12.24.2019

Aceitar-mos a nossa natureza benigna... - Diários de Ethérnia - Parte VIII




Hoje volto à viagem de que nunca saí, mas antes aproveitei para visitar a minha irmã antes de partir.

A minha irmã migrou para a região de Bahar onde vive em família com o seu esposo. É uma Aprendiz Profateri, que um dia desempenhará as mesmas responsabilidades que a minha mãe no nosso ou noutro Clã.

Tiramos a noite para, à volta da fogueira, recordamos as velhas histórias e lições que nos uniam, as aventuras que havíamos passado com os nossos antigos Mestres e as memória mais importantes do nosso estado mais efémero, a nossa infância comum. Uma velha lição em particular sobressaiu nessa noite, a aceitação da nossa natureza benigna.

A minha irmã recordava-me:
"Aceitar a nossa verdadeira natureza é dos desafios mais difíceis. Ninguém gosta de perceber que tem medo, de que ainda não está preparado ou que existem pessoas e neblinas que nos paralisam. 

Somos vencidos vezes sem conta pela nossa própria cobardia, vaidade e cegueira emocional. Existem dias em que o abismo é só isso, o abismo. Não há mais nada, a não ser o negro que nos rodeia. 

Sair da imensidão do negro parece tão impossível que nos esquecemos da nossa outra verdadeira natureza, a nossa natureza benigna.

Somos o confronto permanente entre o bem e o mal, entre o vício e a virtude, entre a luz e a escuridão. O guerreiro capaz de aceitar a sua natureza negra é o mesmo que voltará à sua natureza benigna. Aceitá-la significa abraçar o sofrimento no colo de quem nos ama, voltar ao treino da virtude, calcular o essencial que nos faz levantar todos os dias.

Como eu e tu aprendemos, podemos não escapar para sempre ao nosso lado negro, mas é uma escolha nossa viajar sozinho no seio da sua escuridão. Em dias de noite escolho viajar com os guerreiros que conhecem a luz do dia seguinte."


12.16.2019

Vejo através dos olhos do meu pai e da minha mãe... - Diários de Ethérnia - Parte VII


Tinha partido numa viagem impossível rumo ao cume dos Pilares de Gaia, a montanha que ninguém ousa escalar. Chegado ao seu topo foi um momento de paragem. Sentem-me em posição de Lotus, fechei os olhos, senti os elementos a ligarem-me à montanha e deixei-me ir no meu próprio silêncio. Naquele momento parti para junto dos coração da minha mãe e do meu pai. Nesse momento reli em pensamento o legado que o meu pai e minha mãe me haviam proporcionado.

O meu pai é um velho sábio que se rege pelos ensinamentos da Velha Ordem do Livro dos Elementos. A Velha Ordem foi o primeiro grupo de Mestres que redigiu a sangue o primeiro original do Livro dos Elementos e que deu origem, segundo as antigas lendas, ao início da Nova Era.

É um filósofo e líder de Clã. As pessoas recorrem a ele em busca de aconselhamento espiritual e de mediação para os pequenos desacatos do dia a dia que ocorrem na nossa comunidade. A minha mãe é uma Líder Profateri. As Líderes Profateri são as matriarcas do Clã que têm a responsabilidade de educar as crianças até às suas dez épocas anuais. 

Em pequeno fui educado no meio de centenas de outras crianças como eu, não só pelas responsabilidades que a minha mãe desempenhava mas porque fui ensinado pelos meus progenitores que a vida é feita na construção de laços entre os que nos são semelhantes, numa partilha permanente de saberes e liberdades. O meu pai dizia sempre “Não peças aquilo que não estás disposto a dar…”.

A minha mãe, por outro lado, ensinou-me a seguir o coração, a não ter medo de arriscar, a quebrar as regras sempre que estas eram absurdas, a ir além do que eu achava ser capaz, deu azo à minha loucura quando decidi que queria ser um Mestre Cavaleiro, profetizou-me que tinha de estar disposto a renunciar à minha liberdade quando o mundo assim o exigisse. 

No meu tempo, como acho que assim o foi no tempo de todos, a nossa família determina as linhas do nosso tempo, ajuda-nos a perceber qual é o nosso legado e dá-nos o conforto do refúgio eterno, mesmo depois do seu tempo ter passado.

Mizegui Takasugui, meu velho amigo de aventuras inimagináveis, disse-me um dia sobre a sua família já ausente no tempo dos vivos:

- Nunca estou sozinho, sempre que sonho o meu pai e a minha mãe não me deixam que eu me perca na minha tormenta. Sempre que estou acordado é só olhar o horizonte, os seus olhos continuam a ver através dos meus…

12.15.2019

Quando escalas a montanha que "era" impossível - Diários de Ethérnia - Parte VI



Era o meu último dia em Islam, Ethérnia. Hoje era dia de tentar o que nunca tinha feito, mergulhar na minha própria loucura e subir a Colina dos Pilares de Gaia, a montanha impossível de escalar devido às suas paredes lisas. Este é um dos treinos impossíveis que todos os Mestres dão aos seus Aprendizes no sentido de testar a sua resiliência e compromisso, mas mais do que isso a sua intuição e capacidade de superação. Todos são convidados a escalá-la até ao momento em que aprendem que se devem retirar.

Numa longa noite, à algumas épocas anuais atrás à volta da fogueira, eu e alguns Mestres partilhávamos histórias. Mestre Chitra, velho amigo, contava-me a grande lição que havia aprendido a atentar escalar os  Pilares de Gaia:
"- Para mereceres aprender os desafios e os mistérios do que é ser um Cavaleiro do Poder tens antes de tudo aprender a o que significa a retirada. Existem desafios inúteis, que em tempo algum serão superados. No nosso intimo temos de descobrir quais as montanhas que realmente merecem ser escaladas. Perante as que não conseguimos escalar devemos ter a sabedoria de nos retirar-mos, retemperar-mos forças e avançar-mos para o desafio seguinte porque o nosso tempo não para." 
 
Eu sabia que esta lição fazia todo o sentido até ao dia que deixava de fazer. Com o tempo melhorei a minha técnica, reaprendi e as minhas capacidades de orientação e amplifiquei o meu domínio dos elementos. Há um dia em que escolhemos a retirada, mas há dias em que sabemos que temos de voltar onde impossível deixará de o ser.

Subir os Pilares de Gaia tinha, no entanto, um preço. Subir a montanha não significava só superar-me. Entre os Mestres da Ordem dos Cavaleiros do Poder, subir os Pilares de Gaia significa que o seu Caminho da Redenção reiniciasse e que tudo o que é supérfluo fica para trás. Significa que escolhemos um novo início com aqueles que estiverem dispostos a caminhar connosco, deixando para trás o e quem, livremente, escolhe ficar ou simplesmente não sente a necessidade de continuar a "escalar". Estar disposto a pagar esse preço pode significar ficar sem o colo ou o abraço que nos acolhe, ficar sem os ouvidos que estão dispostos a escutar-nos, ficar sem o lar que sempre foi o nosso. Porquê por tudo em causa? Esta é uma pergunta que um vos reponderei, mas não hoje. 

