilimanjaro com quase seis mil metros de altitude. 

À nossa frente avistamos um enorme ébano com alguns velhos troncos na sua base a encenar uma espécie de cadeirão dos deuses. Deixamo-nos encostar. 

Foi por ali que montamos a tenda e preparamos a fogueira para a noite. Entretanto Mizegui sugeriu que parássemos para apreciar os últimos momentos de sol. Nessa altura perguntei-lhe: 

- Acreditas mesmo que ali habita o Deus Negro? Os Masai contaram-me que nas alturas de seca é a ele que recorrem para pedir a bênção das monções. Por sua vez, os Hakmed contaram-me histórias que o Deus Negro, sempre que convocado, castiga os humanos pelos seus pecados, pela sua ambição. O que achas destas lendas? 

Mizegui ficou silencioso por uns segundos e respondeu com outra pergunta: 

- E tu meu amigo, em que Deus acreditas? 

Paralisei com aquela pergunta, mas não me detive: 

- Acredito que a beleza, o amor, a esperança e a bondade foram imaginadas por alguém superior às nossas limitações. Não sei que nome lhe dar, só sei que nos encontraremos algures. 

MIzegui pareceu surpreendido com a minha resposta. Sorriu, abraçou-me e em seguida desviou o olhar na direção da grande montanha: 

- Acredito que aquele de que falas está hoje aqui connosco. 

Foi um momento surreal. Na minha vida tive muito poucos momentos de certeza ou de quase ausência de dúvidas. Este era de forma retumbante um deles. Pela primeira vez tinha sentido num só abraço a beleza, o amor, a esperança e a bondade.

Diários do Serengeti – Parte IV – O dia do rinoceronte branco




Era o nosso sexto dia por Terras do Serengeti. Íamos tentar pela terceira vez avistar o majestoso rinoceronte branco. Este gigante não conhece fronteiras e vagueia livremente por todo o Serengeti, tornando por vezes impossível a sua visualização. 

Estávamos nos Vales de Nakuru, bem no coração do Serengeti. Aqui a floresta é muito mais densa, a vegetação mais luxuriante e a dificuldade de fazer caminho muito maior. Após horas de caminho nas margens do Lago Nakuru, lá estavam eles, um grupo de sete rinocerontes brancos. Foi um momento de êxtase mesclado com o sentido do dever cumprido. O desafio de avistar os grandes cinco estava concluído. Depois do búfalo, elefante, leão e leopardo, lá estava o gigante sagrado que faltava, o rinoceronte branco. Para o povo Masai, o rinoceronte branco era o animal que tinha a capacidade para viajar entre o mundo dos espíritos e dos vivos. 

Mantivemos a distância e respeitamos o seu espaço. Sentamo-nos em observação e demo-nos ao dever da contemplação. Nestes dias deixei que os olhos de Mizegui fossem os meus olhos. Fiz uma escolha, perder-me no tempo de outros, na sua visão desorientada, nos labirintos do seu mapa de combate. 

O Serengeti era a casa simbólica do meu amigo Mestre Guardador de Sonhos onde havia aprendido a arte da orientação, a ler os astros pela noite e a prever o comportamento das chuvas, dos ventos e das intempéries. 

Mais do que deixar-me ir, libertei-me de itinerários e permiti que a perceção de Mizegui orientasse a minha loucura. 

Depois daquele dia mágico, como fazíamos todas as noites à volta da fogueira, partilhamos as emoções do dia. Nesta noite Mizegui recordava-me uma das principais lições que havia retido durante o seu treino no Serengeti: 

- No meu treino por aqui foram muitas as vezes que cai na tentação de achar que não havia mais nada para encontrar. Numa manhã quando treinava as artes do Arco e Flecha, partilhei este desabafo com um Mestre Masai. Fui reprimido de forma veemente. Contou-me que aqueles que só conhecem uma casa, que deram como certa uma morada, nunca perceberam realmente o mapa da sua própria existência. São estrangeiros dentro de si próprios. São incapazes de rever o seu próprio destino, corrigir uma rota, sair da sua própria tormenta. Ficaram presos num momento sem conseguirem ver o momento seguinte. 

Como o grande rinoceronte branco, nunca pares de expandir as fronteiras do teu mapa. Para os homens de mente livre as fronteiras só lá estão para nos lembrar que temos de continuar a caminhar.

5.26.2019

Diários do Serengeti – Parte III – Hakuna Matata





Somos o resultado das somas e subtrações do que fazemos, dos alinhamentos mais fortes que conseguimos trilhar, das definições que absorvemos, dos conceitos absurdos que criamos. 

Nesta aventura sempre tive presente que uma destas somas, subtrações e conceitos estranhos poderia emergir sob a forma de desafio tempestuoso, testando o meu silêncio, a minha concórdia interior. 

Era a noite do meu quinto dia. Ainda estávamos em Masai Mara. Enquanto dormia estive ao mesmo tempo acordado. Os sons dos animais pela noite dentro foram acompanhando a minha reflexão nas profundezas da minha alma decrépita. As horas pareciam não passar. Questionava mais uma vez porque era eu a ter a oportunidade de ali estar. 

Os pássaros chamavam pelo nascer do sol, as hienas, bem ao longe, marcavam à distância o seu descanso lembrando que não queriam ser incomodadas. 

Levantei-me, abri a tenda, e por entre a copa das árvores vi o Astro Maior erguer-se. O embalo de uma suave brisa lembrou-me a bênção que estavam a ser estes dias, as pessoas que estava a conhecer, os sorrisos que estava a esboçar, o tempo que voltava a reconquistar. A minha mente viajou para o desperdício de tempo que dedicamos aos territórios desocupados pela alma, lembrou-me a perversão que anunciamos ao esquecermos o respeito pela abundância celestial que nos foi proporcionada. Queria poder partilhar aquele sentimento de equilíbrio, de intensidade benigna com os que havia esquecido em casa mas percebi que assim também eu estava a desperdiçar. Não se tratava de egoísmo, tratava-se de viver aquele tempo e local sagrado. 

