8.24.2011

Milénia... a aprendizagem através do elemento água em toda as suas formas... (Parte III)

Depois do tempo necessário para apaziguar a alma e equilibrar físico, espírito e psiquis, Saaber procura perceber o que mais Milénia lhe pode ensinar. Por estes dias decidiu visitar as Grutas da Promessa, bem no interior Sul de Milénia e posteriormente escalar as Montanhas do Fogo e do seu topo observar a Lagoa das Visões, bem no centro de Milénia. Mas a sua escalada é em vão, uma enorme neblina apoderasse do topo da Montanha, não é possivel ver mais que três metros em frente. Sem querer dar por mal empregue o tempo da sua jornada, Saaber segue na direcção contrária à nebllina procurando a claridade. Serenity acompanha-o.



Depois de várias horas a descer por entre velhos trilhos, alguns mesmo inexistentes e inventados na pressão do caminho, Saaber avista uma enorme Lagoa. Acelerando o passo, aproximasse das margens do enorme lago. Não era a Lagoa das Visões, tratavasse da Lagoa Amarela e nas suas margens erguiam-se velhos palácios de antigos feiticeiros. Alguns desses palácios estavam já abandonados, outros davam ainda morada aos descendentes dos antigos mágicos. Cada um deles parecia contar uma história de silêncio diferente e com alguma atenção era possível ouvir as calmas águas da Lagoa Amarela a sussurrar alguns  trechos desse passado distante. Saaber não estava preocupado em perceber o local, limitou-se a viver a intensidade e a paz que aquele santuário natural transmitia. Sentou-se e contemplou o local por tempo indeterminado através de um exercício de introspeção.

Horas passados, Saaber e Serenity sobem pelo sopé das montanhas em busca da nascente da Lagoa Amarela e qual não é o seu espanto quando durante a subida dão de caras com um conjunto de lagoas mais pequenas, numa especie de piscinas naturais de água quente no meio do nada. Logo ao lado uma pequena povoação de pastores. Saaber e Serenity param para admirar o local e resolvem mergulhar nas águas das pequenas lagoas. As lagoas tinham poderes medicinais, Saaber sentia cada uma das mazelas que tinha acumulado durante a jornada a regenerar-se. Alguns pastores aproximam-se e explicam a Saaber como era possivel aquele fenómeno. Tudo era devido a enormes caldeiras naturais que imergiam no coração da ilha e que para além de aquecer as águas lhe atribuiam as suas propriedades medicinais. Neste momento em que Saaber se preparava para ouvir o resto da história, a neblina de outrora aproxima-se e com ela uma leve tempestade transformada em chuva. Em plena lagoa de água quente, Saaber experimenta uma rara dádiva natural, uma especie de concílio entre os Deuses da Terra e os Deuses do Céu conciliados pelos Deuses da Água. Prostrado em águas a pouco mais de 25 graus com uma suave chuva a tecer a sua face, Saaber lembra-se que mais do equilibrar o seu todo, o homem no seu devaneio, procura equilibrar-se com o Cosmos que o rodeia e que encontra na Natureza a sua expressão maior. Milénia era o sítio perfeito para aprender a viver o que já todos os homens sabem, só sobreviveremos se depois de equilibramos a alma a soubermos integrar no meio que nos envolve, no Cosmos para além de nós, representado em estado puro pelo elemento água.

8.23.2011

Milénia... à procura do equilíbrio para travar o "bom combate"... (Parte II)

Milénia é uma terra de pessoas comuns, onde qualquer um pode ser o escolhido, o finalizador do seu próprio destino. Saaber e Serenity são os jovens magos que por estes dias têm o privilégio de viver nestas terras.

Existe uma razão diferente para cada um deles cá estar, Saaber tenta perceber toda a mística que determina Milénia e procura aprender como se deve preparar para o próximo "Bom Combate", Serenity pensa apenas em recarregar o seu pote mágico de intensidade suficiente para aventuras futuras.

Em busca do saber para enfrentar o "Bom Combate" os dois jovens Magos procuram nos primeiros dias as Lagoas do Céu, bem pertinho do Vulcão Elishea, no sentido de perceberem o poder da Serenidade, da Paz Interior. São dias dedicados à introspeção, à contemplação e às memórias que fazem doer.



Depois das Lagoas do Céu, de perceberem onde mora a Paz que não percebem mas desejam atingir, os dois jovens magos percebem que devem procurar as Nascentes das águas da Paz Eterna, uma nascente de água medicinal aquecida pela lava vulcânica e que desagua no mar. Dizem os Antigos da Tradição que antes do "Bom Combate" o guerreiro deve equilibrar espírito, corpo e a psiquis (intelecto). Mergulhar naquelas nascentes, segundo os Antigos, permitia revigorar e equilibrar o físico. Faltava o espírito e a psiquis.

E é com essa intenção que ambos os pretendentes a guerreiros se perdem em antigas ruínas em busca dos Templos do Tempo Incontável e das portas do Mausuléu das Recordações para se completarem no seu equilíbrio. Nos Templos do Tempo Incontável ambos rezam ao Tempo e a quem o pretendeu, pretende e pretenderá buscando o equilíbrio do espírito. Mas para chegar ao Mausuléu das Recordações a aventura é mais rebuscada. Só se percebe que se passou por ele quando nos perdemos nele. Serenity passou e nem se apercebeu, não completando a triade do equilíbrio do mago humano. Saaber esbarrou no Mausuléu e cumpriu o velho ritual de ler cada um das suas paredes. Completada a primeira jornada é hora para descansar e desfrutar do equilíbrio conquistado.