E assim foi, comecei a escalada.

Ao contrário do que possam esperar a subida não épica, foi natural. Tudo o que aprendi e superei fez-me perceber que a montanha impossível era só o ponto de horizonte de que não podia fugir. A partir daqui só sobravam a perguntas mais difíceis:
- Quem ainda tinha comigo? Que lar iria encontrar? Que braços me iriam acolher? Estaria eu em silêncio ou solidão?
Mas como nos lembra o Livro dos Elementos: "Quando escolhemos escalar a montanha que falta seremos sempre causa e consequência da forma e do destino que escolhemos superar."
O prazo da verdade era curto e começava a contar, mas esse já não estava nas minhas mãos. Brevemente tinha uma montanha ainda maior para superar.

12.11.2019

O absurdo da ideia de Controlo e Propriedade e o Tempo de todos - Diários de Ethérnia - Parte V


Depois de Islam dirigimo-nos até Beora, uma das grandes cidades sagradas do Sul de Ethérnia, por onde se dizia passarem as almas dos mortos antes de se alinharem no firmamento.

Naqueles dias fiz-me sempre acompanhar por Bender Marius, mas hoje juntaram-se a nós Milnar, Lucy e Neptia, aprendizes aspirantes à ordem dos Cavaleiro do Poder. 

Iamos todos ao mesmo, ao Templo de Akmedior, também denominado de Templo dos Mestres Aprendizes, onde todos os anos se reuniam dezenas de Mestres e Aprendizes de quase todos os territórios de Ethérnia para ouvirem os maiores Mestres da Velha Era sobre as grandes aprendizagens que haviam vivido. Este ano era a minha querida amiga e Mestre, Caelum.

Sentamo-nos discretamente entre a numerosa plateia. A exposição de Caelum seria sobre os conceitos de Controlo e Propriedade. As suas palavras nunca mais me saíram da cabeça. São ideias que se tornaram em dogmas de fé, em vínculos com o meu ideal de Mestre Aprendiz, em convicções profundas das quais nunca abdicarei. Mas entre concordar e cumprir a distância pode ser irracional.

Eis as palavras de Caelum:
"Os humanos acreditam que controlam a Natureza, as variáveis do seu dia a dia, a lógica do futuro que têm pela frente. Acreditam que são donos do que conquistaram, do que compraram com o suor do seu trabalho. Nada mais errado.

A construção do Cosmos é uma construção de todos, todos somos o resultado das interações que temos, do sacrifício que dedicamos ao tempo do outro, dos vínculos afetivos que deixamos que se transformem em Magia e Amor.

Não somos propriedade de ninguém, não possuímos nada nem ninguém, somos parte de uma matemática cósmica de bons e maus momentos em que todos nos interligamos nas causas e consequências.

Fomos realmente felizes quando descobrimos o Amor e a Magia no dia em que de forma desinteressada e natural demos lugar ao outro para também ele ser feliz num desafio comum. Na verdade tudo o que existe é o Tempo e o que fazemos com ele. 

Já tentaram possuir ou controlar o Tempo? Se sim, rapidamente perceberam que é uma impossibilidade. Não somos donos do tempo, não controlamos o que quer que seja. Não peço que concordem comigo, mas deixo-vos aqui algo em que todos nos revermos: 

- Sou o melhor de mim na viagem que fiz com cada um dos de vós. Fui o melhor de mim no dia em que o desafio de subir a próxima não foi meu, foi nosso. Fui e serei livre no dia em que dou o melhor de mim ao Tempo de todos com o Tempo que ambos tínhamos. No dia em que abdicas do controlo que nunca tiveste descobres o Amor e Magia que sempre procuraste."

12.08.2019

O Círculo da Inutilidade - Diários de Ethérnia - Parte 4


Era o meu quarto dia em Ethérnia, em Islam. Eu e Bender Marius decidimos ir visitar Fatih Vishnu, uma poderosa Óraculo que me havia recebido por aquelas terra ainda na adolescência do meu treino.

Fatih ficou muito feliz ao rever-nos. Tinha à nossa espera uma eloquente repasto e canetas cheia de hidromel, a bebida sagrada dos momentos de comunhão e celebração entre Mestre Aprendizes.

A conversa evolui para o motivo que nos levava a estar ali durante aqueles dias. Partilhei com Fatih a minhas dúvidas de fé e o resultado da prova do Labirinto do Meso Cosmos Simbólico. Não tinha perdido nem as minhas convicções nem compromisso mas estava cansado, ferido e com vontade de voltar a uma nova viagem, a um novo caminho da redenção. Fatih interpelou-me:
- Sentes que não tens ninguém contigo?
- Nem por isso Fatih. Sinto as pessoas, presenças, amigos e seres do acaso comigo, só que na realidade, nunca ninguém veio ter comigo. - Ripostei.
- Percebo o que me dizes. Vou-te contar a lenda do Círculo da Inutilidade que um dia o meu Mestre me ensinou:

" Um dia um Sábio Mestre, cansado da Simbologia dos dias, da eterna partilha do que cada  um pode ser e da inutilidade do seu círculo de proximidade decidiu abandonar os seus afazeres e procurar nova montanha para repousar a alma. Uma vez por outra lá voltava a casa para garantir que os seus continuavam caminho. Os seus mais próximos não percebiam e comentavam entre si o que se havia passado, que mágoa tão grande teria posto em causa o seu compromisso com a sua missão. Um instigavam os outros sobre o que poderiam fazer, outros treinavam pequenas tentativas de um contacto mais próximo. O tempo passou e num dia o Sábio Mestre partiu de vez. Todos ficaram chocados e criticavam o seu egoísmo e falta de palavra. O círculo que girava à volta do Sábio Mestre quebrava de vez.
Passados algumas épocas anuais o Sábio Mestre voltou para visitar os seus velhos amigos. Muitos lhes viraram as costas magoados com a sua atitude de um passado ainda muito presente.
Entre os alguns que lhe dirigiram a palavra, um dos seus antigos aprendizes perguntou-lhe:
- Sábio Mestre porque partiste e deixaste o círculo que ajudaste a erguer? Não terás sido injusto?
- Velho amigo, nunca parti nem deixei o círculo. O que aconteceu é que  no dia em que vos confiei a responsabilidade de partilharmos o mesmo círculo nunca mais me convidaram a entrar. Sem respostas parti para quem me voltasse a acolher de novo..."

12.07.2019

O Labirinto do Meso Cosmos Simbólico - Diários de Ethérnia - Parte 3


Era o meu terceiro dia de volta a Ethérnia.

Era o dia da Prova do Labirinto do Meso Cosmos. Eu e Bender Marius, velho companheiro de caminho, deslocamo-nos para as margens do Mormom com Mestre Ant Elael.