Eram, são tantos os sentimentos que me perdi a somá-los todos. 

Por momentos fecho os olhos, detenho a minha ânsia, inspiro de forma voraz e agradeço aos deuses deste espaço venerado o facto de me receberem a mim e aos meus. Às vezes basta estar agradecido. Basta acolher o que de melhor a nossa alma proporciona aos outros. Às vezes basta “Hakuna Matata”. 

Por estas terras convidam-nos a acompanhar a vida com simplicidade, com tempo para saboreá-la, em acolhimento interior com os Mestres da Natureza, esquecendo, desintegrando o que nunca desejamos plantar. Este é o poder “Hakuna Matata”.

Diários do Serengeti – Parte II – Perceber a origem do nosso tempo…





Terceiro dia por Terras do Serengeti. Hoje estaríamos por Masai Mara, uma das grandes planícies de um paraíso que parece ter escapado aos homens. 

Quando procuramos a cura para o que somos, acreditamos que é no silêncio que mora a luz para as demandas da nossa escuridão. Masai Mara era esse recanto de silêncio que procurava. 

Partimos. Seriam dois dias de deserto total. O objetivo era rever os grandes cinco: o elefante, o leão, o leopardo, o búfalo e o rinoceronte. Estes são os cinco animais sagrados do povo Masai, tribo que deu nome à enorme planície, integrada no grande Serengeti. 

Não precisamos de muito tempo para que a longitude, o horizonte e a calma de Masai Mara se apoderasse de nós. 

Ao longe avistávamos os primeiros búfalos. Uma enorme manada caminhava de forma sumptuosa, aparentemente agressiva, mas era apenas a nossa incompreensão a enganar-nos. Continuamos caminho por entre centenas de gazelas, zebras, empalas e algumas girafas. À nossa frente uma enorme árvore parece ganhar vida. Os pássaros fogem dos galhos como se a escuridão se aproximasse. Três elefantes, dois enormes e um de pequeno porte emergem na nossa direção. Sentamo-nos de forma respeitosa em contemplação enquanto estes paravam para se alimentarem das pontas dos galhos da árvore mais frondosos. Por instantes, o mais imponente dos 3 olha-me nos olhos e confronta-me na minha alma. De forma ruidosa lembra-me “Deixa que o teu tempo te encontre…”. Foi um momento de êxtase e ao mesmo tempo de terror. Lembrei-me que me tinha esquecido da minha origem. Antes de acelerar o meu tempo, houve um tempo em que aprendi a ler o meu tempo, sem pressa, respeitando o tempo, dando o tempo ao tempo. 

A minha viagem acabava de mudar. Levantamo-nos mais descontraídos e caminhamos sem direção. Paramos para lavar a cara num pequeno riacho. Quando nos viramos de forma receosa avistamos um grupo de oito leoas a observar-nos de forma impávida e serena. Mais à frente o Leão alfa, o macho reinante do grupo não se importava com a nossa presença. 

Percebemos naquele momento sem relógio que os próprios animais nem nos ameaçavam nem nos temiam. O nosso tempo era o mesmo. Não havia manhã, tarde ou noite, havia um espaço temporal comum onde ninguém tinha medo de se perder, onde ninguém se procurava encontrar, só estar. 

Estava a ficar tarde, tínhamos de montar abrigo. Encontramos um enorme ébano com uma vasta copa que nos parecia ideal. Pernoitar acima do solo era o plano. Por um lado era um sítio seguro, por outro lado era uma localização privilegiada para ver as estrelas. 

Conversamos muito durante aquela noite até que, de repente, Mizegui parou de conversar, pediu-me silêncio e apontou para trás das minhas costas. Virei a cabeça e dei de caras com um leopardo a repousar num ébano oposto ao nosso a pouco menos de dez metros de nós. Não sabíamos há quanto tempo ele ali estava e como em todos os outros confrontos com animais que havíamos tido naquele dia, também ele se revelava confortável com a nossa presença. 

Aqueles dois dias passaram de forma rasante. Por entre gnus, avestruzes, magustos e outras incontáveis presenças acabamos por não conseguir ver o rinoceronte. Mas está tudo bem, ele acabará por aparecer. O meu coração estava onde devia estar. A companhia era a necessária, a aventura tinha deixado de o ser. Sentia que o meu tempo me voltava a encontrar. Reaprendia vagarosamente a ser a origem do que podia ser. Foi tão bom, tão confortável, tão perfeito. Mas ainda faltava o rinoceronte e essa aventura… era já a seguir.

5.24.2019

Diários do Serengeti – Parte I – A abundância duvidosa...






Por estes dias decidi viajar para fugir da dor de já nada ser suficiente. Treinei tanto, pratiquei tanto, refleti tanto que me perdi na minha própria destreza, no meu próprio círculo virtuoso de felicidade. 

Foi no meio desta guerra interior que parti para Terras do Serengeti na companhia de um velho amigo de jornada, o Mestre Guardador de Sonhos que dá pelo nome de Mizegui Takasugui. O Serengeti era uma das casas simbólicas do meu bom amigo, um espaço que procurava para retemperar energias e se encontrar a si mesmo. 

Organizamos os mantimentos e partimos. Demoramos dois dias inteiros de Ethérnia a Serengeti. Ainda de dia, decidimos pernoitar por entre a sombra de uma majestosa acácia. Mizegui ensinou-me como as tribos locais faziam fogo e já de volta da fogueira, partilhei o meu estado de espírito e o porquê de o haver procurado: 

- Estou numa daquelas fases estúpidas em que parece que sou subjugado pela minha própria felicidade. O Cosmos foi tão generoso que deixei de ter forças para absorver toda a sua intensidade, verdade e alegria. Estou agradecido e lisonjeado com todas as bênçãos do céu, mas por outro lado perdido por entre a plenitude e o deserto em que pareço insistir em existir. 