8.21.2011

Milénia... a terra improvável... (I Parte)

Há pouco mais de 15 anos ouvi falar em Milénia pela primeira vez... uma terra de recantos incontáveis, de magia celeste, de serenidade insondável que se revestia e se escondia por entre um mundo de homens. É o local dos escolhidos, dos homens e mulheres de fé. É um recanto onde os guerreiros descansam depois das suas inúmeras batalhas, uma miragem para os poetas e o espelho para as almas transparentes.
Depois de alguns anos sem procurar lá estava ela, a terra prometida... Milénia...
Hoje volto para lá novamente... para voltar a rever poetas amigos...

8.17.2011

Depois do Nevoeiro...

Já passaram 17 dias desde que Agosto ganhou forma... já vivi mais aventuras e emoções nestes dezassete dias que em alguns anos da minha curta existência. Quando chegamos a determinada fase da vida partimos do príncipio que não existem muitas mais montanhas para escalar, e as que ainda faltam, pensamos serem demasiado altas e deslocadas da nossa realidade. Não penso assim nem de perto, nem de longe... sempre que termino uma montanha procuro a que se segue, se a que se segue é a mesma, procuro um trilho diferente para a subir. Se o trilho for o mesmo, ainda assim, procuro alguém diferente que a possa subir comigo para ouvir novas hstórias. De qualquer forma, não podemos esperar sempre por uma aventura interminável, existem momentos na vida em que o silêncio se faz ouvir e em que a aventura que se segue não passa de uma sequela mal realizada de um filme que já vimos. Pensei e tinha a expectativa que as aventuras que haviamos planedo para este Verão seriam interessantes, mas estava longe de imaginar que me ultrapassariam.

De 1 a 5 de Agosto estive no Gerês, no GeoCamp International 2011, iniciativa da organização de que faço parte (a PASEC) e, mais uma vez, tive a oportunidade de trilhar caminhos de histórias já contadas. Escalei, explorei, reflecti, desvendei, acabaei com o meu físico corporal e emocional... mas algo faria desta sequela de filme épico algo nunca vivido... perceber que era exactamente ali que queriamos estar.... e que fariamos de tudo para prolongar aquele sentimento de "memórias de sempre".

A Quarta-feira, dia 3 de Agosto, dia da escalada até um dos topos do Gerês, seguida de um rapel de mais de 60 metros, foi o deslumbramento do que uma "fortaleza humana" (equipa) é capaz de produzir. Foi assim os cinco dias, por entre todo o tipo de peripécias que vão desde uma festa com carros a fumegar em área proíbida à meia  noite na fronteira entre Portugal e Espanha a ambulâncias da Cruz Vermelha chamadas de urgência para salvar donzelas lesionadas às "tantas da manhã". Foram as histórias e memórias que partilhamos, misturadas com a magia dos recantos do Gerês, que tornaram o GeoCamp uma experiência para lá de nós mesmos.

Dias 6 e 7 aproveitei para descansar. De 8 a 12 avancei para a Tocha, para o Seminário "Democracia e Interculturalidade", também organizado pela PASEC.

A atmosfera que rodeou o Seminário foi uma especie de fusão entre o passado e o presente da organização PASEC. Estiveram amigos que estão na organização desde o seu início e que por vários motivos os vejo partir para novas aventuras e alguns, ainda verdes, nestas andanças à pouco mais que um par de meses. Aquele sentimento que vos referia de que "é aqui que queremos estar", revelou outra face, a história da evolução das motivações e razões que me fazem, que nos fazem, querer estar ou sentir que pertencemos a determinado espaço ou contexto.

O Seminário foi esse laboratório simbólico de emoções banhado por noites fantasma do fantástico onde o grupo se fortalecia como uma constelação só. Foi assim noite dentro, fogueira acesa acompanhada de viola na praia da Tocha, foi assim nas noites de Simbologia Grupal ou nas noites de "teatro obsceno".

Para quem não percebeu, são raros, para não dizer inexistentes, os momentos em que o nosso tempo para e nos permite olhar para o que construímos e estamos a construir ao mesmo tempo, dando razão ao nosso ego, egoismo e dessa forma, ao que somos (com defeitos e qualidades combinados). Não vou retratar as aventuras que vivemos porque tornar-me-ia ainda mais entediante, mas foram "algo".





Descansei os dias 13 e 14 por entre muitas sessões de cinema e no 15 avancei para a Serra da Lousã e arredores em busca das Aldeias Perdidas do Xisto. Não vou partilhar o que andei a fazer ou descobrir, as imagens falam por mim. Agora sem responsabilidades que me acorrentem, pude perceber os dias que tenho vivido e há um momento chave que quero revelar.... dia 16 Agosto, depois de ter visto veados e outros animais.... Serra de Miranda.... 18h da tarde.... estava um nevoeiro que não nos permitia ver que mais que 3 metros... queriamos seguir de carro por um trilho de terra para mais uma Aldeia do Xisto da qual não me lembro do nome... mas estava impossível devido à densa neblina e tivemos que voltar para trás. Entretanto enganamo-nos no caminho e de repente, descendo a encosta, o nevoeiro dissipou-se e vi algo que jamais havia visto, uma enorme massa cinzenta (o nevoeira na foto em cima) a comer a montanha com mais de 1000 m de altitude por completo... só se vislumbrava, ocasionalmente, alguma hélices das ventoinha heólicas que venceram o topo da montanha. Passamos da penumbra ao horizonte interminável num instante. E por ali fiquei intensos minutos a observar... sem querer mais nada... apenas a observar. É estranho não estar ansioso pela próxima aventura, é estranho.... mas pemite-me perceber que vou sobreviver depois do nevoeiro, mesmo que não tenha mais montanhas para subir. 

