🌙 Diários das Ilhas - A Noite que abre todas as portas - Parte III


Quinto dia pelas Ilhas de Java. Depois da Ilha de Java Matre e do desafio do Firmamento da Tempestade, hoje era o dia de partirmos rumo à ilha de Ramadani, a segunda maior do Arquipélago de Java. Aqui iria estudar e compreender os ensinamentos escondidos e preservados no Firmamento da Noite. Iríamos desvendar a noite, o segundo poder da Natividade.

(Para compreenderem os Poderes da Natividade guardados nos Quatro Firmamentos Ancestrais, convido todos a ler os diários anteriores.)

Eu e Rumi, o meu companheiro nesta aventura, partimos de javaya (pequeno barco popular nestas paragens). Loian, que nos tinha ajudado na nossa última aventura, estava lá para se despedir.

Chegados a Ramadani, o nosso destino era a Baía dos Dois Sóis, onde ficava o Firmamento da Noite, que neste caso era uma enorme pirâmide erguida no topo de uma falésia que marcava o fim do perímetro da baía. Era uma das poucas localizações do universo conhecido onde era possível ver o nascer e o pôr do sol exatamente na mesma localização. O Sol amanhecia e anoitecia no mesmo local. Era um fenómeno estranho com várias explicações místicas.

Iríamos passar o dia com Rustum, Sábio de Java que assumia a responsabilidade de Eremita-Mor da Noite, o líder destas paragens. Como já vos contei, por estas terras, o Clã dos Sábios de Java são reis e senhores.

Para se poder entrar no Firmamento da Noite, como devem imaginar, só podia ser à noite. De dia, a zona estava interdita a qualquer peregrino ou visitante.

Esperámos pelo pôr do sol. Um vermelho flamejante foi descendo, varrendo todo o horizonte. A pirâmide do Firmamento da Noite parecia ganhar vida própria e revelava um dourado encantatório que nos cegava.

A noite finalmente chegava e podíamos entrar. A pirâmide era, na verdade, uma enorme biblioteca que guardava os saberes ancestrais de sábios que ninguém sabia quem eram. Por isso se chamava o Firmamento da Noite: os saberes ali guardados tinham sido desvendados por alguém que se perdera na noite, no anonimato.

Ficámos pelo Firmamento da Noite três dias. Durante o dia dormíamos, à noite estudávamos os manuscritos. Era inacreditável o saber anónimo que aquele local nos revelava. Entre leituras, aproveitávamos para desvendar o incrível nascer e pôr do Sol da Baía dos Dois Sóis.

Na última noite antes da partida, Rustum organizou um banquete em nossa honra. Que privilégio! Sinto que não merecíamos tanto. Durante o repasto, perguntou:

— Nobres Mestres da Ordem dos Cavaleiros do Poder, peço que nos revelem as grandes lições que transportam destes dias connosco.

Rumi respondeu:

— Entre tudo o que li, nobre Rustum, há um saber que não adormece no meu coração: "A ferida, em todas as suas formas, é o lugar por onde deixamos entrar a luz."

— E tu, Abraham de Ethérnia, o que tens para partilhar connosco?

— Amigo Rustum, mais do que aquilo que li nos manuscritos que estudei, há uma inscrição que li no centro do pátio principal do Firmamento da Noite que levarei comigo e resume estes dias: "Quando abri minha primeira porta interior, percebi que todas as outras estavam abertas."

Esta mensagem final retratava a noite como um dos principais poderes da Natividade: é quando nos descobrimos na escuridão que percebemos todas as oportunidades que estavam por revelar.

Amanhã partiríamos rumo ao terceiro Firmamento Ancestral, o Firmamento da Morte.