5.29.2018

Diários de Jerusalém VI - O dia da Lenda do Cavaleiro





Cavaleiro e um conceitos chave da minha vida. O legado do Cavaleiro, todo o imaginário à volta das histórias, magia e  lendas que as várias ordens de Cavaleiros me transmitiram sempre me fascinaram e determinaram uma parte relevante da minha personalidade, forma de estar e forma de acreditar. O ideal do cavaleiro trespassou me a alma como uma Excalibur filosófica (espada lendária do Rei Artur) e fez-me ver para além dos meus muros e permitiu e contínua a permitir-me viajar pela insónia do passado, pelas auras do futuro e fugir a banalidade da realidade que prefiro fazer de conta que não existir. Só para que fique esclarecido, não vivo à parte da realidade.

Mas continuando... Hoje estive em Acra, cidade da Ordem dos Cavaleiros Hospitalários e mais tarde da Ordem dos Cavaleiros Templários, conquistada e reconquistada dezenas de vezes por turcos, franceses, árabes, judeus, cruzados, entre outros. 

Acra é uma lenda perdida no tempo, não só pelos pergaminhos lá encontrados que retratam muita da sabedoria ocidental cristã, mas sobretudo pelas ruínas incrivelmente preservadas e pelo que representou enquanto principal porto do mediterrâneo para chegar a Jerusalém. Nas paredes das catacumbas da cidade subterrânea encontramos as marcas dos grilhões dos prisioneiros, a sumptuosidade da magnitude das colunas que seguram os claustros principais e salões de generosas proporções por onde viveram os velhos cavaleiros da Ordem Hospitaleira e Templária. 

Fechando os olhos, deixando a plenitude invadir-nos conseguimos imaginar a vida de cavaleiro, a preparação da armadura para o combate, a paragem para meditar, a reunião de companheiros de guerra para preparar o próximo plano, o momento da partida e do regresso, o momento de pausa com o nobre escudeiro. 

Por fim chegamos a Cesarea Marittima, última capital romana de Israel. Aqui o mito do cavaleiro contínua. O anfiteatro romano, a fortaleza de Ricardo Coração de Leão, Rei da Inglaterra Medieval, desaparecido na Terra Santa, fazem-nos sentir de volta à Lenda do Cavaleiro.

Faço então parar o tempo retenho-me no cavaleiro que sou e renovo os votos de gratidão e resolução ancestrais. 

Ser cavaleiro é combater pela liberdade fazendo do destino um aliado. Ser cavaleiro é disputar cada combate como o mais importante da eternidade que nos resta. Ser cavaleiro é ser o mais engenhoso e pacificador que puder com tempo e recursos que as circunstâncias me permitirem. Ser cavaleiro é ver na diferença do adversário uma oportunidade para aprender e evoluir. Ser cavaleiro e ver em cada nova viagem a redescoberta da sua linha do tempo para o tempo que se segue. 

Cavaleiro!!! Faz os teus votos... escolhe o que vais ser com a tua liberdade.

5.28.2018

Diários de Jerusalém V - Os dias do horizonte e silêncio




O que é que encontras no teu silêncio? O que é que procuras quando te ausentas do mundo e te deixas perder nos trilhos que a tua mente te revelou na surpresa do momento? O que procuras quando entendes que não há ninguém no mundo exterior que te possa valer e com quem possas partilhar o que de único estás a sentir? É tudo apenas um engano do momento ou a nossa solidão a falar mais alto? 

Quando me perco nestes momentos procuro a sabedoria do silêncio e deixo de ter medo da minha espiritualidade e aceito que nunca vou ter as respostas para tudo. 

Na madrugada dos nossos dias, alimentada pelo espírito omnipresente de Israel multicultural, acredito cada vez mais no milagre do horizonte e no milagre do silêncio. Agradeço ao horizonte todos os novos cenários não revelados que me permitiu alcançar e ao silêncio a capacidade de descodificar toda a beleza e magia que os novos horizontes me revelam. 

Descobrir os milagres do silêncio e horizonte é voltar ouvir a nossa alma de criança adormecida e as vozes do tempo presente, aquele que nos faz SER, sem medo do passado e do inesperado do futuro. Dar tempo ao silêncio e ao horizonte significa pegar na mochila, enche-la com o essencial e voltar à viagem e ao peregrino que há em nós. Na caminhada só parem ao por do sol, quanto todas as galáxias e mundos intemporais se alinham para que a magia e silêncio se fundam numa fórmula alquímica única. 