7.23.2011

Sacríficios e Sangue...

Passei os meus últimos dias a "pastar a alma", a atormentar o meu espírito e a percorrer as veias da minha própria integridade. Foram cinco dias em que andei a saltar entre o trabalho e a companhia do meu grupo juvenil "Os Cavaleiros" em Campo de Sobrevivência.
Por estes dias vivemos todos na incerteza do que crise nos trará e das respostas que não queremos ouvir. A vida de professor é uma bênção, assistir à evolução dos que nos precedem alimenta-nos o ego, a alma e faz-nos perceber que podemos, de facto, fazer alguma diferença.  Ao fim de 15 anos a trabalhar com grupos, estes últimos 5 foram a melhor experiência que já vivi, deram-se e proporcionaram-me mais vida do que qualquer alguma vez consegui imaginar. Dantes olhava para o topo da montanha e pensava como seria olhar lá de cima. Hoje, no cimo da montanha, tenho medo de voltar a descer.

Sei que é importante descer para voltar a subir, mas neste caminho que tenho trilhado quero continuar a ajudar outros a subir a montanha, permitindo que outros possam vislumbrar a novos cumes e horizontes.
Sei que não vou deixar de pecar, mas também sei que vou continuar a servir de apoio a trilhos e caminhos de terceiros... alguns a que chamarei de amigos, outros mais que se tornarão cúmplices.

Neste cinco dias de Campo de sobrevivência e trabalho constante juntamos sacrifício a sangue, incerteza e afectividade, passado, presente e o querer de um futuro.

7.03.2011

Olimpo


É um ultrage pensar no tempo
É quase criminoso
Perder tempo com o tempo
Não vos descrevo o tempo presente
A dor dos nossos dias
Acordo antes para o tempo que não temos
Aqueles que vendemos
Aqueles que vendemos ao desbarato
E que nos relativiza na nossa pequenês...

O tempo é o Olimpo dos dias
A única certeza que nos alimenta
É o nosso destino secreto
O cronómetro de que não escapamos...
Muitos foram e são os poetas que o descrevem
Muitos foram os guerreiros que por eles pereceram
Muitos foram os acasos que o simulam
Mas ele continua o mesmo
Igual para todos na existência
Mas diferente na mente que o ignora...

Se somos poetas o tempo não existe
Existem sensações, letras, ilusões
E não existe tempo que as retenha
Existe o ritmo da sua essência
Se somos guerreiros
Tempo é o que não temos
Porque escapa-nos na hipótese de mais um confronto
Se formos um acaso
Como todo o resto da humanidade
Existe o tempo e tudo o que nos resta
É o nosso todo infernal rumo à desintegração
É o nosso cúmplice vitalício

É o caminho no sopé da montanha que nos conduz ao Olimpo.... 

Conversando com o Poder


Alimentei a alma num deserto de Ideias
Conclui a minha pauta numa tela
Não sabia onde tinha guardado as claves de Sol
Por isso repintei aquela tela já usada

Podia ter comprado uma nova
Mas o contexto é de contenção
A época é de alteração do status
E de reorganização mental alargada

Mas repensando o eu
O que quase sou
E nunca quis ser
Revejo as minhas principais opções
Estudo as trajectórias do tempo
Recrio os caminhos assombrados
Capitalizo a minha alma mordaz
E converso com os poderes que me batizam

Começo pelo pão dos meus dias
Percebo as vezes em que sou obrigado a lavar a alma
E as linhas que realmente ajudei a desenhar
Passo então pelo sonho existencial
E pela forma seus astros interagem
É um bailado belo, estelar e químico
Embora rebuscado em dimensões menores
Qualificadas na minha quase mente como inoportunas

Noutra dimensão do essencial
Analiso Família e Amor
Num patamar paralelo
Num quadrante inseparável
Porque no meu provavelmente
São a única dimensão real na presença e no abstracto ausente

Entretanto resumo vozes
Percebo que me engano todos os dias
Só estou certo da escadas que subo
E das que posso descer
Bem como das estradas de duplo sentido.
Sei que o poder é eminente
É ondulante e retaliante
E que me cabe a mim, a cada um de nós
A todos os eus e nós reencarnados
Viver nele, com ele e sem ele
Amedrontando-o, dominando-o, equilibrando-o
Á procura dos limites que nos desvendam o horizonte...

5.26.2011

Cosmos

19 Abril 2011


Durante séculos a escuridão permaneceu intacta, silenciosa em torno do seu próprio interior e nada fazia alterar o conteúdo da sua existência. Vivia programada de acordo com a rotina do seu dia-a-dia e nada fazia despertar a sua curiosidade íntima, a sua essência natural e misteriosa. Até que em determinado momento, algo inesperado, capaz de despertar o seu interesse interior acontece.

Num amanhecer, aparentemente comum a tantos outros, a escuridão acorda fria e vagarosa, mas ligeiramente incomodada por uma sensação invulgar, jamais sentida anteriormente. Por incrível que pareça, a escuridão sentia-se vigiada, o modo como se expressava, o próprio comportamento era ponto fixo para quem a observava.

Então, sozinha, a escuridão comenta consigo mesma:

- Que estranho, nunca me tinha sentido assim, sinto olhares estranhos sobre mim.

Até que surge uma voz quase como inexistente, mas ao aproximar-se sentia-se a força expressa na voz.

