Diários de Gobi - A tribo de Mogul - Parte III

 




Quinto dia por terras de Gobi. Na nossa jornada em busca de Mestre Batar éramos agora quatro. Eu, Bottelli, Edh e o nosso companheiro, Sanja, Mestre Juiz de Kakorum, nosso último ponto de paragem.

Segundo o rumor que nos havia contado Sanja, Batar poderia estar cativo da Tribo Mogul, no extremo norte de Gobi. Foi nessa direção que fomos orientados por Sanja. Demoramos dois dias.

Já conseguíamos avistar o acampamento. Como em Kakorum, dezenas de Geres (enormes tendas brancas circulares) povoavam o horizonte. O acampamento dos Mogul ficava entroncado entre duas enormes montanhas verde flamejante. A vista com o Sol no firmamento era monumental. Ainda era manhã.

Aproximamo-nos de forma suave. Deixamos os camelos que nos levavam a alguma distância do acampamento. Não sabíamos muito sobre os Mogul, por isso decidimos ser cautelosos. Quando nos apercebemos, estávamos rodeados por mais de 30 guerreiros. Uns usavam lanças, outros seguravam sobre os ombros gigantescas aves de rapina que pareciam ser falcões. Todos possuíam adornos em pele. No seu centro uma voz imponente fez-se ouvir:
- Quem sois forasteiros, o que vos trás aos nossos domínios?
Era Sosul, Guerreiro Mor dos Mogul, uma espécie de líder da tribo. 

Sanja apresentou-nos e deixou que eu explicasse a situação. A reação de Sosul foi de alguma surpresa. Depois da tensão inicial convidou-nos a entrar. O que se seguiu foi uma imensa surpresa. Sosul contou-nos que Batar havia permanecido com eles por uma boa temporada. Pretendera aprender os seus costumes, o treino de aves selvagens em que os Mogul eram especialistas e a sua forma de viver o clima extremo do deserto. Ao mesmo tempo ensinara-lhes as suas artes de combate, nomeadamente com o varapau, filosofia e ensinamentos da Ordem dos Cavaleiros do Poder. Depois, a seu tempo, despediu-se e nunca mais o viram. Entretanto já haviam passado mais de duas épocas anuais. Voltávamos a estaca zero. Sosul acrescentou ainda que, também Buitre, suposto aprendiz de Batar, havia passado por lá. Sosul convidou-nos a permanecer no acampamento naquela noite.

Durante a ceia noturna, com a lua cheia a iluminar o horizonte, questionava Sosul de como podíamos encontrar Batar no imenso deserto. Este aproveitou para nos dar a sua perspetiva sobre a nossa demanda:
- Meus novos amigos. Batar era devoto de Khan, divindade do Céu, protetora de toda a Natureza Oculta. Ele ensinou-nos que nunca estás na terra a que pensas que pertences, estás apenas de passagem. E que Khan lhe lembrava isso todos os dias. Por isso, para ele, ficar não era opção, tinha de continuar. Dizia sempre que havia uma montanha à sua espera. Se bem o conheceis, sabereis onde procurar a seguir.
Foi aí que me lembrei da história que Bottelli nos havia contado. Durante o seu treino em Geray, todas as manhãs ele subia a Montanha da Serpente para orar a Khan. Era uma espécie de ritual de disciplina de que não abdicava.
Perguntei a Sosul:
- Nobre Sosul, qual é a mais importante montanha por esta bandas? E já agora, alguma delas está relacionada com o Deus Khan?
Sosul sorriu. Percebeu que tinha algo em mente. Respondeu-me que era Elevação de Orkun. Lá escondia-se o Templo Ancestral de Khan. Ficava a 3 dias de caminho. Mas era uma aventura perigosa entre desfiladeiros e tempo extremamente instável. Mas o mais complicado, para não dizer impossível, era superar o Oásis das Mil Dúvidas que rodeava toda a montanha. O mesmo apresentava um desafio sagrado que não superado te impedia de aceder à Elevação de Orkun. Mas essa história conto-vos na próxima parte destes diários.

As peças começavam a encaixar. No dia seguinte partiríamos. Sosul, gentilmente, cedeu-nos um dos seus falcões mais experientes para nos guiar. Orkun era um desafio inquietante e excitante. O que nos esperava fica para o próximo episódio desta história.