Deixei por momentos que as lágrimas se apoderassem de mim e perdi-me na minha própria dor. Estava cravado de energia. Sentia-me culpado por não estar à altura do mundo, sentia-me culpado por estar a reclamar daquilo porque todos clamavam. Neste momento, Mizegui colocou-me a mão no ombro e partilhou: 

- Nobre amigo. O Cosmos é uma matemática metafísica, mas equilibrada. Nos momentos em que não estamos bem, outros como nós ocupam o espaço de felicidade que deixamos verter e quando eles voltam ao círculo vicioso da sua ausência, outros se levantarão para ocupar esse mesmo espaço de felicidade que parece ter ficado vazio. 

Nesta matemática inconcebível, vamos subindo degrau após degrau, ao ponto em que os espaços de felicidade começam a ser o infinito real e as pausas para o abismo começam a escassear. 

Mas como são muito poucos os que conseguem subir esta escada, raramente encontras alguém doente na sua própria felicidade. 

Ainda mais raros são aqueles que não param de subir a escada e que a determinada altura saem da própria esfera do Cosmos. Nessa altura perdem todo e qualquer tipo de amparo. Inventam doenças novas de que ninguém ouviu falar. Deixam de perceber a sua própria felicidade. O mais grave é que não há cura. 

Não erraram, não transgrediram, não se anularam, apenas foram vencidos pela sua incapacidade de se perderem nos pequenos momentos de vida dos homens. Perdem a noção do pequeno e do grande. Escondem-se de si mesmos e sofrem de forma solene. 

Percebia muito bem o que ele dizia. Então perguntei: 

- E este labirinto do absurdo tem um nome? 

- Também o tento descobrir há décadas, mas não tenho certezas. Eu chamo-lhe a doença da Abundância Duvidosa. 

- E como a resolveste? 

- Procurei o meu silêncio, um amigo para falar e parei para voltar a encontrar o meu Cosmos. 

- E a que resultado chegaste? 

- Que não devemos ter vergonha do dia em que o nosso silêncio, o amigo que escolhemos para falar ou a tentativa de encontrar novamente o nosso Cosmos não chegam. Nessa altura mantém o foco, acredita no amor que dás e recebes e por magia o teu Cosmos… voltará a reclamar a sua presença.

4.30.2019

Diários das Flores IV - "O poder do Vórtex Milenar..."



Por estes dias fiquei-me pelas ilhas do Vórtex de Milénia, as mais longínquas do mítico arquipélago. São duas ilhas com muito poucos habitantes onde tive a oportunidade de experienciar velhas licões do passado: o silêncio do Limbo; o poder da penumbra da Bruma; e voltar ao sonho do Jardim dos Eternos.

Hoje era o dia de experimentar o verdadeiro poder das Ilhas, o Vórtex de Milénia, um portal entre mundos onde és, depois de passá-lo, obrigado a interagir com as tuas verdadeiras intenções, emoções e angústias à muito esquecidas. Quando entramos no Vórtex mergulhamos numa cascata sem fundo. Não sentimos o frio, o calor, só vivemos o momento.

Era a minha hora. Deixei-me ir pela torrente, lentamente fundi-me com ela, adormeci na sua intensidade e fixei-me nas memórias de energia que de forma explosiva brotavam como pequenos vulcões a  espezinhar a minha mente. Naquele momento de guerra e paz simultânea, por cada abismo que fazia persistir, os guerreiros que habitavam a minha consciência ressuscitavam velhas montanhas três vezes maiores do que o abismo de que tentava escapar. Foi aí, que mesmo à minha frente, reencontrei o poder do Discernimento e voltei à tona.

À minha espera tinha dois amigos de caminho, os aprendizes Yoannes e Fetis. Ajudaram-me a voltar a mim e questionaram-me o que havia experimentado. Fiquei em silêncio e devolvi a pergunta em forma de desafio: É a vossa hora de entrar no Vórtex. De que estão à espera?

4.29.2019

Diários das Flores III - "O Jardim dos Eternos..."




Reza a lenda que os eleitos encontrarão a paz no Jardim dos Eternos. É um espaço de ficção, desalinhado da realidade em que todos os que dormem o sono dos justos conseguem sonhar. Foi num desses  sonhos de realidade que me deixei perder nas entranhas do Jardim, bem no seu epicentro, nas Cascatas da Luz Eterna.

A caminhada para lá chegar é sinuosa. Somos obrigados a entranhar-nos na floresta através de um túnel escavado por entre árvores que mal deixam ver o Sol num  imponente caminho mágico esculpido pelo homem e natureza numa sinergia perfeita. 

Chegados às Cascatas, o silêncio apoderasse de nós, o olhar fixasse no horizonte e o sonho tornasse realidade. Neste momento a realidade e o sonho fundem-se, percebemos que já não queremos acordar, percebemos que já não precisamos de acordar. Foi nesta altura que me perguntei: Quando é que foi a última vez que não quis acordar?...

Diários das Flores II - "Na penumbra da Bruma..."


A Bruma adensa-se e não deixa ver óbvio, o distante e o próprio vazio. Era suposto conseguir fazer o caminho em frente, curvar na altura certa e não me perder. Mas é em vão, acabarei por me perder na penumbra  da Bruma.

Imaginem o caminho sem fim, emaranhado no nevoeiro infinito em que a única previsão possível é a certeza que nos vamos (e queremos...) perder. Talvez até me queira perder, talvez até queira a ausência de previsão possível só porque nunca nos chegamos realmente a encontrar.

A penumbra da Bruma é o canal que nos ela ao vale perdido que ousamos esconder de nós próprios, é a passagem que nos vai revelar um horizonte mais denso. Quando nos perdemos na Bruma conhecemos a alegria de não sermos donos de nós próprios, percebemos o quanto somos felizes só por termos a oportunidade do dia seguinte.