- Não tenhas medo escuridão, apenas quero ser tua amiga. Sabes, há muito tempo que vivo aqui, mas nunca consegui encontrar ninguém, cheguei mesmo a pensar que seria a única a cá morar. Mas parece que estava enganada.

Enquanto, a voz misteriosa se aproximava o coração da escuridão foi abrandando, até estabelecer o seu ritmo inicial, já que agora conseguia ver o rosto da voz que falava com ela.

- Quem és tu? E o que fazes aqui? – Perguntava a escuridão ainda num tom de voz tímido.

- Olá, sou a Lua e procuro alguém, preciso de encontrar alguém com quem possa falar, já não consigo viver sozinha por muito mais tempo. Sabes quando sentes que deixas de existir porque que te falta algo, e no meu caso falta-me a presença de quem amo. Sempre precisei de viver em grupo porque só assim sou feliz, sem isso não consigo brilhar.

A escuridão percebendo e identificando-se com a situação da lua permitiu que o diálogo prolongasse por várias horas, tendo a lua pernoitado por ali durante uns dias.

Cada dia que passava a lua sentia-se feliz e acolhida pela escuridão. E foi então, que perdeu a ideia de que a escuridão não existe apenas num sentido negativo, mas sim num sentido de conforto. A lua passou a ver o escuro como meio de reconhecer as luzes mais fraquinhas, luzes essas, que desvendam segredos, a partir dos quais surge o inesperado – a própria magia.

Posteriormente, as luzes são ténues, quase inexistentes no universo devido à imensidão do escuro, mas que, no entanto, aparecem como um sinal de vida, alcançando um brilho intenso e bastante significante em tudo o que precisa de vida e de ser descoberto.

Neste sentido de descoberta a lua refere-se ao planeta Marte, sendo o planeta que se encontra à descoberta. É o local onde se espera que haja possibilidade de existir vida.

Em contrapartida a lua também se refere a um outro planeta, mas algo que não se consegue descobrir na sua totalidade e que nunca ninguém consegue desvendar por completo. As suas características são muito complexas, apesar de aos seus olhos tudo parecer simples e tão básico.

Mas não existem planetas sem os seus meteoros e estes ao colidir na terra torna-se brilhantes porque se transformam numa estrela cadente, mas só por alguns segundos, porque o seu brilho é dado só para quem está atento e para quem o quer ver. Requer muita atenção e paciência para a analisar.

Contudo, a lua acrescenta ainda nesta lógica, o eclipse, uma espécie de conflito que nada permite ver, nem a lua nem o sol. Quando ambos se juntam na linha do horizonte não permite transparecer nenhum sentimento. Pode significar aos olhos dos simples um fenómeno cruel porque a luz torna-se ausente, mas é o maior fenómeno existencial na vida humana.

E na sua lógica, a lua termina com o buraco negro, no sentido de que acolhe o que esta disperso no universo e que faz sentido unir para dar o significado à grande expansão que é o Cosmos.

A escuridão ficara atónita com o que acabara de ouvir nos últimos dias, e esforçava-se continuamente para conseguir compreender tudo o que aprendera.

A aprendizagem fora muito simples: durante séculos a escuridão não vivera, pois tivera medo de avançar, de partir à descoberta do que inicialmente ainda era desconhecido, e que por isso a atormentava, limitando-se assim a viver na sua redundância insignificante. Percebera agora que não existe nada melhor e mais intenso do que viver em grupo. A vida em grupo é das melhores experiências de vida que qualquer um de nós aqui presente nesta sala pode ter ao longo da sua pequena eternidade. Principalmente, nos grupos que aparentemente, nada têm em comum. Aqui fica o testemunho de mais uma experiência, de mais uma vida, de mais um grupo. O grupo Cosmos!

(texto escrito pelo Grupo Cosmos - PASEC 2011)

5.09.2011

Coimbra intemporal...

Faz hoje dez anos que foi o meu Cortejo Académico, o dia de todas as "santas bebedeiras", aquelas que até o encarregados de educação não se importam de mencionar.

Sempre vivi numa especie de sindicalismo académico...   vivia a Queima das Fitas com alma e horizonte mas sempre numa especie de pré-responsabilidade relativamente à praxe. Mas verdade seja dita o simbolismo académico só começou a fazer sentido quando já estava eu no terceiro ano da universidade. Momentos como a Serenata Monumental na Sé Velha de Coimbra, o traçar de capa  que marca a passagem de caloiro a doutor, o Cortejo Académico que marca a ligação entre o mundo académico a cidade e a família que paga os nosso exageros ao fim do mês, foram momentos que só compreendi quando o meu fado de Coimbra era já o de partida. Dizem que Coimbra tem mais encanto na hora da despedida, eu digo que faz mais sentido na hora dos regressos não programados.

Coimbra é uma feira de vaidades mal compreendidas, é um laboratório de relações humans que demoramos tempo a entender e assimilar. Coimbra Académica é uma Universidade que subjuga uma cidade, é a "intensidade" de momentos que nos ligam a nós próprios e aos regressos que nos fazem melhores.

Continuo a entender a realidade académica como um mundo de farsa que nos tenta preparar, sem o conseguir, para uma sociedade de rutura e instabilidade total. Coimbra é intemporal e com todo o tempo do mundo para nos voltar a dar o tempo que nunca tivemos. Num mundo em que o tempo de hoje é o do ontem diário, Coimbra é a excepção que confirma uma regra absurda.


Por estes dias partilho o meu tempo com Dragões Azuis, Tigres perdidos, Deuses do Egipto Antigo... tempo limitado mas que me permite mais um regresso que me faz melhor no pecado dos meus dias com os que me são mais próximos.

