Décimo Quarto dia nas Ilhas de Java. Depois da tempestade, da noite e da morte, a nossa demanda pelos quatro Poderes da Natividade estava quase completa. O último e mais misterioso dos Firmamentos Ancestrais esperava por nós: o Firmamento da Dualidade.
Eu e Rumi havíamos ultrapassado o enigma da Chuva das Trevas, compreendendo que a Morte era o poder de renascer perante a aniquilação. Essa revelação deu-nos uma nova perspetiva para o que viria a seguir.
Viajámos de volta para Java Matre, onde tudo começou. O Firmamento da Dualidade não era um templo, uma pirâmide ou um trono, mas sim o próprio Vulcão Java Matre, aquele que deu origem a todo o arquipélago, fonte primária da Natividade.
Desta vez, fomos recebidos por Animahh, a mais antiga de todas as Sábias de Java, conhecida como a "Tesse-Ki". Era uma mulher cuja idade segredavam ser milenar, com olhos negros salientes que pareciam guardar os segredos de milhões de estrelas. O seu título, Tesse-Ki, vinha da sua capacidade de sentir e tecer a energia da vida (Ki) que fluía através de todas os seres vivos. Era capaz de manipular a energia do Ki, restaurando habitats, filtrando energia maligna e lendo os sentimentos da natureza.
Animah explicou-nos o desafio final. A Dualidade não residia em testar a nossa força ou a nossa sabedoria, mas em unir o que aprendemos, demonstrando o entendimento de que opostos são, na verdade, faces da mesma moeda.
— O Firmamento da Dualidade — disse Animah — exige que aceitem a vossa própria contradição. Vós sois a tempestade e a acalmia; a luz e a sombra; a vida e a morte. A prova final será um confronto entre as vossas essências no lugar onde a vida e a matéria nasceram.
O nosso destino era o cume do Vulcão Matre, que, ao contrário do Vulcão Matra (onde enfrentámos o desafio do Firmamento da Morte), estava estranhamente sereno. Animah guiou-nos através da vegetação exuberante, dos arrozais de perder de vista e das encostas basálticas que serviam de porta de entrada até à cratera adormecida.
No centro da cratera, sentámo-nos num pequeno planalto, lado a lado. Animah partilhou a história ancestral do vulcão. Ela contou que quando este irrompeu, gerou a ilha com fogo e destruição, mas, ao mesmo tempo, fertilizou a terra com cinzas e deu origem à vida luxuriante que ali prosperava. Destruição e Criação eram inseparáveis.
A prova começou quando Animah nos pediu para descrevermos, um ao outro, o caminho que percorremos, mas cada um deveria fazê-lo a partir da perspetiva do seu oposto. Parecia demasiado simples.
Rumi, o Mestre Poeta da contemplação e da escrita, teve de descrever a sua jornada usando apenas a ação e a destreza que o salvaram no Estreito do Cego. Eu, Abraham, o Mestre Dragão de Fogo, habituado à sabedoria na ação e ao combate, tive de descrever a minha jornada usando apenas o silêncio e a meditação (disciplinas em que era claramente mais fraco) que encontrei na biblioteca do Firmamento da Noite.
O desafio apesar de simples, revelou-se imenso. Rumi tropeçava nas palavras, habituado à eloquência, e eu lutava contra a tendência de simplificar a experiência em termos de estratégia.
Rumi, no entanto, inspirou-se no que ele próprio ensinara sobre o que era ajudar e ser prestável… Ele descreveu a sua aventura no Firmamento da Tempestade da seguinte forma: "E foi quando a nossa barcaça se estilhaçou, perante o caos e a morte certa, que me forcei a encontrar a quietude e o foco para agir, nadar, sobreviver."
Eu descrevi a minha jornada no Firmamento a Noite desta forma: "Na biblioteca do Firmamento da Noite, o peso do saber anónimo, escondido na escuridão da história, era tão vasto que só a vontade de procurar e a luz da minha curiosidade me permitiram dar cada passo."
Perdidos nestas reflexões quase exotéricas, percebemos, então, o verdadeiro significado da Dualidade como Poder da Natividade: a força da vida não reside num extremo, mas na transição perpétua entre eles.
Animah sorrindo proferiu:
— Compreenderam a lição final. O Poder da Natividade não reside na tempestade, nem na noite, nem na morte, nem sequer na dualidade individualmente. O Poder reside na capacidade de aceitar que o Caos gera Foco; que a Escuridão gera Consciência; e que a Morte gera Vida. Estes opostos estão ligados pelo Ki, a energia da vida, que flui incessantemente. A Dualidade é a eterna dança da existência, a força que une os quatro Firmamentos num só.
A grande lição da Dualidade, concluiu Animah, era esta: "A vida não é encontrar um caminho, é aceitar que o caminho só existe porque caminhas entre o que és e o que não és."
Com a sabedoria dos quatro Firmamentos enraizada nos nossos corações, a nossa jornada chegava ao fim. Na manhã seguinte, perante um generoso nascer do Sol, Rumi e eu preparámo-nos para seguir caminhos diferentes. Abraçamo-nos e cada um seguiu o seu destino. Futuras aventuras haveriam de nos juntar outra vez.