Por estes dias onde fica a tua Bruma? Já percebeste a oportunidade que está no dia seguinte?

4.28.2019

Diários das Flores I - No silêncio do Limbo...


Quando procuramos demais o silêncio ele acaba por fintar-nos e esconder-se bem nos confins da nossa alma, perdido nele mesmo. Este momento é o Limbo, casa perdida dos sentimentos descontinuados, baía secreta onde pernoitam os barcos fantasmas.

Nestes lapsos de tempo somos fantasmas de nós próprios, leituras nebulosas do que ficou por fazer, das histórias que ninguém ainda imagina ou se lembrou de contar.

Entretanto paramos para o repasto da alma bem a Ocidente da existência que conhecemos e é então.... que percebemos que estamos a ganhar tempo até ao Limbo seguinte. Mais cedo ou mais tarde o silêncio há-de voltar e a nossa alma voltará a descansar sem fintas, sem truques, silenciosamente.
Como é que está o teu Limbo?

9.09.2018

O dia em que descobri o "Saaber"




Um dia em Ethernia como tantos outros, após uma enorme jornada de treino, haveria de mudar a minha vida para sempre. Aprendemos quando escolhemos ser Mestres que existem os dias em que tudo muda e alguns dias em que escolhemos que tudo mudará. Foi neste dia que conheci o Sabber Interior, o todo que somos nos outros. 

Eu sei que é difícil entender, mas foi neste momento que me perguntei qual era o meu Sabber, onde é que ele se entranhava. Foi aí que percebi que era na missão 

Depois de ter estado em Atros e por entre as divagações a que me permitia junto dos meus Aprendizes, isolei-me nas Montanhas de Geray e redigi o legado que me traçará os dias de Mestre no sempre que ainda me restava. Foi aí que emergiu a razão de ser do meu Sabber, da minha missão. Estas são a palavras que traçariam o código de conduta do meu Sabber: 

- Preserva a humildade, aceita o teu caminho e o do outro na dimensão da liberdade que construíste; 

- Faz da resiliência a tua armadura, não permitas que o acaso, a sombra e a desdita te vençam; 

- Faz prevalecer a tua disciplina emocional quando o coração da incerteza te bater à porta; 

- És líder, não te escondas, não subas demais, assume-te; 

- És o protagonista da caminhada do agora, do antes, do amanhã e na certeza de que isto nunca foi sobre ti, foi sempre sobre os outros no estar e no ser; 

- Faz da introspeção o treino constante; 

- Assume a relação com a natureza e os quatro elementos como horizonte que nasce todos os dias; 

- Procurarás para sempre o amor, mesmo que não o encontres porque não queres perder o poder da tua magia; 

- Nunca abandones a missão, nem na pausa em que te reconquistas para voltar a ela; 

- Dá forma em cada palavra, em cada acto, em cada conquista ao Sabber interior, o teu todo de todos; 

- Revela em cada suspiro, sorriso, golpe ou pausa o anima (“dar alma”) que aprendeste; 

- Ensina e pratica a multiplicação numa corrente interminável que irá mudar o mundo; 

- Quando te perderes volta a buscar a tua inspiração na energia vital que nunca te abandonou; 

- Na negociação pratica e ensina o cálculo do essencial; 

- Ensina ao outro a generosidade e autoridade de que o caminho nunca se faz a sós; 

- Eleva o silêncio e faz dele casa; 

- Entretanto para, sente o teu Cosmos e deixa a magia, serenidade e a alquimia façam o resto.


8.15.2018

Por terras de Atros - O nível seguinte do nosso Cosmos... (Parte VI)





O Cosmos Interior é o universo uno interior que condensa todos os nossos poderes intuitivos, instintivos e deliberados pela nossa mente. Em situação de pressão ou necessidade o Mestre Aprendiz evoca o seu Cosmos Interior no sentido de desencadear um determinado poder. 

Na maior parte das vezes quando evocamos um dos nossos poderes este é deliberado. Em consciência decidimos que naquele momento aquele poder é decisivo para a prova, exercício ou situação de pressão que estamos a enfrentar. 

Outras vezes, perante o infortúnio, o nosso Cosmos Interior ganha vontade própria, permitindo por vezes que nos elevemos ao nível seguinte, perante um poder que nunca tínhamos experimentado. 

Era o meu último dia em Atros. Antes de regressar a casa estava perante um último desafio. Escalar o Estreito da Caldeira do Peregrino até ao Poço do Peregrino, a Lagoa mais profunda de Atros, alimentada pela Cascata da Caldeira do Peregrino, uma queda de água de mais de 300 metros. Para além de chegar até à visão incomparável do portentoso monumento natural queria experimentar os meus sentidos mais primitivos. 

Para além da grande distância, parte significativa da subida era feita entre grutas sem qualquer tipo de luz e uma bruma densa que nos retirava qualquer tipo de visão possível. Perante tais dificuldades só podia fazer uso dos meus sentidos primitivos e intuição. Para complicar a subida decidi levar Sarah comigo. Apesar de menos experiente, Sarah não quis ficar de fora. 

As primeiras duas horas de subida foram aceitáveis. Conseguimos a algum custo emergir perante uma dezena de cavidades sem qualquer tipo de luz, sempre em constante subida. Mas a parte difícil havia chegado. Estávamos perante a Fenda da Bruma do Peregrino. A partir daqui só tínhamos a nossa intuição e sentido de oportunidade. Passo a passo, braço ante braço lá íamos fazendo caminho. Até que coloquei o meu pé esquerdo sob uma superfície mais mole que as que tinha pisado até então. Pressionei para conseguir manter o ritmo de escalada e nessa altura, um incontável número de espigões pontiagudos perfuraram o meu calçado e trespassaram a palma do meu pé. Paralisei, a dor era insuportável. 