5.04.2011

Persistir... com o nosso tempo... (para a Cavaleira Grifo)

Enquanto adormeces,
Enquanto pernoitas na tua própria falta de sentido
És a senhora do da tua desdita e confusa singularidade.
Enquanto te escarneceres,
És o irromper e manar da tua própria alucinação
Continuando a fluir para longínquas conclusões
Espezinhando a tua presença
E os outros que adulteramente te honram.

Viajas no constante situacionismo de te concluíres
Sem conceberes que precisas de uma chave,
De um trespasse que te possa transportar
Da saída que te permita entrar.
Só comprometendo esse êxtase lunático de trevas
E abonando a tua essência no persistir
Te permitirás.

Persistir é um quadro mal pintado,
Uma parede de uma cidadela inacabada,
Uma orquídea de um Éden abandonado,
Uma letra de um poema jamais redigido,
Uma noite de um tempo só nosso.
O persistir não se desvanece num epílogo mas num incremento,
É o sangue da nossa conquista, do nosso triunfo
É o  talvez da chave que procuramos,
Não nos conclui, mas compromete-nos com o tempo,
Com o nosso tempo...
Um tempo de amigos,
Um tempo de compromisso,
Um tempo de que ambos iremos fazer parte...

4.23.2011

Sou o que sou em virtude do que todos somos...

Partimos à aventura como se fosse a primeira vez…
Equipamos a alma
Alimentamos o espírito
Unimos o que nos separa
E voltamos à montanha do silêncio.

Ao subir a montanha
Desafiamos a nossa criatividade
O nosso tempo
A nossa existência como grupo
Os sentimentos que nos unem.

Ao rever o horizonte
Limpamos a mágoas
Saramos as feridas
E preparamo-nos para a própria subida
Para a próxima viagem
Que nos fará começar outra vez
Sendo novamente, em virtude do que todos seremos.


4.05.2011

Há dias em que se pudessemos enforcavamo-nos vinte vezes...

Há dias em que se pudessemos enforcavamo-nos vinte vezes, mas não seria um enforcamento qualquer, seria algo de glorioso para todos verem e que marcasse de modo inigualável quem pudesse assistir ao momento. Mais rídiculo que este pensamento é lembrarmo-nos da quantidade de vezes que damos conselhos aos outros e da quantidade de vezes que fazemos exactamente o contrário só porque somos especiais e naquele momento de insanidade nada fazia sentido.

Se ser disciplinado existe, é nesta horas que revelamos o que a nossa integridade realmente vale. Nesta matemática cósmica foco-me no que tem de ser (e sabemos que "isso" tem sempre muita força!!!) e no essencial que nos faz levantar todos os dias e que faz a vida valer a pena.

Por estes dias o que tem de ser é o meu emprego que me abre portas, fecha tempos, mas me realiza... o essencial que me alimenta e liberta a alma é a "tropa de elite" com quem partilho os meus dias, que me desafiam constantemente e me obrigam a não baixar a guarda porque não tenho o direito de frustrar as suas expectativas. Felizmente que o meu essencial me transporta ainda para Cavaleiros de aventuras épicas, para uma família que continua a transportar o meu farol, para amigos muito "melhores que eu" e para uma consciência que me faz procurar o meu próprio silêncio. E se me permitem a oração "no silêncio fala Deus, é na alma que ele está..." e como pecador que sou, limito-me ao silêncio porque Deus já tem problemas que chegue para lidar. 

3.11.2011

Perceber que ao fim de dez anos começamos todos os dias…

O tempo passa como um furacão e nem nos apercebemos que com o tempo fomos ultrapassados pelo próprio tempo sem que o nosso próprio tempo desse por isso. E é nesta confusão de processos que acertamos, erramos, redescobrimos, filtramos e alcançamos caminhos. E reforço a ideia de caminhos porque os lugares onde de paramos são meros pontos de passagem numa constante cavalgada que só termina no dia em que paramos de nos penitenciar pelos erros que cometemos.

E é um pouco sobre esses erros e acertos que todos cometemos ao longo do caminho que gostaria de reforçar na reflexão de hoje.

Fez no dia 7 de Março de 2011 10 anos que nasceu o Grupo Cavaleiros numa espécie de segunda versão. Quando digo segunda versão refiro-me ao facto de que na origem da PASEC esteve o grupo informal Cavaleiros que conheceu o seu início por volta de 1994, embora as iniciativas mais significativas tenham começado em 1996. E foi devido à acção do primeiro Grupo Cavaleiros que nasce em 2001 este novo grupo, na altura com o nome Mini-Cavaleiros Campeões.

Mas o tempo passa e em meados de 2005 o grupo Cavaleiros conhece o seu epílogo. Os Mini-Cavaleiros continuam, tendo alterado o nome para Cavaleiros em 2007. Substância histórica à parte, entre 2001 e 2011tudo mudou, embora muitos dos pilares permaneçam os mesmos, um deles o processo de educação não formal que esteve na origem do grupo.

O grupo tem hoje dez elementos, mas foram largas as outras dezenas que em determinada fase do seu ciclo vital o compuseram. A juntar a estas dezenas de crianças e adolescentes foram também alguns os Animadores que o grupo conheceu, pelas minhas contas cinco: primeiro o Bernardo e a Mayra, seguiu-se o Luís, mais recentemente a Patrícia e hoje a Bruna. De toda esta panóplia de personagens, ficaram para contar a história desde os primórdios, o Bernardo, que não sendo Animador do grupo é hoje Vice-Presidente da PASEC, e o Bruno, a Ana e o Alexandre, que têm dez anos “de casa”.

