Diários de Gobi - A sombra da árvore que plantamos... - Parte V


Há mais de quinze dias que havíamos chegado a Gobi em busca de Batar, Mestre das Artes do Minimalismo e amigo de sempre. Há algumas épocas anuais que desaparecera sem deixar rasto.

Nesta aventura tinha partido eu, Edh e Bottelli. Pelo caminho juntara-se Sanja e por fim Buitre, antigo aprendiz de Batar.

Aventura após aventura, as pistas trouxeram-nos até ao Oásis das Mil Dúvidas. Através deste chegamos até uma ilha no centro do seu espelho de água. Nela havíamos encontrado o que parecia ser a entrada para o Tempo Ancestral de Khan, o local onde prevíamos estar Batar.

Ao início pensamos que o templo estaria no topo da Elevação de Orkun, montanha que se elevava entre o Oásis das Mil Dúvidas. Acabamos por perceber que era debaixo da montanha, através da entrada que a ilha no centro do espelho de água nos revelara após o Desafio das Mil Dúvidas. Se quiserem recordar do que se trata o Desafio das Mil Dúvidas convido todos a ler o capítulo anterior a este.

Fomos os cinco. Bottelli foi à frente. O que iríamos encontrar seria estonteante. Estávamos perante um conjunto de cavernas entreabertas que davam origem a grandes salões, todos bem iluminados através da luz do Sol, a partir de um mecanismo de projeção de luz exterior difícil de perceber. A adornar os enormes salões figuras de tamanho humano da divindade Khan, protetora da Natureza Oculta. Mas as cavernas davam origem a algo ainda mais intrigante, uma enorme floresta subterrânea cheia de cores luminosas e flora luxuriante. Aquela era mesmo a casa de Khan.

Do nada ouvimos:
- Bem vindos amigos, pensei que nunca mais vos veria.
Era Batar. Ficamos alguns segundos a digerir o momento, mas acabamos por o abraçar. Perguntou-nos quem era o desconhecido Sanja e como havíamos encontrado Buitre. Nós questionávamos o seu desaparecimento.

Nessa noite, há volta da fogueira, como havíamos feito centenas de vezes, Batar partilhava o porquê deste "AGORA" que havia escolhido.
- Sabem amigos, já dei ao mundo a parte que me cabia. Quando senti que já havia feito o caminho, decidi retirar-me e deixar que o mundo exterior fizesse a sua própria viagem sem que eu interferisse mais nela. Então virei-me para o mundo interior, o da serenidade, do desapego, da ligação com a natureza e com o sagrado. Aí decidi voltar para Khan. Acreditei que já havia plantado as sementes certas. Sentia-me completo. Ao dia de hoje o meu pensamento não se alterou. Se quiserem perceber melhor o que vos digo, recordo-vos a principal lição de Khan: 'Aquele que planta uma árvore sabendo que, eventualmente, nunca se sentará na sua sombra, começou a entender o verdadeiro significado da vida'."

Aquela reflexão fez-nos questionar a cada um o caminho que estávamos a fazer e o porquê e para quê do mesmo. Batar nunca precisou de ser encontrado. No final, sentia que era eu mesmo que me estava a encontrar. A pergunta que cada um colocava a si mesmo era se saberíamos, como Batar, quando seria o tempo de "deixar ir". Percebi que o meu amigo estava em casa. Estava na hora de eu mesmo voltar à minha.

Ficamos mais uns dias com ele aprender sobre aquele recanto de magia. Prometemos, no entanto, não contar a ninguém sobre o seu paradeiro. Entretanto estava na hora de regressar. Despedimo-nos e cada um seguiu o seu caminho. Edh e Bottelli continuaram comigo, Buitre ficou com Batar por mais uma temporada, Sanja voltou ao seu acampamento. Provavelmente, nunca mais nos veríamos, mas esta aventura... esta estranha jornada... tinha mudado, para sempre, a forma como "faríamos o caminho".