Não podia parar ali, ou descia, ou continuava a todo o custo. Perante uma dor sussurrada Sarah questionou-me se estava tudo bem, mas nessa altura deixei de ouvir. Desliguei os sentidos primários. Já não cheirava, não sentia o paladar e não ouvia. De olhos fechados um imenso azul invadiu o meu horizonte desenhando uma espécie de escada labiríntica. Não contive o meu Cosmos, deixei que ele falasse e como por magia fiz todo o Estreito a uma velocidade incrível. 

Chegamos ao topo e lá estava o Poço do Peregrino em toda a sua imensidão e monumentalidade. Deixei que Sarah visse o meu pé e lhe aplicasse um curativo temporário. Questionou-me como havia feito a subida com aquele ferimento, mas não lhe sabia responder. Por outro lado também eu estava surpreendido porque tinha sido Sarah, a menos experiente, a fazer a subida sem percalços suicidas. 

Neste momento percebi que ambos tínhamos elevado o nosso Cosmos Interior. Não existe uma medida ou método definido para chegar ao nível seguinte. Chegares à próxima etapa nunca terá haver com a quantidade de treino a que te submetes ou a velocidade com que praticas o poder que pretendes dominar. O próximo nível está na vontade, resiliência e disciplina como te dedicas ao objetivo que pretendes alcançar. 

Como um dia aprendi, aqui relembro: Queres chegar ao próximo nível? Procura a vontade que te faz querer multiplicar, alimenta a resiliência que te faz perceber que és parte de uma causa e junta a isso a disciplina do treino porque vais precisar de tempo… e esse não tem definição..

8.14.2018

Por terras de Atros - O Guerreiro Cavalheiro (Parte V)




Este foi o dia mais intenso aqui em Atros. Tive a hipótese de rever Mestre Albi, conhecido por dominar o poder do “Anima”, a capacidade de “dar alma”, de contaminar de forma curativa e multiplicadora os sentimentos e potencial do próximo. 

Em grupo, juntamente com Sarah, fomos levados a entrar numa aventura épica. Albi quis-me mostrar dois dos recantos mais bem guardados de Atros, a Lagoa dos 25 Ribeiros e a Cascata Monumental de Risbin. 

Para além de fruir dos sítios o nosso objetivo passava por treinar as práticas da Alquimia Emocional, em que um Mestre Aprendiz conseguia através do entrelaçar de mãos passar a sua energia e saber puro para outro Mestre Aprendiz. Esta era uma arte muito antiga e permitia que um Mestre pudesse passar para outro um dos seus principais poderes. Só funcionava em sítios sagrados, pouco tocados pelo homem e onde Gaia, mãe de todos os seres vivos, dominava todos os elementos. A Lagoa dos 25 Ribeiros era um desses locais. 

Antes de tudo fomos visitar a Cascata de Risbin e deixamo-nos tolher por aquela visão incandescente. Paramos algumas horas e deixamo-nos meditar. De seguida, montanha abaixo, fomos até ao estreito que dava lugar à Lagoa dos 25 Ribeiros. 

Extremamente cansados, deitamo-nos nos rochedos. A Lagoa tinha uma energia muito especial e era banhada pelos 25 ribeiros de Atros, por isso o seu nome. A concentração de energia vital naquele sítio era enorme, sentia o meu Cosmos interior a brotar como se quisesse fugir de mim, era chegada a hora. 

Mestre Albi levantou-se, estendeu as mãos, entretanto também eu me levantei e dei-lhe as mãos. Fechamos os olhos, deixamos que o som dos pequenos ribeiros que enchiam a Lagoa povoasse a nossa alma e foi então que sentimos o nosso Cosmos a emanar, traçando a nossa aura e fundindo-se num Cosmos uno. Naquele momento deixei que o meu poder se tornasse no poder de Albi e nesse momento senti o poder de Albi a tornar-se meu. 

Ao fim de algumas horas e de forma muito suave terminamos. Albi nesse momento perguntou-me: 

- Pensei que viesses atrás do poder do “Anima”. Em vez disso, no teu silêncio, deixaste emanar em ti o poder do Guerreiro Cavalheiro. Porque o fizeste? 

- Meu velho amigo, o teu “Anima” é só teu. Eu já tenho o meu. Cada Mestre terá o seu, ou nunca seria um ser multiplicador. Já o poder do Guerreiro Cavalheiro poucos o têm. Sabes estar Albi, tens a cortesia e pureza no ato de receber o outro. Tens o teu tempo e não deixas que a velocidade dos outros te contamine. És elegante no trato e sagaz na abordagem que dás aos que parecem complicar o mundo. Ser cavalheiro é um poder que poucos sabem usar só porque vivem demasiado depressa as regras dos outros. 

Depois deste momento regressamos, tínhamos um dia de caminhada pela frente.

Por terras de Atros - O Covil do Leviatã (Parte IV)





Mais um dia em Atros, mais um dia para nos expormos perante a superação que constantemente voltamos a por à prova. 

Hoje estou particularmente emotivo, irei rever Mestre Albi, Mestre Aprendiz com um poder muito raro, o poder do “Anima”, a capacidade de “dar alma”, de contaminar de forma curativa e multiplicadora os sentimentos e potencial do próximo. 

Mas esta história fica para amanhã. 

Hoje era dia de viajar até ao Covil do Leviatã, Dragão Mítico do Tempo Antigo que se esconde, segundo as lendas, nos Bosques do Imperador. Para lá chegar tínhamos de atravessar os perdidos trilhos do Caminho Lendário do Imperador de Atros. O meu objetivo era rever a Mestre Leviatã, Sofera.. 

Colocámo-nos a caminho. Era um trilho avassalador, perdido entre cascatas, flora luxuriante e alguns animais para os quais não sei o nome. 

Conheci a Mestre Leviatã quando treinava com Mestre Karin e procurava descobrir o meu símbolo, o Dragão de Fogo. Nessa altura Sofera era ainda uma adolescente à procura de rumo. Mais tarde, Sofera haveria de se tornar minha Aprendiz. 