Pelo meio deste caminho cheio de desvios, devaneios, momentos ocultos, cerimónias irreais e experiências avassaladoras foram muitos os erros de casting, as “metidas de para na poça” e os enganos que nos magoaram, deram forma e nos trouxeram até ao que somos hoje. E vou começar por abordar esses mesmos erros na pele de Pedagogo e Animador.

O papel de Animador pode ser ingrato porque a influência e papel que desempenha na vida de cada um dos elementos do grupo está sempre na fronteira entre o que é certo e errado, na linha que pode separar um processo de manipulação de um processo de emancipação e capacitação. Estive já certamente nas duas situações, mas o que torna legítima este nosso papel que pode cair para qualquer um destes lados?

Não é fácil responder porque não podemos avaliar o nosso desempenho apenas com base nos resultados que alcançamos, estes são sempre variáveis e dependem dos olhos de “quem os vê”. Penso que a resposta mais simples é termos a consciência de que tudo o que fizemos, independentemente dos resultados, foi com a intenção de deixar o mundo “um pouco melhor do que o encontramos”, aceitando os nossos momentos de “soberba” como fogachos que servem de lição e as fortalezas humanos que ajudamos a erguer como um privilégio que nos permitirá cumprir mais uma etapa do papel que escolhemos desempenhar.

Não vale a pena nos assumirmos como plenos de boas intenções porque mesmo que em boa parte da nossa acção tenha por base os nossos bons intentos já todos erramos e assumimos posições “absurdas” conscientemente pelas mais variadas razões. Eu não sou diferente. E é na consciência destes factos que podemos diagnosticar a qualidade do trabalho que realizamos. È no conhecimento das causas e consequências do mau trabalho que fizemos que melhor poderemos avaliar os bons trabalhos que estamos a fazer e mais importante, que queremos e perspectivamos fazer.

Com o tempo este estado de consciência assume o formato de “alarme introspectivo” que nos mantém alerta sobre nós próprios, não permitindo que o absurdo vença em formatos ainda mais absurdos. Claro que como todos os sistemas de alarme, este é igualmente falível, mas reajustável e flexível na igual medida da nossa experiência. Consoante as etapas que percorremos, este mecanismo tornasse cada vez mais complexo, completo e capaz de nos auxiliar num maior e mais vasto conjunto de situações.

Assim, tendo por base os pressupostos anteriormente referidos, tenho orgulho nos caminhos que ajudei a traçar, nomeadamente no Grupo Cavaleiros actual. Mas este “quase sucesso” eternamente inacabado só se proporcionou porque tive a oportunidade de experimentar, de testar em Laboratório as formulas que considerava mais ajustadas, combinando-as com a partilha de experiências com “Mestres de Caminhada” que me formaram e permitiram perceber e interpretar outros saberes e fórmulas de que hoje faço uso. A consciência destes dois suportes (de que precisamos de ter a oportunidade de experimentar e a humildade para a aprender) auxilia-nos a perceber quando precisamos de ajuda, informação ou mudar de caminho, porque em alguma fase do nosso percurso estivemos, fizemos parte ou fomos interpelados pelo caminho de outrem.

Compete-me agora abordar a antítese do erro, o “darma” (prémio) de dez anos a acompanhar o Grupo Cavaleiros, as lições, o “legado”, a pedagogia implementada, porque não é tão usual assim um grupo informal de jovens subsistir e se erguer no tempo acompanhando as diferentes fases da vida dos seus elementos.

Para começar é preciso ter alguma sorte, depois muito entusiasmo e por fim o compromisso de que queremos aquele caminho. Depois de conjugarmos todos estes factores é essencial percebemos e termos a noção de processo e que este se constrói com base nas relações humanas, porque antes de tudo estamos a trabalhar com um grupo de pessoas que procuram a sua satisfação e realização pessoal.

Conscientes que estamos perante um processo grupal, este deve ter como ponto de partida as histórias de vida dos elementos do grupo, a suas experiências, as suas capacidades naturais. Um plano de acção inicial com base nestes pressupostos permitir-nos-á perceber o que o grupo como um todo realmente quer, para onde pode caminhar e onde deve e pode ser reorientado. E depois, é deixar o grupo crescer, errar, voltar a errar, tentar e por fim, se houver tempo, acertar. Com o tempo a relação de aprendizagem vai mudando, sendo que o que sentimos que estamos a dar e “ensinar” assume uma natureza recíproca. O Animador deve assumir uma postura de abertura e disponibilidade para aprender com o grupo que está a orientar, mesmo que não o demonstre. As lições mais valiosas para gerir um grupo estão nas entrelinhas de uma conversa, no detalhe de uma acção que nos passou ao lado, no resultado que não previmos. O grupo nunca é sobre nós, é sempre sobre “eles” e de que modo “eles” e “nós” somos ao mesmo tempo.

Durante este processo de descoberta mútua o Animador deve estar preparado para as encruzilhadas do caminho, sobretudo aquelas com que nunca lidamos. Exemplos, imaginem que descobrem que um dos elementos do grupo se emergiu no universo das Drogas, que um deles foi preso ou ainda que um deles é vítima de violência doméstica. O que fazer numa destas situações para as quais nunca fomos preparados? A resposta pode ser impossível, mas a nossa presença é inevitável. Por outras palavras, independentemente dos apoios e suportes que procurarmos para lidarmos com a situação no concreto, a nossa presença na relação directa com o problema é a oportunidade que temos para aprender, mais uma possibilidade que temos para fortalecer os laços em quem confiou em nós e sobretudo para testarmos a nossa resiliência, persistência, capacidade para gerir as nossas próprias frustrações e momentos de crise comuns.