Sentamo-nos virados para a Lua Cheia em posição de Lotus enquanto Ant Elael evocava antigos dialetos que nos colocaram em transe.

Perdi os sentidos e viajei para um universo turvo de cores obscurecidas. A primeira visão que tive foi o colo da minha mãe. Percebi que tinha entrado no meu Cosmos Biológico, mais precisamente no meu Microcosmos da Segurança. Sem tempo para pensar viajei para uma velha refeição em família durante a minha infância e dei por mim a cortar o cabelo no velho Barbeiro da minha aldeia nativa. Tinha acabado de passar pelo meu Microcosmos da Energia e das Fontes e pelo meu Microcosmos do Desperdício.

Voltei a desligar novamente e voltei a acordar dentro de uma bolha de ar com uma série de outras bolhas gigantes cheias de memórias em que nunca aparecia, mas percebia que eram os meus olhos o comando da visão que me perseguia. Vi o meu primeiro grupo de aprendizes ainda crianças e as primeiras provas de aptidão que haviam feito, vi o dia em que abracei o meu velho amigo Mizegui na Lagoa das Visões e reconheci uma velha Mestra Aprendiz que havia abandonado, Blua,  a partir de uma enorme discussão que me fez conhecer pela primeira vez o meu verdadeiro abismo. Estava perante o meu Cosmos da Psique e pelos seus três estágios, o Microcosmos do Conhecimento, o Microcosmos da Intuição e o Microcosmos do Instinto respetivamente.

De repente fui engolida pela bolha que me protegia e de um sentimento de aflição emergi de um mar negro até a uma praia de enormes pedras. Aprecei-me a sair da água até que fui projetado por um som ensurdecedor nas minhas costas. Virei-me e no imediato e vi projetada nas águas negras de um mar sem nome o dia em que havia escolhido ser Cavaleiro do Poder. A água entrou em remoinho fazendo emergir uma nova imagem, desta vez o dia em que me separei do meu primeiro grupo de aprendizes. Novamente o mesmo remoinho fez emergir mais uma imagem, um dia de treino com a minha Mestra Edvania, onde éramos 5 aprendizes a ler velhos escritos do Livro dos Elementos. 

Tinha entrado no meu Cosmos Social e respetivamento no meu Microcosmos da Decisão, o meu Microcosmos das Relações e o Microcosmos dos Papéis.

De repente o remoinho de água deu origem a uma torrente que se transformou numa enorme onda que acabou por me engolir. De repente estava novamente nas margens do Mormon com Ant Elael ao meu lado. Sentia-me de coração apertado, não tinha chegado a conclusão nenhuma. O anseio de perceber para onde estava a canalizar a minha Magia tinha-se desvanecido. Elael questionou-me:
- O que viste... o que sentiste na tua viagem no Labirinto?
- Vi parte do meu caminho.... vi a minha teimosia, a minha persistência e a minha resiliência perdidas no tempo de outros que já não estão no meu caminho. Mas não consegui perceber para onde estava a  canalizar a minha Magia?
- Não te preocupes amigo, saber que sabes distinguir a tua teimosia da tua persistência e ambas da tua resiliência faz-me perceber que a tua fé não te abandonou. Hoje ficaste a perceber que a tua fé está na tua resiliência e que a tua magia continua a ser a tua fé nos outros. Volta que o teu caminho te voltará a encontrar...
Estas palavras ficariam comigo para sempre.

12.06.2019

O Cosmos Espiritual e o Meso Cosmos Simbólico - Diários de Ethérnia - Parte 2



De volta a Ethérnia relembro o que havia lido há muito tempo no Livro dos Elementos acerca do Cosmos. Ele retrata que "o Cosmos é um fluxo condenado e ordenado pelos elementos. Aos quatro elementos base juntam-se os fluxos energéticos de todos os outros elementos que se fundem em matéria e dão origem ao Cosmos visível e corpóreo. Mas mais importante que os elementos e a semente das suas interações é a arena onde ganham forma e potenciam a sua existência astral, a esta arena damos o nome de Tempo". Mais à frente ele difere dois Cosmos dispares, o Cosmos Tangível, o que acabo de descrever e o Cosmos Simbólico, o que habita em cada um de nós, mais conhecido por Meso Cosmos Simbólico.

Relembrei esta velha lição porque era dia de me reencontrar com Bender Marius, velho amigo ainda da Velha Era, dos poucos que se lembrava do inicio. Juntos iríamos viajar por um do mais complicados exercícios de Simbologia que conhecíamos, o Labirinto do Meso Cosmos. Basicamente o o nosso Meso Cosmos divide-se em 3 Cosmos distintos que se tocam entre si:o Cosmos Biológico, o Cosmos da Psique e o Cosmos Social. 

Cada um destes Cosmos divide-se em 3 microcosmos, dando origem a 9 microcosmos que se podem ou não tocar entre si, embora estejam todos interligados: o Cosmos Biológico é composto pelo Microcosmos da Segurança, pelo Microcosmos da Energia e das Fontes e ao Microcosmos dos Desperdícios; o Cosmos da Psique é composto pelo Microcosmos do Conhecimento (da razão), pelo Microcosmos da Intuição e pelo Microcosmos do Instinto (Primal); e o Cosmos Social é composto pelo Microcosmos das Relações, pelo Microcosmos das Decisões e pelo Microcosmos dos Papeis.
Da interação entre este 3 Cosmos evolui o nosso Cosmos Espiritual, o que responde à razão que nos levou a ser Mestre da Ordem dos Cavaleiros do Poder.

Não tínhamos dúvidas da missão que tínhamos abraçado de todos os dias ajudarmos o desconhecido do acaso a subir a sua próxima montanha. Mas precisávamos de perceber em que geografia moravam agora as nossa emoções, propósitos e mais do que tudo, para onde nos levava o nosso atual Cosmos Espiritual. Por outras palavras para onde estava a ser canalizada a nossa Magia, a nossa Essência.

Para realizar o exercício voltamos a Islam, para o Templo das Lágrimas de Sangue. Para nos orientar estaria Mestre Ant Elael. 

O reencontro como sempre foi caloroso. Rapidamente mostramos ao que íamos. Ant Elael já o sabia. Convidou-nos para meditar nas margens do Rio Mormon para iniciarmos a jornada espiritual mas antes lançou a pergunta chave:
"- Imagina um mundo sem montanhas, planícies, rios ou mares. Só tu e um imenso vazio desértico que terás de preencher com as tuas melhores emoções, sentimentos e poderes mágicos. Não tens medo de te perderes no teu próprio deserto? Achas que és suficiente para ele?"

A resposta viria na jornada já a seguir...



12.05.2019

O fim da Simbologia e o inicio do Simbolismo - Diários de Ethérnia


Em tempos ensinaram-me o poder que o meu Anjo Negro (o meu Némesis) consegue ter. Aprendi que o Némesis podia habitar dentro e fora da essência da minha alma, como um sopro perdido que vai aumentando de intensidade quando perdemos o rumo. 