Depois de quatro horas de caminhada lá avistámos o famoso Covil de que Sofera havia feito casa. Sofera recebeu-nos entusiasticamente e convidou-nos a pernoitar por ali. Apesar da alegria com que nos recebeu, senti nela um ar pesaroso. 

Depois de um pequeno repasto e já com as estrelas como companheiras acendemos uma fogueira e deixamos a conversa fluir: 

- Sinto-te distante e ausente. Há algo que queiras partilhar? – questionei-a preocupado. 

- Não te quero inquietar com os meus problemas… mas sinto o que já sabes que me paralisa mais. Estou mais uma vez num daqueles momentos em que questiono tudo o que faço, os motivos pelos quais persisto e as razões que me levam a fazer caminho. E o mais grave é que não sinto que esteja a ser injusta ou errada. Não percebo se é cegueira ou uma insatisfação disfarçada de falta de vontade de existir. É uma espécie de mecanismo de autodestruição só para ter um motivo para voltar a regenerar. É tudo tão contraditório e sem sentido… - respondeu Sefora. 

- És como o Covil que escolheste para viver, preferes que não te conheçam para que não te desvendem. És como o Leviatã, assumes várias formas para nunca revelares a tua. No final do dia, nem tua sabes o que há para desvendar sobre ti ou a forma que pretendes assumir. Não tenho respostas para te dar minha Aprendiz, mas há dois tesouros que descobri à muito e gostaria de partilhar contigo. O tesouro da Amizade, traduzida nos companheiros de caminho que não permitem que nos percamos. E o tesouro da Sobriedade, traduzido no ato de perceber quando não podemos nem devemos ficar sozinhos e com toda a naturalidade pedir auxílio.

8.12.2018

Por terras de Atros - O desafio da Misericórdia (Parte III)




Há desafios difíceis de entender, julgar ou mesmo aceitar, um deles é o exercício da Misericórdia. 

Hoje, pela manhã, fizemos a Vereda do Pico Vermelho, bem no coração de Atros. O desafio era simples. Rever Altri, Velho Sábio Ermita do Pico Vermelho que nos iria testar novamente perante o dito exercício. 

Altri gostava pouco de visitas. Para conseguir a sua atenção manda a tradição que lhe levássemos o melhor Hidromel, a sua bebida de eleição. Assim foi, vereda acima com 10 litros de Hidromel às costas. Chegados aos seus humildes aposentos, uma pequena cabana perto do topo do Pico Vermelho, ajoelhamo-nos em reverência e respeito pelo velho sábio ermita e oferecemos-lhe o Hidromel. 

Altri mandou-nos levantar, convidou-nos a entrar e partilhou connosco parte do Hidromel que lhe havíamos levado. Sem demoras questionou-nos: 

- Abraham, não te via há quase dez épocas anuais. Se te ponho de novo o olhar que ainda me persiste é porque me procuras em busca do que achas que esqueceste. 

- Velho Sábio, assim o é. Vinha humildemente pedir-te que me permitisses realizar novamente o Exercício da Misericórdia. Nos dias que correm preciso de me relembrar, de voltar a fazer o coração sentir que aqueles que me odeiam, que me fazem guerra, de quem desconfio também precisam que lhes estenda a mão. – repliquei à sua insinuação. 

Sem grandes rodeios, Altri levou-nos para a ravina do Pico Vermelho onde o abismo se fazia mais sentir. Atou uma velha e longa corda a uma estrutura de madeira e em seguida atou essa mesma corda aos meus pés. Sem me dar tempo para pensar indagou as seguintes palavras: 

- Para voltares a entender o conceito de Misericórdia tens de voltar ao último momento em que ela fez realmente sentido no teu coração. 

Depois destas palavras e sem que eu o pudesse questionar lançou-me ravina abaixo. Passou um, dois, três segundos… e a partir daí entrei num êxtase de eternidade. Como que paralisei enquanto caia. Senti a terra, o ar, a água e o fogo a fundirem-se à minha volta e da sua simbiose vi uma cara familiar que já não via à muito tempo. Era Lyntis, a Cavaleira Lince. 

Esta havia partido da Ordem dos Cavaleiros do Poder e da memória dos seus amigos em desespero, letargia e contaminada contra um universo que pensávamos nós, lhe queria bem. 

Quando a tentei questionar, voltei a realidade, e num momento de habilidade deixei que os meus braços amortecerem o impacto na rocha, lancei-me à parte superior da corda e escalei através da força de braços pela ravina acima. No topo Altri aguardava-me. 

Questionou-me: 

- Encontras-te o que procuravas? 

- Não sei bem Altri. Estou um pouco perdido. Revi Lyntis, alguém que já não via há muito tempo. – respondi. 

- A Misericórdia está na compaixão de estar disponível para o outro mesmo correndo o risco de ser rejeitado. A Misericórdia está no ato de perdoar quem não merece e não procurou ser perdoado. Quem te apareceu foi o teu coração a revelar por quem realmente revelaste Misericórdia sem nunca pensares nisso. Muitas vezes termos compaixão, sabermos perdoar, sermos misericordiosos acontece no nosso silêncio sem que quem teve essa bênção alguma vez o venha a saber. Vai meu amigo, o teu coração continua no sítio….

8.11.2018

Por Terras de Atros – A Lei do Equilíbrio Celeste (Parte II)




Depois de no dia anterior ter estado com Terardo, hoje era dia de escalar o Monte Sheng, o ponto mais alto e inacessível de Atros. Para lá chegar teríamos de ultrapassar os Pântanos de Manang e subir as vertiginosas escarpas de Montay. O nosso objetivo passava por conhecer o Templo do Ninho da Grande Águia Sagrada. Reza a lenda que mal entendida pelos homens, face à sua enorme e inexplicável figura, a Grande Águia Sagrada fugiu para o Monte Sheng e construiu ai o seu ninho. 