Durante este caminho vamos ainda aprender a desaprender, a deixar de parte os preconceitos, a não considerar receitas universais (porque cada caso é um caso, e cada problema tem uma resposta diferente) e sobretudo a equilibrarmos a forma como abordamos os problemas criando uma matriz própria assente em valores que partilhamos com o grupo. Ao mesmo tempo vamos aprendendo a gerir a nossa Inteligência Emocional sem nunca descorar o processo formação contínua de melhoria e ampliação do quadro de técnicas pedagógicas que dominamos.

E entre todas as coincidências, acertos e erros, a principal lição que fica é que mesmo ao fim de dez anos continuamos a começar todos os dias… fazendo do amanhã o desafio seguinte que nos desperta o entusiasmo e o compromisso com base na fé que nunca é sobre nós… é sobre “eles”… porque afinal sou o que sou, em virtude do que todos somos.

2.05.2011

Diários de Kayseri, 2ª Serie - Parte VI - "A montanha das vertigens..."

O dia 6 assinala a contagem descrescente para a casa da(o) partida/regresso. Foi das semanas mais intensas que poderia imaginar pela "misturada" de emoções, dores físicas, experiências irrealistas e momentos do oculto, como ir a uma consulta no dentista às 2 da manhã (só na Turquia). Hoje, pela manhã, fomos para 4000m de altitude, para o Centro de Ski, o que só por si alimenta os sonhos de qualquer um. Estavamos ansiosos devido ao facto de ainda sermos virgens nestas andanças, eu pelo menos só experimentei "sku" e não me dei muito bem.



Entramos para o autocarro e "bora" montanha acima. Pelo caminho converso com a Pelin, a companhia de "amena cavaqueira" por estes dias, trocamos impressões, até que me calo e coloco a minha vista no Sol intenso que acaricia e nos faz vislumbrar a enorme montanha. Nos últimos minutos de viagem perco-me na imagem das imensas montanhas cobertas por mantos inebriantes e intermináveis de neve.

Finalmente chegamos ao Centro de Ski, "brutal"... passados alguns minutos embarcamos no teleférico rumo ao cume da montanha e perdemo-nos a ver a pequena humanidade, a nossa própria insignificância e paramos o tempo para registar a nossa idiota carapaça no topo de tudo o que já conseguimos atingir nesta frágil cápsula que habitamos na Terra... eu pelo menos nunca tinha estado a 4000 metros. 

Chegados de uma viagem que nos registará no nosso próprio tempo fico indefinido.... ski ou mota de neve?.... tem mesmo que ser uma mota de neve.... e como num filme digno de Bond acelaramos a mais de 100k colina abaixo sem mais ar para respirar, subimos a pique... saltamos e "malhamos" e era como se todos os ossos me tivessem saltado do corpo. Foram minutos, mas a adrenalina foi....!!!!!!!!!!! preciso de repetir... ai espera... esta "cena" custa dinheiro.... vou ter que parar porque a carteira não se estende mais.

Após o apocalipse das neves e de todas estas "vertigens", segue-se a competição final... polacos a dinamizar. O resultado o costume, vencemos um e ficamos em segundo noutro jogo. E finalmente sentamo-nos ao sol com a neve como sofá de improviso. São quase 15h da tarde, tempo de ir almoçar. Depois intervalamos longamente, estamos em grupo e jantar final. Segue-se a Noite Intercultural de despedida. Foram dias para guardar no baú dos desejos, a esperar que mais se repitam. Segue-se dia 7, uma viagem de mais de 15h até Portugal. Até à próxima aventura....

Diários de Kayseri, 2ª Serie - Parte V - "Se a perfeição matasse, morria hoje..." - Continuação

Ontem a ausência de força mental, física e espiritual não me permitiu acrescentar mais linhas a um dia que marcará a minha incauta memória para os milénios que nunca terei. Sei que sou refém das minhas próprias palavras, mas queria retocar a questão da organização das actividades por parte dos nossos amigos turcos. Parece que tinham guardado tudo para ontem, foi um dia interminável, em todos os seus gigantescos sentidos.