Por estes dias escolhi abandonar os meus deveres de Mestre e os poderes que a Simbologia me havia dado. 

A bênção que é servir os outros torna-se por vezes numa prisão da qual tentamos escapar só para voltarmos a perceber o tempo que nos rodeia. O mesmo tempo que nos parece dar caminho, atraiçoa-nos e faz-nos perceber o quão finitos somos. 

Volto a terras de Ethérnia para voltar à simplicidade do Simbolismo dos meus dias, deixando para trás a Simbologia das relações, do presente e do passado. 

Às vezes para reparar a alma damos por nós a voltar ao instinto primário pelo qual no início éramos guiados, na esperança que a nossa intuição volte a fazer sentido. 

Há dias em que não acreditamos na magia, na serenidade e na esperança. Nesses dias deixamos que o Universo do que somos e ajudamos a criar fale por si. Com alguma sorte alguma montanha se revelará e se o que construíste for real, uma nova oportunidade reaparecerá…

8.15.2019

Diários de Tempus 5 – As 3 casas do coração de um Cavaleiro



Antes de regressar a casa faltava algo muito importante. Visitar a Necrópole dos Antigos de Tempus, onde estavam enterrados todos os grandes Mestres, importantes Cavaleiros e antigos Oráculos que escolheram ser sepultados em Tempus. 

Tempus não tinha população nativa devido às suas propriedades mágicas, por isso só podia ser enterrado no arquipélago quem nele tinha encontrado a sua casa simbólica, o espaço onde, sempre que necessário, quem ali jazia havia procurado a sua inspiração ou reencontrar-se com a sua energia vital. 

Ao contrário das grandes figuras que ia honrar a minha casa simbólica ficava noutras paragens, mais precisamente na ilha de Milénia Centrum, na Lagoa das Visões, também denominada como Lagoa do Fogo. 

Para melhor perceberem o que é a casa simbólica importa recordar uma das lições mais importantes do Livro dos Elementos acerca das Casas do Coração de um Cavaleiro. O livro retrata o seguinte: 

“O coração de um Cavaleiro procura sempre a intensidade certa para o contexto com que se depara. Quando percebe que começa a esgotar as suas reservas, ele naturalmente procurará uma de três casas: a casa simbólica, a casa desafio e a casa refúgio. 

Cada uma delas corresponde a um ponto de recarregamento das várias energias de vida de que somos feitos. 

A casa simbólica é o leito que o Cavaleiro procura para buscar a inspiração, recarregar a intuição e reorganizar a energia vital. É um espaço de silêncio, de partilha da sua magia interior e de compromisso com o nosso legado. 

A casa desafio é o leito em que o Cavaleiro procura a coragem, a autoliderança e a disciplina, o treino para elevar o Cavaleiro do amanhã. É a casa que partilha com o seu Mestre, é o pousio da sua alma de guerreiro. 

A casa refúgio de um Cavaleiro é o leito onde procura o colo, o conforto, sarar as feridas e reencontrar os companheiros de caminho. É a casa que partilhamos com os que são mais próximos no ontem, hoje e amanhã.” 

Fui até à Necrópole com Bottelli. Chegados ao local ajoelhamo-nos em veneração e meditação aos vultos de outrora e ao seu legado. Depois de mais de meia manhã de recolhimento perante os gigantes do passado, agradeci a Bottelli estes dias e voltei para o meu campo de combate, Ethérnia.

8.14.2019

Diários de Tempus 4 – A verdade sobre a Compatibilidade e a Alquimia




Quarto dia em Tempus. Hoje era o dia do verdadeiro desafio. Bottelli levou-me até ao ilhéu de Madelen para poder finalmente protagonizar a Cura dos 5 Sentidos. 

Como já vos contei no episódio anterior, no centro de Madelen existe uma majestosa cripta que serve de teto ao denominado “Epicentro da Alquimia do Tempo”. É onde se concentra toda a energia vital das ilhas de Tempus, que permite de forma mágica que neste local o tempo cronológico pare. No centro da cripta existe um pequeno lago de águas cor de jade onde somos convidados a mergulhar e permanecer. A este momento chamamos de “Desrregularum”, a hora em que somos invadidos por nós próprios para nos voltarmos a libertar. 

Ao contrário de muito dos meus amigos Mestres eu não tinha um plano, uma sentença de que quisesse fugir ou uma ferida em particular que quisesse sarar. Apenas pretendia reencontrar-me com a minha essência, fosse em que direção fosse. 

Antes de entrar nas águas da cripta sagrada reza a tradição que devemos levar um amigo que nos abençoe e esteja à nossa espera quando voltarmos. Bottelli pegou nas minhas mãos, abençoou-me e nessa altura deixei-me mergulhar nas águas cor de jade. 

Ao entrar perdi de imediato os sentidos e do nada dei por mim de volta a Milénia Centrum, Ilha e Terra Mãe da minha casa simbólica, a Lagoa das Visões, também conhecida pelos locais como Lagoa do Fogo. 

Vi-me a caminhar sobre as suas águas e comigo estavam quatro personagens que me começaram a rodear. Eram os meus velhos Mestres e amigos Mestra Karin e Mestre Mizegui e as minhas duas aprendizas Leo e Milnar. 

Tentei virar-me na direção de Mizegui mas a minha boca não reproduzia qualquer som e com o passar do tempo o meu corpo começou a paralisar. Sem que me pudesse mexer os quatros pareciam estrategicamente colocados à minha volta em forma de cruz. Cada um chamava-me na sua direção, mas eu era incapaz de me mexer, estava paralisado sem poder de decisão. Não me lembro do que me aconteceu a seguir mas de repente acordei do meu transe e sai das águas de forma abrupta e em aflição. 

Bottelli socorreu-me e ajudou-me a acalmar. Contei-lhe o que tinha visto e que não percebia o significado. Era hora de procurar o Oráculo de Madelen. Era ele que tinha o poder de interpretar as visões que de alguma forma não conseguíamos completar ou perceber durante a Cura dos 5 Sentidos. 

Perante o Oráculo contei-lhe a minha visão. As palavras do mesmo nunca mais se sairiam da mente: 

- As quatro personagens que apareceram na tua visão representam, por um lado, tu Mestre, por isso a visão de Leo e Milnar. Por outro lado representam tu Aprendiz, por isso a visão de Karin e Mizegui. Ao mesmo tempo que te viste Mestre e Aprendiz viste-te confrontado onde devias procurar primeiro a tua essência, na compatibilidade ou na alquimia. Entre Leo e Milnar, uma significa a compatibilidade, a outra a alquimia. Entre Mizegui e Karin acontece o mesmo. A pergunta que agora se coloca é se encontras a tua essência com as pessoas com quem és compatível ou com aquelas com que revelas uma alquimia natural? Independentemente da viagem que fizeres a partir daqui, lembra-te que na jornada e no caminho existe espaço para a compatibilidade e para a alquimia. Aliás só uma permite ler e perceber a outra. 