Faz do horizonte a próxima aventura e cenário que não te atreves a planear e do silêncio o tempo em que percebes a magia interior que acabaste de renovar. Se não fores capaz de sentir o teu horizonte e o teu silêncio, não deixes de fazer a viagem, eles acabaram por se revelar.



5.27.2018

Diários de Jerusálem IV – A minha irmã e o sonho Kibbutz



A vida é feita de laços intemporais que de uma forma convergente, absoluta, única e invisível nos fazem. Os irmãos e irmãs são parte dessa importante e essencial equação.
Hoje dou-me ao tempo de dedicar o espaço que não me lembro de alguma vez ter dedicado à minha irmã… um texto no meu blog de histórias épicas e viagens.

Hoje conheci um daqueles sonhos impossíveis, uma cooperativa Kibbutz. Kibbutz são comunidades que partilham e integram todos os recursos gerados ao serviço do todo. Ou seja, são uma espécie de aldeias comunitárias que gerem os seus próprios negócios e que no final os lucros são totalmente reinvestidos na comunidade e de forma equitativa por todos os membros da mesma. Sem dependerem do estado, garantem todos os serviços aos seus membros, não deixando de respeitar a sua liberdade de ação e escolha. Todos os recursos pertencem à comunidade e são partilhados de igual forma, desde carros, espaços de lazer e as próprias habitações. Todas as principais decisões são tomadas em Assembleias Comunitárias onde a maioria prevalece.

Parece poético mas não é nenhuma invenção, esta é mesmo a realidade. Não é perfeita e alimenta muitas perguntas, mas no fim do dia, que melhor solução conheces tu?

E perguntam vocês, o que tem isto tem haver com a minha irmã? Tivemos o privilégio de experimentar e ser formados numa realidade que sendo totalmente diferente partilhou os mesmos princípios e que deu forma ao talento que ambos hoje revelamos.

Foi com base nestes princípios utópicos que hoje redescubro o talento da Ana na sua criatividade, na simbologia natural que coloca na liderança sábia que exerce junto das crianças e adolescentes com que trabalha todos os dias, na Mãe justa e assertiva que revela ser e na companheira de silêncio, presença e atitude que sempre foi.

Devemos deixar ao mundo a lembrança dos bons exemplos de vida e comunidade que tivemos o privilégio de conhecer e partilhar, hoje deixo o exemplo da Ana Costa, minha irmã e das Cooperativas Kibbutz. Não o faço para lembrar ao mundo que é possível mudar ou fazer melhor, faço-o para eu mesmo me lembrar que, façam o que os outros fizerem, eu tenho exemplos que me permitem continuar a  viver o meu. Termino com Obrigado.



5.26.2018

Diários de Jerusalém III - Os sentidos da diferença....




Na Jerusalém que pude sentir e viver com os meus próprios sentidos fiquei com a certeza que a diferença religiosa é só mais um vetor de centenas de outras diferenças que só nos engrandecem e aproximam na diversidade que o Homem foi capaz de gerar. Depois destes primeiros quatro dias, as guerras que acabamos por inventar são desculpas de indisposições que, nesta parte do mundo, matam milhares.

Aqui no centro do mundo de todas as convicções religiosas pergunto-me por onde caminha o Homem, portento de emoções, criatividade, raiva, alucinações e crenças. Será que se esqueceu que sente, respira, toca, ouve e se perde como qualquer um dos seus irmãos, independentemente do credo que escolheu professar.

Nas ruas de Jerusalém, a lenda da criança judia perdida em brincadeiras com a criança católica arménia enquanto a eles se juntam o “puto” muçulmano e a “miúda” católica com equipamentos das seleções brasileira e argentina é uma verdade tão natural como a indisposição que o café turco me provoca.

Aqui, bem ao lado do muro onde os vivos depositam as suas mágoas e despertam para um novo amanhecer, deixo cair a minha capa usada e gasta das batalhas que travei. No entanto, no meu íntimo, arresto as minhas armas usadas pela vaidade, excesso de confiança e derrotas que me tornaram mais forte.