Abrimos a manhã em Adana onde participamos num Workshop de Olaria Tradicional, momento único para descontrair e perceber o jeito que não temos para esta arte, mas foi irracionalmente divertido. Numa busca por aquela especie de gruta onde está instalada a loja dou de cara com réplicas das tabuletas da antiga civização suméria superiormente detalhadas. Para perceberem a importância destes itens históricos, boa parte das histórias do fim do mundo das últimas décadas e das próximas que se seguem tem a sua base nos antigos cultos sumérios que falavam de seres celestes que emergiam da luz para orientar o ser humano pelos caminhos da iluminação. Depois de ter estudado o assunto, é desafiante poder reorganizar as nossas aprendizagens no terreno, no concreto.
Seguimos para Nevshir, o coração da mítica Capadócia, a região das lendas, dos rochedos humanos, de mistérios que até hoje não entedemos. Após o almoço fomos recebidos no Centro Juvenil de Nevshir e presenteados com música tradicional turca ao vivo. Dançamos, fingimos que cantamos, agigantámo-nos com o sempre complementar chá. E muitas fotos após trocamos presentes. Seguiu-se uma recepção por parte do Secretário Regional da Educação e Juventude. Entretanto avançamos para o coração da Capadócia, o que me povoava a mente desde que aqui cheguei.
O autocarro começou por subir por entre ruas estreitas, cada vez mais devagar até que... uma enorme estrutura rochosa amarelada povoada por neve se ergue imponente por entre a paisagem. Saimos do autocarro deixamos o queixo fazer a vénia de expressão e espanto perante aquela magnitude.... esperem... dou a volta e aquilo não acaba... dezenas de kilómetros de construção esculpida dentro da própria rocha, num interminável desfiladeiro de formas que nunca tinha visto, abençoadas pela Natureza e adornadas por um Homem que ainda compreendia a Natureza e o seu equilíbrio. A partir daí a tarde foi uma interminável viagem ao início da humanidade, das antigas construções com mais de cinco mil anos à visita de um simpático camelo. São kilómetros de túneis, entradas em todos os recantos, como se este maciço rochoso fosse um enorme corpo vivo e os humanos que aqui habitaram o seu sangue.
Parto em piloto automático... paramos numa antiga Casa Otomana para tomar chá.... e segue-se mais um dia de competição, desta vez organizada pelos romenos e... novamente... em três jogos, os portugueses venceram dois... por favor alguma competição. Sei que estou a ser sobranceiro, mas é só para acrescentar texto. Nesta altura para todo o grupo já nem se importa de quem ganha.
Eis que quando pensava que nada mais me poderia deslocar da realidade, o jantar de 3h30m (começou as 20h locais e terminou as 23h30) deslocou o único vínculo que ainda tinha no espaço terreno. Entre práticos típicos assistimos a um espectáculo de dança tradicional turca que revivia as suas antigas lendas, histórias e heróis. Os momentos acrobáticos, o ambiente harmonioso, a companhia, a interacção, o esplendor de não ter que pensar para derreter cada miligrama da aura que esquecemos durante a semana banal do nosso dia-a-dia, o clima de cumplicidade de pessoas que comunicam pela forma como se olham, deixaram que não consiga encontrar semântica para acabar esta parte... foi de perder o fôlego (fotos no artigo anterior).



Dia 6, hora de Sky, espero sobreviver para contar como foi.... obrigado à Fada dos Dentes por esta pausa nas dores....

2.04.2011

Diários de Kayseri, 2ª Serie - Parte V - "Se a perfeição matasse, morria hoje..."

Palavras hoje não conseguem descrever a grandeza deste dia, estou muito cansado e preciso de cama, o que é um óptimo sinal ficam as imagens e a reflexão fica para amanhã se houver tempo... a perfeição não existe, mas este dia está longe de existir... foi um privilégio vivê-lo...









2.03.2011

Diários de Kayseri, 2ª Serie - Parte IV - "Dores de Anjo da Guarda"

Passaram quatro dias mas parece uma longa temporada. Por um lado é óptimo porque somos capazes de ver todo o tempo a passar, perceber cada minuto e reavivar a memória com o que temos por cá e o que deixamos por lá. Por outro lado revela um lado menos positivo... sem querer ser propriamente impertinente, já participei e realizei dezenas de campos internacionais, inclusive aqui na Turquia... mas a falta de organização e ideias nesta actividade é inesperada e no mínimo faz-me pensar se sou eu que estou mal habituado. Não me interpretem mal, porque estou a viver intensamente cada momento, mas pelo grupo que aqui está, que é excelente, dos organizadores salvasse a simpatia e facto de serem atencisosos. Fico a imaginar o potencial deste campo internacional com os organizadores certos, porque o grupo tem muito para dar. Para exemplificar, todas as noites são livres para fazermos o que quisermos depois do Jantar, que é às 18 horas locais. Não me queixo, porque me deixa tempo para delirar o que me apetecer, mas não deixa de ser uma oportunidade desperdiçada. Repito, provavelmente sou eu que estou mal acostumado.

Fora este tipo de comentários, a minha dor de dentes virou obsesso, uma estreia no meu rol de sintomas ligados a problemas dentários, espero que melhore amanhã.

Segundo dia de competição e mais uma vez Portugal a dominar, sem qualquer tipo de exageros. Hoje fomos nós a organizar. Começamos com uma dinâmica de quebra-gelo com o suporte de balões, seguiu-se um jogo em que revivemos o tempo dos Descobrimentos e acabamos com uma Workshop de Kendo. Mais do que se terem divertido, todos foram capazes de perceber até onde conseguem funcionar como equipa. O resto do dia foi passado em visitas temáticas desenquadradas da dinâmica que nos trouxe cá (desde a visita à companhia de águas, passando por alguns momentos de espera despropositados).

Mas as dores que me têm acompanhado trazem de volta a humildade que por vezes o ser humano despreza, sentimento do qual não passo ao lado. Este sentimento torna-nos mais introspectivos e perspectiva o quão fraco somos em todos os sentidos. Nestes momentos volto ao meu anjo da guarda, que me acompanha desde sempre, e sob a forma de oração pagã conversamos sobre os darmas (prémios) e karmas (punições) que me têm sido destinados e percebo o que vou adiando, a sorte e o azar que tenho e as loucuras labirinticas em que alucino. Nos últimos anos assumi uma postura de "máximos", traduzindo, se puder ter o "Mundo" não me vou ficar pelo meu refúgio, embora a liberdade dos outros seja sempre um elemento transcendental desta equação. Hoje, inflamado pelas conversas com o meu anjo da guarda sobre as brasas desta dor de dentes introspectiva, talvez perceba que nem sempre percebemos o que é ter o "Mundo", porque na prática nunca o temos, só lutamos por ele, com ele e nele o melhor que podemos e sabemos com o tempo que temos... venha o dia 5... e que a Fada dos Dentes me livre destas dores por muito úteis que sejam...