Depois destas palavras percebi que o meu coração estava no sítio, cansado mas no sítio. Era hora de voltar a casa.

8.13.2019

Diários de Tempus 3 – As três formas de alguém estar na nossa vida


Era o meu terceiro dia em Tempus. Mas como o tempo em Tempus não passa, era como se ainda estivesse no primeiro dia. 

Hoje, eu e Bottelli fomos até Terras de Castelsardo, cidade muito antiga onde habitava Mestre Pietro, um velho sábio procurado por quase todos os Mestres da Ordem dos Cavaleiros do Poder para treinar a arte de ler os sentimentos e intenções do outro. Dominar este conhecimento é essencial para todos os Mestre de modo a anteciparem as situações de caos com que se podem deparar. 

À entrada da cidade havia um entreposto de controlo de entradas e saídas. Castelsardo era um território sagrado. Só podia entrar quem revelasse razões fundamentadas. Deixamos claro ao que vínhamos e deixaram-nos passar. 

Mestre Pietro habitava no cimo da colina onde se erguia a Fortaleza Mãe de Castelsardo. O Senhor das Terras de Castelsardo dava guarita a Pietro por este ser o seu mais leal conselheiro. 

Bottelli e Pietro eram grandes amigos. Fomos recebidos de forma graciosa e bem-disposta. Pietro levou-nos até uma das torres da Fortaleza onde nos podemos sentar e contemplar o imenso Mar da Tranquilidade. 

Pietro sabia ao que vínhamos mas a sua postura corporal revelava passividade, descontentamento e alguma passividade. Um momento que era suposto ser sobre nós inverteu-se. Bottelli questionou-o: 

- O que te perturba velho amigo? 

- Ao fim de tantos anos a ensinar os outros, a sentir as suas emoções e ilusões, a dar respostas para os seus desafios, olho para trás e pergunto-me quem ficou comigo? A quem é que bato à porta quando já não souber onde chorar? Onde deitarei o meu rosto quando precisar de colo? ... 

Ambos ficamos desterrados. Também nós já havíamos sido testados pela solidão do amor e afetividade. E de todas as vezes que aconteceu saímos sempre com poucas respostas. Nesta altura lembrei-me de um importante ensinamento que Mestra Edvania me deu em tempos e que partilhei, naquele momento, com os meus companheiros de caminho: 

- Mestre Edvania um dia ensinou-me que as pessoas surgem na nossa vida de três formas: por uma época, por uma razão, para a vida inteira. Alguns passam por nós numa determinada época. Cruzamo-nos pelas responsabilidades que temos em comum, pelo facto de morarmos lado a lado e por um infindável número de razões. Chegam, cumprem a sua estadia e vão. Outros surgem por uma razão. Normalmente são os nossos mentores, mestres ou desafiadores que estão lá para nos ensinar, treinar e fazer avançar para a próxima etapa. Por fim temos os companheiros e companheiras de caminho que estão lá para a vida. Mesmo quando não os merecemos. Nestas alturas, sem ter as respostas, pergunto-me sempre: Quem são aqueles que durante o caminho estiveram sempre lá?

8.12.2019

Diários de Tempus 2 – “Deixar cair a pedra…”




Hoje era o dia de ir visitar o Vale da Lua para me ir encontrar com o meu velho amigo, Mestre Bottelli. 

Para chegar ao Vale da Lua o caminho não é fácil. Temos de atravessar a Cordilheira do Monte Limbara. Numa primeira fase subimos a pique para depois descemos de forma vertiginosa. Os avistamentos são deslumbrantes. Do topo do Limbara conseguimos ver todo o Vale da Lua que termina junto ao Mar da Tranquilidade, como se de um rio de majestosas rochas se tratasse. 

O Vale da Lua é conhecido pelos seus imensos maciços rochosos que em frente ao mar erguem-se na forma de animais míticos e figuras lendárias. É um local silencioso onde o vento de forma suave parece sussurrar a nossa presença. 

Numa rocha com uma ampla base lá estava Bottelli com três aprendizes. De forma respeitosa aproximei-me, sorrimos um para o outro, mas não falamos. Sabia que estava em treino. Sentei-me silenciosamente enquanto escutava os seus ensinamentos. 

Bottelli tinha pedido a um dos seus aprendizes que segurasse uma pedra com o braço estendido. Nesse momento ele questionou-o: 

- Se ficares de braço estendido durante uma hora o que acontecerá? 

- O meu braço ficará cansado Mestre. 

- E se pedir para segurares a pedra mais quatro horas? – voltou a questionar Bottelli. 

- O meu braço começará a pesar mais e mais e o desconforto dará lugar à dor. 

- E imagina que te peço que te desafies a não deixar cair a pedra até ao próximo amanhecer. O que te acontecerá? – desafiou Mestre Bottelli. 

- Mestre, o meu braço acabará por ceder. Perderei as forças de tantas dores que sentirei. 

- Escuta bem as palavras que disseste meu bom aprendiz. A forma como abordaste este desafio é o mesmo que muitos seres humanos fazem a si mesmos. Agarram-se a acontecimentos passados, a memórias e sentimentos perdidos que nunca conseguiram resolver e com o tempo deixaram-se corromper, contaminar deixando que a dor os consumisse. Muitos dos desafios que ficaram por resolver nunca mais serão resolvidos. Já foram, já passaram. Importa agora o desafio seguinte que te irá fazer superar e fará emergir o que tens de melhor. Quando já não fizer sentido, deixa cair a pedra e avança. Não tens de vencer todos os desafios. Algumas das maiores vitórias que teremos residirão na nossa capacidade para ultrapassar ou somente passar ao lado do que nos corrompe. 

Ao ouvir estas palavras revi-me nelas. Depois deste momento os aprendizes de Bottelli retiraram-se e eu e ele podemos meditar em conjunto.

8.11.2019

Diários de Tempus I – O Arquipélago onde o tempo não existe - Prólogo




Estava de partida para o arquipélago de Tempus, as ilhas sagradas onde o tempo deixou de ser contado. 

Todos os Mestres viajam para lá à procura de curar as feridas mais sinuosas e difíceis de cicatrizar. Em vida cada Mestre da Ordem dos Cavaleiros do Poder pode viajar até Tempus 5 vezes. A estas 5 oportunidades foi dado nome de a Cura dos 5 sentidos. 

Um Mestre Aprendiz deve usar sabiamente estes cinco momentos. De uma forma resumida, em cada momento que procuramos uma oportunidade na Cura dos 5 sentidos somos levados até ao ilhéu de Madelen. Bem no centro daquela imponente rocha existe uma majestosa cripta que serve de teto ao denominado “Epicentro da Alquimia do Tempo”. É onde se concentra toda a energia vital das ilhas de Tempus, que permite de forma mágica que neste local do universo conhecido que o tempo cronológico pare. No centro da cripta existe um pequeno lago de águas cor de jade onde somos convidados a mergulhar e permanecer. A este momento chamamos de “Desrregularum”, a hora em que somos invadidos por nós próprios para nos voltarmos a libertar. 

