Diários de Gobi - A diferença entre o objetivo e a jornada... - Parte I

 


Por estes dias partia na minha mais importante missão em muito tempo. Juntamente com Bottelli e Edh, pretendíamos resgatar Batar, Mestre das Artes do Minimalismo. O conceito pode parecer-vos estranho, mas é o mais simples que podem imaginar. As Artes do Minimalismo consistem na aptidão de viver nas mais inóspitas condições humanas, somente a partir do mínimo do que a natureza te proporciona. Batar era o mais dotado e capaz de todos os Mestres da Ordem dos Cavaleiros do Poder que conhecíamos com estas aptidões. Já habitara nos territórios mais impróprios e improváveis, no isolamento pleno, adaptando-se às mais extremas condições que os mesmo ofereciam.

Por conhecer as suas capacidades estávamos preocupados. O mesmo havia desaparecido há mais de duas épocas anuais sem dar qualquer notícia.

É normal para qualquer Mestre ter as suas jornadas de isolamento e autoconhecimento no silêncio dos seus dias, mas, determina o regimento da Ordem dos Cavaleiros do Poder que todos os seus Mestres devem deixar sempre uma pista de que a sua existência permanece, independentemente da sua correspondência geográfica. A última notícia que tínhamos do seu paradeiro tinha três épocas anuais e apontava para o Deserto de Gobi, também denominado de Deserto Vivo.

Gobi era um cenário sem paralelo. As frondosas dunas de areia cor de ouro com quilómetros de altura conviviam com enormes planícies verdejantes povoadas por milhares de cavalos selvagens e camelos albinos. Ao longe as cordilheiras de Gobi erguiam-se a mais de 4000 metros num vermelho pálido e imponente permitindo alguns dos mais espetaculares pores do sol que o universo conhecido tem para oferecer.

Mesmo sendo um imenso deserto, Gobi era uma fonte de vida imponente, um quadro quase perfeito, mas também uma armadilha silenciosa em que só os mais capazes são capazes de sobreviver. Antes da partida, Bottelli recordava uma das ultimas conversas que havia tido com Batar:
- Quando treinamos juntos nas Montanhas de Geray, todas as manhãs ele subia a Montanha da Serpente para orar ao Deus Khan, a sua divindade ancestral, protetora da Natureza Oculta que habitava no Céu. Perguntava-lhe se repetia este ritual diário para estar mais perto de Khan e da sua casa, o Céu. Batar respondeu-me que o seu caminho de espiritualidade.... estar perto de Khan... não era um objetivo, era uma jornada.

Aquela história que Bottelli nos lembrara reforçava o propósito da nossa busca. Conto-vos a nossa missão nos próximos capítulos.