Perco-me nos olhares díspares, nos cheiros intensos, na naturalidade da Babilónia que me trespassa a alma e me encanta em todas as direções. Por fim, em silêncio perante o Muro das Lamentações… no hoje do agora, só lamento que nós humanos não entendamos a simplicidade da diferença. Afinal, no mundo em que todos queremos a diferença, no final do dia só afirmamos o medo que temos dela. 

5.25.2018

Diários de Jerusálem II - Os dias da fé....





Que fé desperta em ti a essência da tua existência? Que fé te faz percorrer o caminho do autoconhecimento sem olha para trás? Que fé faz de ti o peregrino que não desiste do caminho?

Hoje coloquei-me todas estas perguntas e mais algumas dezenas que só adensaram minha confusão sobre o dilema da Fé. Por estas bandas Jesus Cristo e o seu nascimento tornaram-se num negócio de milhões para uns e de sobrevivência para outros, as leis de Alá são a desculpa para interpretar as desavenças entre palestinianos e judeus, a confusão de religiões na cidade antiga de Jerusalém junta dezenas de religiões, cada uma advogando a verdade dos factos para a existência humana.

Mas fico-me pelas três perguntas iniciais. Vir a Israel, conhecer o início dos tempos modernos faz-nos perceber que a fé não tem dono, depende da vontade que temos para acreditar em algo que nos supera e dá sentido à nossa existência. 

Reafirmo mais uma vez, nestes dias de redescoberta do caminho do autoconhecimento, que a fé nunca foi sobre nós, foi sempre sobre os outros, sobre a sua capacidade para fazerem parte da solução comum, do bem maior, para serem o que ainda não foram capazes de descobrir sobre si mesmos. A minha fé continua a estar no que de melhor os outros podem ser e dar ao mundo que partilham comigo todos os dias.

Por fim, reafirmo a minha estrada de peregrino e viajante, que continua a sentir o apelo do caminho que levará à montanha seguinte, que me permitirá ver o próximo horizonte. Um horizonte onde a fé dá sentido ao que acredito que ainda falta descobrir. Estás disposto a dedicar a tua fé aos outros?....

5.24.2018

Diários de Jerusalém - Os dias do sacríficio....




Perguntamo-nos muitas vezes, até onde estamos dispostos a ir. Acreditamos que no momento certo estaremos disponíveis para o último sacrifício. Se tivermos sorte este momento nunca chegará e nunca teremos de o fazer.

Hoje estivemos por Massada, fortaleza épica com mais de 3000 anos de história, situada em território impossível, em pleno deserto da Judeia, a poucas centenas de mettros do Mar Morto. Massada é o símbolo da resistência judaica à opressão romana. O cerco de Massada foi um dos últimos eventos da primeira guerra romano-judaica, ocorrido entre 73 e 74. Estes  eventos foram relatados por Flávio Josefo, um líder rebelde judeu capturado pelos romanos e que depois se tornou num historiador ao serviço de seus captores. Segundo ele, o longo cerco pelas tropas romanas levaram a um suicídio em massa dos sicários rebeldes e das famílias judaicas que viviam na fortaleza. Massada tornou-se desde então num evento controverso na história judaica, com alguns a considerar o local como merecedor de reverência, uma comemoração de ancestrais que deram a vida numa luta heroica contra a opressão, enquanto que outros consideram todo o evento como um trágico alerta contra o extremismo e a incapacidade de ceder. 
A crença judaica proíbe o suicídio, a vida é encarada como a dádiva que apenas Deus tem a capacidade de tirar. Massada ultrapassa essa máxima em nome da resposta à opressão e da liberdade. Preferiram o suicídio a ser dominados pelo opressor. O último sacrifício em nome de um suposto bem maior. 

Não tomo partido sobre o que não entendo e é bom termos consciência que existem domínios, espaços da mente e do tempo que nunca vamos entender. Respeito o sacrifício que fizeram, mas preocupa o que o mesmo inspira nos dias de hoje.

Em dias de sacrifício fica a certeza que uma ponte continua a ser mais poderosa que um muro e que com um mar pela frente, mesmo sem ponte, podemos sempre fazer um barco só para ver como é do lado de lá.

4.30.2018

A Ilha de Gorge e os 5 artefactos do Silêncio


Por estes dias parti. com os meus aprendizes Yber e Phili e Mestre Lyn para a ilha de Gorge, parte dos territórios de Milénia, as terras da magia intemporal, perdidas num tempo sem história. 