Este é o espaço e momento que todos os Mestres procuram em Tempus. Quando recorremos ao “Desrregularum”, sabemos ou achamos que sabemos que ferida procuramos curar, mas a alquimia de Tempus tem a sua própria métrica e forma de nos voltar a equilibrar. A forma com que voltamos nunca é a mesma com que partimos, muito menos se tivermos como ponto de partida a forma com que achávamos que poderíamos voltar. 

No tempo que passamos em Tempus não envelhecemos, a luz e as trevas não avisam a sua chegada e até o momento em que partimos pode ser um mistério. Sabendo em parte o que me esperava, não fiz grandes planos, preparei os mantimentos e parti. Não pensei nas feridas que tinha de curar, nas cicatrizes que queria fazer desaparecer, pensei apenas que esta era mais uma viagem que tinha de fazer….

6.02.2019

Diários do Serengeti – Parte VI – O regresso e o encontro com os elefantes negros…



Hoje imergimos nas planícies de Amboseli para descobrirmos os maiores mamíferos do universo conhecido, os monumentais elefantes negros. Em Amboseli habitavam as maiores manadas. Para além de ser raro avistá-las, os que conseguiam fazê-lo eram considerados “escolhidos para uma tarefa maior” pelas tribos nativas da região. 

Depois de horas de caminho paramos numa enorme floresta palmilhada de palmeiras e lá estavam eles, imponentes e ás dezenas. 

Já me haviam contado histórias deste momento, mas estar no momento… prende-nos o coração, desorienta-nos, faz-nos curvar perante a alquimia de um momento perfeito. Naquele instante não há continuidade, há um estar eterno que te eleva à meditação e te faz só… estar. 

É um daqueles momentos que sabes que não voltarás a ter. Nesse momento não me contive. Alinhei o meu diário simbólico e dei forma a estas palavras que transcrevo: 

“Quando fazemos planos sobre uma grande viagem para treino espiritual e meditativo queremos que tudo seja perfeito. Queremos ver os sítios, conhecer as pessoas, privar com os sábios e mestres de um tempo que não é nosso, meditar nos lugares impossíveis onde nunca esperas refletir e que, em nenhum momento, nada abale o teu silêncio. 

Com a experiência percebes que nunca será assim. A aventura acaba por perder-se nela própria e é o detalhe que não esperavas que te vai deslumbrar e a fissura mais invisível que te vai fazer cair. A realidade da grande jornada é aleatória e rotineira como os banais dias da tua labuta diária. 

Temos de estar atentos aos sinais, aos pequenos, mas sobretudo, condensar, absorver e viver os que sabemos que são os grandes. O encontro com a manada de elefantes negros foi um desses momentos raros. 

São muito poucas as famílias de elefantes negros livres. Ter podido preservar, viver esta bênção, faz-me lembrar o quanto eu lamento ter de voltar já a casa. Saber que não vou conseguir partilhar verdadeiramente a dimensão daquele momento deixa-me ansioso. Como descreveria o privilégio que vivi?.... 

Então prossigo a minha reflexão… 

Quando está para morrer o grande elefante negro volta ao território de origem. Consegue percorrer milhares de quilómetros de volta ao exato sítio onde tudo começou, mantendo vivo o vínculo sagrado às suas raízes, à sua história que permitiu que novas histórias surgissem. 

É assim que vejo este momento. Regresso não para ficar, mas para partilhar, dar, somar e redimensionar antes de partir outra vez. A nossa jornada espiritual só faz sentido na partida e no caminho quando percebemos quando temos e regressar.

5.28.2019

Diários do Serengeti – Parte V – A hora do Kilimanjaro





Sétimo dia. Hoje era a hora do Kilimanjaro. A enorme montanha que dividia o Serengeti dos domínios de Amboseli, conhecida como a Terra Negra. O desafio era passar o lago Naivasha, avistar os seus inquietos hipopótamos e marabus para em seguida arriscarmos a subida até ao cume da Casa do Deus Negro, nome pelo qual era conhecido o Kilimanjaro entre as tribos locais. 

Logo nos primeiros momentos do dia enchemos a canoa de mantimentos e navegamos pelas águas calmas do Naivasha rumo ao nosso objetivo. Na acalmia da viagem fomos presenteados pelo voo rasante dos marabus, tivemos dificuldade em passar despercebidos entre dezenas de hipopótamos e para nossa surpresa, fomos abençoados por um espetáculo único. Bem à nossa frente, um grupo de pelicanos buscavam alimento, num momento de voo picado de enorme elegância e intensidade. 

A viagem continuou. A determinada altura encostamos a canoa e continuamos a pé. Ao fim de quase um dia de caminho e com o por do sol como pano de fundo, lá estava ele, a Casa do Deus Negro, o enorme Kilimanjaro com quase seis mil metros de altitude. 

À nossa frente avistamos um enorme ébano com alguns velhos troncos na sua base a encenar uma espécie de cadeirão dos deuses. Deixamo-nos encostar. 

Foi por ali que montamos a tenda e preparamos a fogueira para a noite. Entretanto Mizegui sugeriu que parássemos para apreciar os últimos momentos de sol. Nessa altura perguntei-lhe: 

- Acreditas mesmo que ali habita o Deus Negro? Os Masai contaram-me que nas alturas de seca é a ele que recorrem para pedir a bênção das monções. Por sua vez, os Hakmed contaram-me histórias que o Deus Negro, sempre que convocado, castiga os humanos pelos seus pecados, pela sua ambição. O que achas destas lendas? 

Mizegui ficou silencioso por uns segundos e respondeu com outra pergunta: 

- E tu meu amigo, em que Deus acreditas? 

Paralisei com aquela pergunta, mas não me detive: 

- Acredito que a beleza, o amor, a esperança e a bondade foram imaginadas por alguém superior às nossas limitações. Não sei que nome lhe dar, só sei que nos encontraremos algures. 

MIzegui pareceu surpreendido com a minha resposta. Sorriu, abraçou-me e em seguida desviou o olhar na direção da grande montanha: 

- Acredito que aquele de que falas está hoje aqui connosco. 

Foi um momento surreal. Na minha vida tive muito poucos momentos de certeza ou de quase ausência de dúvidas. Este era de forma retumbante um deles. Pela primeira vez tinha sentido num só abraço a beleza, o amor, a esperança e a bondade.

Diários do Serengeti – Parte IV – O dia do rinoceronte branco




Era o nosso sexto dia por Terras do Serengeti. Íamos tentar pela terceira vez avistar o majestoso rinoceronte branco. Este gigante não conhece fronteiras e vagueia livremente por todo o Serengeti, tornando por vezes impossível a sua visualização. 