Todos os anos vários Mestres Aprendizes fazem-se conduzir ao velho templo e partilham histórias. O templo é uma espécie de entreposto onde se cruzam Mestres de todas as descendências e proveniências em busca de uma partilha de saber que os complemente ou permita responder a velhas perguntas que perturbam as suas mentes inquietas. Outros, como eu, procuram o templo só para aprender mas, como sempre, tento esvaziar o copo pois nunca se sabe o que pode acontecer. 

Primeiro deixem-me fascinar pelos incríveis precipícios do Monte Sheng que se entendiam desde a muralha oeste até à muralha norte. Pensei para mim mesmo como os havia subido. Depois desloquei-me para a ala sul e juntei-me a outros mestres que silenciosamente ouviam Mestre Zulu. Este partilhava parte da sua doutrina: 

“Valerá a pena encher a taça até transbordar? É mais prudente que te detenhas antes. Não afies demasiado a tua espada ou ela acabará por se inutilizar cedo demais. Se te vangloriares de honras e riquezas, atrairás sobre o que és o infortúnio. Não te preocupes em armazenares todo o ouro que poderes porque nunca serás capaz de o defender. Retira-te quando sentires que o teu trabalho acabou. Esta é a Lei do Equilíbrio Celeste.” 

Prestei muita atenção a estas palavras e no fim questionei Zulu: 

- Mestre, se me permites a pergunta. Quando é que percebemos que o copo estás prestes a transbordar, que a espada está demasiado afiada ou que é tempo de retirada porque a nossa demanda está cumprida? Acredito que cada um obedece e faz-se valer num tempo completamente diferente do outro. 

- Meu novo amigo. Lembra-te que os grandes conflitos, os grandes desastres e os fundamentalismos são todos eles fruto de uma suposta ausência de limites. Por outras palavras, o que era já não chegava, o que a todos servia para alguns era sinal de apatia e fraqueza. O homem a determinada altura esqueceu-se de uma lição básica. Há sempre um momento para parar, pausar e pensar para poder voltar a decidir. Tanto quem decide como quem cumpre o decidido tem de parar para perceber o que está a decidir ou a cumprir. Quantos conflitos, imbecilidades e extremismos vazios teriam sido evitados pelo simples ato de parar, pausar e pensar para poder voltar a decidir? Este ato, meu novo amigo, é a Lei do Equilíbrio Celeste.

8.10.2018

Por Terras de Atros “A certeza da etapa seguinte…” (Parte I)






No mundo dos homens distantes, aprendemos que há uma ilha onde temos de ir para treinar, contemplar e nos perdermos na visão noturna que os astros que iluminam a noite da ilha nos proporcionam. 

Por estes dias, estou em Atros, Ilha da Pérola Astral, mãe do arquipélago com o mesmo nome. 

Chegados à ilha, a nossa primeira visita passou pelo Templo dos Homens Distantes, edificação milenar que entre a vegetação luxuriante se ergue por entre cascatas e ribeiros abundantes em peixe Koi. 

O teste que nos estava guardado passava por um exercício de meditação que nos fazia recuar aos inícios do nosso Caminho da Redenção (também conhecido entre os Mestres Aprendizes como Caminho Simbólico), ao momento que escolhemos dedicar a nossa vida ao outro, às suas incúrias e ao seu horizonte. 

O exercício foi orientado pelo Mestre Aprendiz Terardo, próximo da maior cascata do Templo. Terardo com o Livro dos Elementos entre as mãos fez-se ouvir: 

“O Caminho da Redenção é uma taça vazia que quando usada nunca se enche. Parece não oferecer qualquer fundo e é a fonte de todas as oportunidades. 

Ele suaviza as arestas, desata todos os nós, faz os astros brilharem menos, é capaz de reunir toda a poeira e ruido do mundo dos vivos. 

É um abismo escondido mas sempre presente no mundo dos homens distantes. 

Não tem mãe, pai nem filhos. Nasceu antes de todos os deuses…” 

Conforme as palavras emergiam deixei-me perder no meu próprio tormento, na minha própria alegria, na minha própria confusão e recordava a primeira de todas lições: ”Traz sempre a sabedoria do último passo…” 

No fim do exercício partilhava com Terardo a minha visão. Contra as minhas previsões questionou-me: 

- Imagina que o último passo nunca existiu, onde estaria a tua sabedoria? 

Paralisado, devolvi-lhe a pergunta. Este respondeu: 

- Imagina a tua vida sem origens, não há progenitores, memórias ou ansiedades passadas. Só te resta o vazio. Podes nunca encontrar a sabedoria do teu último passo mas verás que tens sempre o caminho para fazer. Se trazer a sabedoria do último passo é essencial, fazer o caminho difícil da etapa seguinte é a única certeza que algum dia terás….


5.29.2018

Diários de Jerusalém VI - O dia da Lenda do Cavaleiro





Cavaleiro e um conceitos chave da minha vida. O legado do Cavaleiro, todo o imaginário à volta das histórias, magia e  lendas que as várias ordens de Cavaleiros me transmitiram sempre me fascinaram e determinaram uma parte relevante da minha personalidade, forma de estar e forma de acreditar. O ideal do cavaleiro trespassou me a alma como uma Excalibur filosófica (espada lendária do Rei Artur) e fez-me ver para além dos meus muros e permitiu e contínua a permitir-me viajar pela insónia do passado, pelas auras do futuro e fugir a banalidade da realidade que prefiro fazer de conta que não existir. Só para que fique esclarecido, não vivo à parte da realidade.

Mas continuando... Hoje estive em Acra, cidade da Ordem dos Cavaleiros Hospitalários e mais tarde da Ordem dos Cavaleiros Templários, conquistada e reconquistada dezenas de vezes por turcos, franceses, árabes, judeus, cruzados, entre outros. 