A nossa aventura passava por descer as enormes Colinas do Cobre até às Fajãs de Milénia, pequenas aldeias bem coladas ao mar e de acesso quase impossível por onde habitam os 5 Mestres do Silêncio. 

Estes Mestres são Sábios da Velha Ordem dos Cavaleiros do Poder que guardam os segredos dos Artefactos do Silêncio, cinco artefactos antigos, que segundo o Livro dos Elementos, guardam o poder do Intangível, aquele que está presente em todos e em tudo, mas que nunca materializamos e que só descodificado através do domínio da Linguagem do Silêncio. Eles são o a pedra da Alma, o colar do Tempo, a máscara do Infinito, a adaga da Utopia e o Lenço da Magia. Segundo os Mestres Antigos, a pedra da Alma é capaz de ler as intenções escondidas, do subconsciente mais profundo de cada um. O Colar do Tempo é capaz de parar o Tempo e, segundo alguns, através de um poder superior, é capaz de fazer avançar e recuar o mesmo tempo. A máscara do Infinito é capaz de abrir portais entre mundos. A adaga da Utopia, reza a lenda, é capaz de filtrar todo o mal enraizado no coração de qualquer ser ou entidade viva transformando-a em energia benigna. Por fim, a lenda conta ainda que o Lenço da Magia é capaz de desvendar a magia escondida, sem que no entanto a consiga manipular. 

Gorge era uma ilha quase inatingível, talvez por isso os artefactos tenham sido lá guardados. 

Chegamos à ilha de Balão de Ar Quente, mas para chegarmos às Fajãs do Silêncio teríamos de descer montanha abaixo e enfrentar quedas de água mortais, penhascos tornados invisíveis pela flora luxuriante e descobrir trilhos à muito deixados ao abandono. 

Como chegamos perto do anoitecer montamos acampamento, acendemos uma fogueira e pernoitamos nas encostas do pico da Esperança, a encosta mais favorável para descer até às Fajãs do Silêncio. 

Com o primeiro amanhecer, levantamos acampamento, preparamos o equipamento e descemos montanha baixo. Mesmo sendo uma descida difícil fomos arrebatados pelas quedas de água que esventravam a montanha e reluziam à distância através do efeito do Astro Maior. Por entre floresta densa, mais abaixo, fomos capazes de descobrir um pequeno trilho. Percebia-se que era um caminho vulgarmente utilizado e em passada larga seguimo-lo, até que, bem ao fundo, no sopé da grande escarpa, lá estavam as Fajãs do Silêncio. Quilómetros e quilómetros de pequenos templos construídos pelas mãos dos velhos Mestres do Silêncio, a maior parte já desabitado. 

Não avistávamos ninguém… passaram horas… decidimos avançar. As Fajãs não podiam estar abandonadas, o cuidado com que estavam tratadas mostravam que ali pelo menos tinha passado alguém. 

De templo em templo começamos a explorar todos os recantos em busca de alguém. Após quase um dia de buscas, Yber questionou-me: 
- Já não deve estar cá ninguém, para onde achas que foram todos, Mestre? 
- Não faço ideia, as informações que tinha confirmaram-se até agora, menos a presença de quem procurávamos. - Respondi. 
- A viagem foi em vão Mestre, não está cá ninguém. – Retorquiu Phili, constrangida por todo o esforço que havia feito em vão. 
- Lamento o que sentes Phili. Se não foste capaz de ver para além do que procuravas então estás no sítio errado. 
- Não te percebo Mestre, o que quereis dizer? 
- Podemos não ter encontrado ninguém, mas levamos uma história nova para contar. Ninguém a paga a memória da nossa descida tenebrosa, das cascatas de água selvagem que descobrimos, da longitude que havistamos e a visão de deslumbramento que as Fajãs do Silêncio nos proporcionaram. Há sítios que só por si são a própria magia e essa só é visível se estivermos disponíveis para ver além do que procurávamos. 

Neste momento uma sombra ergue-se atrás de nós de surge Alihas, Mestre do Lenço da Magia e um dos 5 guardiões das Fajãs do Silêncio. Espantados com aquela presença inesperada, a nossa aventura começava agora… Nunca me esqueço das suas primeiras palavras: 
- Bem vindos ao que está para além do que procuravam……