Estávamos nos Vales de Nakuru, bem no coração do Serengeti. Aqui a floresta é muito mais densa, a vegetação mais luxuriante e a dificuldade de fazer caminho muito maior. Após horas de caminho nas margens do Lago Nakuru, lá estavam eles, um grupo de sete rinocerontes brancos. Foi um momento de êxtase mesclado com o sentido do dever cumprido. O desafio de avistar os grandes cinco estava concluído. Depois do búfalo, elefante, leão e leopardo, lá estava o gigante sagrado que faltava, o rinoceronte branco. Para o povo Masai, o rinoceronte branco era o animal que tinha a capacidade para viajar entre o mundo dos espíritos e dos vivos. 

Mantivemos a distância e respeitamos o seu espaço. Sentamo-nos em observação e demo-nos ao dever da contemplação. Nestes dias deixei que os olhos de Mizegui fossem os meus olhos. Fiz uma escolha, perder-me no tempo de outros, na sua visão desorientada, nos labirintos do seu mapa de combate. 

O Serengeti era a casa simbólica do meu amigo Mestre Guardador de Sonhos onde havia aprendido a arte da orientação, a ler os astros pela noite e a prever o comportamento das chuvas, dos ventos e das intempéries. 

Mais do que deixar-me ir, libertei-me de itinerários e permiti que a perceção de Mizegui orientasse a minha loucura. 

Depois daquele dia mágico, como fazíamos todas as noites à volta da fogueira, partilhamos as emoções do dia. Nesta noite Mizegui recordava-me uma das principais lições que havia retido durante o seu treino no Serengeti: 

- No meu treino por aqui foram muitas as vezes que cai na tentação de achar que não havia mais nada para encontrar. Numa manhã quando treinava as artes do Arco e Flecha, partilhei este desabafo com um Mestre Masai. Fui reprimido de forma veemente. Contou-me que aqueles que só conhecem uma casa, que deram como certa uma morada, nunca perceberam realmente o mapa da sua própria existência. São estrangeiros dentro de si próprios. São incapazes de rever o seu próprio destino, corrigir uma rota, sair da sua própria tormenta. Ficaram presos num momento sem conseguirem ver o momento seguinte. 

Como o grande rinoceronte branco, nunca pares de expandir as fronteiras do teu mapa. Para os homens de mente livre as fronteiras só lá estão para nos lembrar que temos de continuar a caminhar.

5.26.2019

Diários do Serengeti – Parte III – Hakuna Matata





Somos o resultado das somas e subtrações do que fazemos, dos alinhamentos mais fortes que conseguimos trilhar, das definições que absorvemos, dos conceitos absurdos que criamos. 

Nesta aventura sempre tive presente que uma destas somas, subtrações e conceitos estranhos poderia emergir sob a forma de desafio tempestuoso, testando o meu silêncio, a minha concórdia interior. 

Era a noite do meu quinto dia. Ainda estávamos em Masai Mara. Enquanto dormia estive ao mesmo tempo acordado. Os sons dos animais pela noite dentro foram acompanhando a minha reflexão nas profundezas da minha alma decrépita. As horas pareciam não passar. Questionava mais uma vez porque era eu a ter a oportunidade de ali estar. 

Os pássaros chamavam pelo nascer do sol, as hienas, bem ao longe, marcavam à distância o seu descanso lembrando que não queriam ser incomodadas. 

Levantei-me, abri a tenda, e por entre a copa das árvores vi o Astro Maior erguer-se. O embalo de uma suave brisa lembrou-me a bênção que estavam a ser estes dias, as pessoas que estava a conhecer, os sorrisos que estava a esboçar, o tempo que voltava a reconquistar. A minha mente viajou para o desperdício de tempo que dedicamos aos territórios desocupados pela alma, lembrou-me a perversão que anunciamos ao esquecermos o respeito pela abundância celestial que nos foi proporcionada. Queria poder partilhar aquele sentimento de equilíbrio, de intensidade benigna com os que havia esquecido em casa mas percebi que assim também eu estava a desperdiçar. Não se tratava de egoísmo, tratava-se de viver aquele tempo e local sagrado. 

Eram, são tantos os sentimentos que me perdi a somá-los todos. 

Por momentos fecho os olhos, detenho a minha ânsia, inspiro de forma voraz e agradeço aos deuses deste espaço venerado o facto de me receberem a mim e aos meus. Às vezes basta estar agradecido. Basta acolher o que de melhor a nossa alma proporciona aos outros. Às vezes basta “Hakuna Matata”. 

Por estas terras convidam-nos a acompanhar a vida com simplicidade, com tempo para saboreá-la, em acolhimento interior com os Mestres da Natureza, esquecendo, desintegrando o que nunca desejamos plantar. Este é o poder “Hakuna Matata”.

Diários do Serengeti – Parte II – Perceber a origem do nosso tempo…





Terceiro dia por Terras do Serengeti. Hoje estaríamos por Masai Mara, uma das grandes planícies de um paraíso que parece ter escapado aos homens. 

Quando procuramos a cura para o que somos, acreditamos que é no silêncio que mora a luz para as demandas da nossa escuridão. Masai Mara era esse recanto de silêncio que procurava. 

Partimos. Seriam dois dias de deserto total. O objetivo era rever os grandes cinco: o elefante, o leão, o leopardo, o búfalo e o rinoceronte. Estes são os cinco animais sagrados do povo Masai, tribo que deu nome à enorme planície, integrada no grande Serengeti. 

Não precisamos de muito tempo para que a longitude, o horizonte e a calma de Masai Mara se apoderasse de nós. 

Ao longe avistávamos os primeiros búfalos. Uma enorme manada caminhava de forma sumptuosa, aparentemente agressiva, mas era apenas a nossa incompreensão a enganar-nos. Continuamos caminho por entre centenas de gazelas, zebras, empalas e algumas girafas. À nossa frente uma enorme árvore parece ganhar vida. Os pássaros fogem dos galhos como se a escuridão se aproximasse. Três elefantes, dois enormes e um de pequeno porte emergem na nossa direção. Sentamo-nos de forma respeitosa em contemplação enquanto estes paravam para se alimentarem das pontas dos galhos da árvore mais frondosos. Por instantes, o mais imponente dos 3 olha-me nos olhos e confronta-me na minha alma. De forma ruidosa lembra-me “Deixa que o teu tempo te encontre…”. Foi um momento de êxtase e ao mesmo tempo de terror. Lembrei-me que me tinha esquecido da minha origem. Antes de acelerar o meu tempo, houve um tempo em que aprendi a ler o meu tempo, sem pressa, respeitando o tempo, dando o tempo ao tempo. 

A minha viagem acabava de mudar. Levantamo-nos mais descontraídos e caminhamos sem direção. Paramos para lavar a cara num pequeno riacho. Quando nos viramos de forma receosa avistamos um grupo de oito leoas a observar-nos de forma impávida e serena. Mais à frente o Leão alfa, o macho reinante do grupo não se importava com a nossa presença. 