Acra é uma lenda perdida no tempo, não só pelos pergaminhos lá encontrados que retratam muita da sabedoria ocidental cristã, mas sobretudo pelas ruínas incrivelmente preservadas e pelo que representou enquanto principal porto do mediterrâneo para chegar a Jerusalém. Nas paredes das catacumbas da cidade subterrânea encontramos as marcas dos grilhões dos prisioneiros, a sumptuosidade da magnitude das colunas que seguram os claustros principais e salões de generosas proporções por onde viveram os velhos cavaleiros da Ordem Hospitaleira e Templária. 

Fechando os olhos, deixando a plenitude invadir-nos conseguimos imaginar a vida de cavaleiro, a preparação da armadura para o combate, a paragem para meditar, a reunião de companheiros de guerra para preparar o próximo plano, o momento da partida e do regresso, o momento de pausa com o nobre escudeiro. 

Por fim chegamos a Cesarea Marittima, última capital romana de Israel. Aqui o mito do cavaleiro contínua. O anfiteatro romano, a fortaleza de Ricardo Coração de Leão, Rei da Inglaterra Medieval, desaparecido na Terra Santa, fazem-nos sentir de volta à Lenda do Cavaleiro.

Faço então parar o tempo retenho-me no cavaleiro que sou e renovo os votos de gratidão e resolução ancestrais. 

Ser cavaleiro é combater pela liberdade fazendo do destino um aliado. Ser cavaleiro é disputar cada combate como o mais importante da eternidade que nos resta. Ser cavaleiro é ser o mais engenhoso e pacificador que puder com tempo e recursos que as circunstâncias me permitirem. Ser cavaleiro é ver na diferença do adversário uma oportunidade para aprender e evoluir. Ser cavaleiro e ver em cada nova viagem a redescoberta da sua linha do tempo para o tempo que se segue. 

Cavaleiro!!! Faz os teus votos... escolhe o que vais ser com a tua liberdade.

5.28.2018

Diários de Jerusalém V - Os dias do horizonte e silêncio




O que é que encontras no teu silêncio? O que é que procuras quando te ausentas do mundo e te deixas perder nos trilhos que a tua mente te revelou na surpresa do momento? O que procuras quando entendes que não há ninguém no mundo exterior que te possa valer e com quem possas partilhar o que de único estás a sentir? É tudo apenas um engano do momento ou a nossa solidão a falar mais alto? 

Quando me perco nestes momentos procuro a sabedoria do silêncio e deixo de ter medo da minha espiritualidade e aceito que nunca vou ter as respostas para tudo. 

Na madrugada dos nossos dias, alimentada pelo espírito omnipresente de Israel multicultural, acredito cada vez mais no milagre do horizonte e no milagre do silêncio. Agradeço ao horizonte todos os novos cenários não revelados que me permitiu alcançar e ao silêncio a capacidade de descodificar toda a beleza e magia que os novos horizontes me revelam. 

Descobrir os milagres do silêncio e horizonte é voltar ouvir a nossa alma de criança adormecida e as vozes do tempo presente, aquele que nos faz SER, sem medo do passado e do inesperado do futuro. Dar tempo ao silêncio e ao horizonte significa pegar na mochila, enche-la com o essencial e voltar à viagem e ao peregrino que há em nós. Na caminhada só parem ao por do sol, quanto todas as galáxias e mundos intemporais se alinham para que a magia e silêncio se fundam numa fórmula alquímica única. 

Faz do horizonte a próxima aventura e cenário que não te atreves a planear e do silêncio o tempo em que percebes a magia interior que acabaste de renovar. Se não fores capaz de sentir o teu horizonte e o teu silêncio, não deixes de fazer a viagem, eles acabaram por se revelar.



5.27.2018

Diários de Jerusálem IV – A minha irmã e o sonho Kibbutz



A vida é feita de laços intemporais que de uma forma convergente, absoluta, única e invisível nos fazem. Os irmãos e irmãs são parte dessa importante e essencial equação.
Hoje dou-me ao tempo de dedicar o espaço que não me lembro de alguma vez ter dedicado à minha irmã… um texto no meu blog de histórias épicas e viagens.

Hoje conheci um daqueles sonhos impossíveis, uma cooperativa Kibbutz. Kibbutz são comunidades que partilham e integram todos os recursos gerados ao serviço do todo. Ou seja, são uma espécie de aldeias comunitárias que gerem os seus próprios negócios e que no final os lucros são totalmente reinvestidos na comunidade e de forma equitativa por todos os membros da mesma. Sem dependerem do estado, garantem todos os serviços aos seus membros, não deixando de respeitar a sua liberdade de ação e escolha. Todos os recursos pertencem à comunidade e são partilhados de igual forma, desde carros, espaços de lazer e as próprias habitações. Todas as principais decisões são tomadas em Assembleias Comunitárias onde a maioria prevalece.

Parece poético mas não é nenhuma invenção, esta é mesmo a realidade. Não é perfeita e alimenta muitas perguntas, mas no fim do dia, que melhor solução conheces tu?

E perguntam vocês, o que tem isto tem haver com a minha irmã? Tivemos o privilégio de experimentar e ser formados numa realidade que sendo totalmente diferente partilhou os mesmos princípios e que deu forma ao talento que ambos hoje revelamos.

Foi com base nestes princípios utópicos que hoje redescubro o talento da Ana na sua criatividade, na simbologia natural que coloca na liderança sábia que exerce junto das crianças e adolescentes com que trabalha todos os dias, na Mãe justa e assertiva que revela ser e na companheira de silêncio, presença e atitude que sempre foi.

Devemos deixar ao mundo a lembrança dos bons exemplos de vida e comunidade que tivemos o privilégio de conhecer e partilhar, hoje deixo o exemplo da Ana Costa, minha irmã e das Cooperativas Kibbutz. Não o faço para lembrar ao mundo que é possível mudar ou fazer melhor, faço-o para eu mesmo me lembrar que, façam o que os outros fizerem, eu tenho exemplos que me permitem continuar a  viver o meu. Termino com Obrigado.