Percebemos naquele momento sem relógio que os próprios animais nem nos ameaçavam nem nos temiam. O nosso tempo era o mesmo. Não havia manhã, tarde ou noite, havia um espaço temporal comum onde ninguém tinha medo de se perder, onde ninguém se procurava encontrar, só estar. 

Estava a ficar tarde, tínhamos de montar abrigo. Encontramos um enorme ébano com uma vasta copa que nos parecia ideal. Pernoitar acima do solo era o plano. Por um lado era um sítio seguro, por outro lado era uma localização privilegiada para ver as estrelas. 

Conversamos muito durante aquela noite até que, de repente, Mizegui parou de conversar, pediu-me silêncio e apontou para trás das minhas costas. Virei a cabeça e dei de caras com um leopardo a repousar num ébano oposto ao nosso a pouco menos de dez metros de nós. Não sabíamos há quanto tempo ele ali estava e como em todos os outros confrontos com animais que havíamos tido naquele dia, também ele se revelava confortável com a nossa presença. 

Aqueles dois dias passaram de forma rasante. Por entre gnus, avestruzes, magustos e outras incontáveis presenças acabamos por não conseguir ver o rinoceronte. Mas está tudo bem, ele acabará por aparecer. O meu coração estava onde devia estar. A companhia era a necessária, a aventura tinha deixado de o ser. Sentia que o meu tempo me voltava a encontrar. Reaprendia vagarosamente a ser a origem do que podia ser. Foi tão bom, tão confortável, tão perfeito. Mas ainda faltava o rinoceronte e essa aventura… era já a seguir.

5.24.2019

Diários do Serengeti – Parte I – A abundância duvidosa...






Por estes dias decidi viajar para fugir da dor de já nada ser suficiente. Treinei tanto, pratiquei tanto, refleti tanto que me perdi na minha própria destreza, no meu próprio círculo virtuoso de felicidade. 

Foi no meio desta guerra interior que parti para Terras do Serengeti na companhia de um velho amigo de jornada, o Mestre Guardador de Sonhos que dá pelo nome de Mizegui Takasugui. O Serengeti era uma das casas simbólicas do meu bom amigo, um espaço que procurava para retemperar energias e se encontrar a si mesmo. 

Organizamos os mantimentos e partimos. Demoramos dois dias inteiros de Ethérnia a Serengeti. Ainda de dia, decidimos pernoitar por entre a sombra de uma majestosa acácia. Mizegui ensinou-me como as tribos locais faziam fogo e já de volta da fogueira, partilhei o meu estado de espírito e o porquê de o haver procurado: 

- Estou numa daquelas fases estúpidas em que parece que sou subjugado pela minha própria felicidade. O Cosmos foi tão generoso que deixei de ter forças para absorver toda a sua intensidade, verdade e alegria. Estou agradecido e lisonjeado com todas as bênçãos do céu, mas por outro lado perdido por entre a plenitude e o deserto em que pareço insistir em existir. 

Deixei por momentos que as lágrimas se apoderassem de mim e perdi-me na minha própria dor. Estava cravado de energia. Sentia-me culpado por não estar à altura do mundo, sentia-me culpado por estar a reclamar daquilo porque todos clamavam. Neste momento, Mizegui colocou-me a mão no ombro e partilhou: 

- Nobre amigo. O Cosmos é uma matemática metafísica, mas equilibrada. Nos momentos em que não estamos bem, outros como nós ocupam o espaço de felicidade que deixamos verter e quando eles voltam ao círculo vicioso da sua ausência, outros se levantarão para ocupar esse mesmo espaço de felicidade que parece ter ficado vazio. 

Nesta matemática inconcebível, vamos subindo degrau após degrau, ao ponto em que os espaços de felicidade começam a ser o infinito real e as pausas para o abismo começam a escassear. 

Mas como são muito poucos os que conseguem subir esta escada, raramente encontras alguém doente na sua própria felicidade. 

Ainda mais raros são aqueles que não param de subir a escada e que a determinada altura saem da própria esfera do Cosmos. Nessa altura perdem todo e qualquer tipo de amparo. Inventam doenças novas de que ninguém ouviu falar. Deixam de perceber a sua própria felicidade. O mais grave é que não há cura. 

Não erraram, não transgrediram, não se anularam, apenas foram vencidos pela sua incapacidade de se perderem nos pequenos momentos de vida dos homens. Perdem a noção do pequeno e do grande. Escondem-se de si mesmos e sofrem de forma solene. 

Percebia muito bem o que ele dizia. Então perguntei: 

- E este labirinto do absurdo tem um nome? 

- Também o tento descobrir há décadas, mas não tenho certezas. Eu chamo-lhe a doença da Abundância Duvidosa. 

- E como a resolveste? 

- Procurei o meu silêncio, um amigo para falar e parei para voltar a encontrar o meu Cosmos. 

- E a que resultado chegaste? 

- Que não devemos ter vergonha do dia em que o nosso silêncio, o amigo que escolhemos para falar ou a tentativa de encontrar novamente o nosso Cosmos não chegam. Nessa altura mantém o foco, acredita no amor que dás e recebes e por magia o teu Cosmos… voltará a reclamar a sua presença.

4.30.2019

Diários das Flores IV - "O poder do Vórtex Milenar..."



Por estes dias fiquei-me pelas ilhas do Vórtex de Milénia, as mais longínquas do mítico arquipélago. São duas ilhas com muito poucos habitantes onde tive a oportunidade de experienciar velhas licões do passado: o silêncio do Limbo; o poder da penumbra da Bruma; e voltar ao sonho do Jardim dos Eternos.

Hoje era o dia de experimentar o verdadeiro poder das Ilhas, o Vórtex de Milénia, um portal entre mundos onde és, depois de passá-lo, obrigado a interagir com as tuas verdadeiras intenções, emoções e angústias à muito esquecidas. Quando entramos no Vórtex mergulhamos numa cascata sem fundo. Não sentimos o frio, o calor, só vivemos o momento.

Era a minha hora. Deixei-me ir pela torrente, lentamente fundi-me com ela, adormeci na sua intensidade e fixei-me nas memórias de energia que de forma explosiva brotavam como pequenos vulcões a  espezinhar a minha mente. Naquele momento de guerra e paz simultânea, por cada abismo que fazia persistir, os guerreiros que habitavam a minha consciência ressuscitavam velhas montanhas três vezes maiores do que o abismo de que tentava escapar. Foi aí, que mesmo à minha frente, reencontrei o poder do Discernimento e voltei à tona.

À minha espera tinha dois amigos de caminho, os aprendizes Yoannes e Fetis. Ajudaram-me a voltar a mim e questionaram-me o que havia experimentado. Fiquei em silêncio e devolvi a pergunta em forma de desafio: É a vossa hora de entrar no Vórtex. De que estão à espera?