No último episódio contei-vos como havia viajado até ao Horizonte Consciente e nele havia conhecido Coloan, Mensageiro da Plenitude, para nós humanos, um espírito da natureza ou um dos velhos deuses. Mas convido-vos a reler os anteriores episódios para saberem do que falo.
Tudo isto tinha sido possível através do Ritual do Lanka. Ao mesmo tempo, Lynus Freire, velho amigo, também o tinha feito.
Hoje conto-vos como foi a sua experiência.
Tudo começou da mesma forma que eu. Sentou-se em posição de Lotus, nas margens do Matale. Foi-lhe dada uma taça com Lanka enquanto escutava mantras cantados por Shafil, Sacerdote Mestre de Eylin.
Contou-me que rapidamente perdeu os sentidos. Deixou de ouvir a voz de Shafil e acordou atordoado num enorme deserto calcário. Via tudo em tons de azulado celeste. Caminhou durante horas. Sentia-se perseguido. Decidiu parar e sentar-se a fitar o horizonte. Não percebia o que estava a acontecer. Do nada, do calcário emergiu uma rocha. Deve ter durado uns dez minutos até que esta parasse de aumentar o seu tamanho. Bem no centro, uma face formou-se. Era Taipua, o Espírito da Meia Luz, ou como se dizia no Horizonte Consciente, o Mensageiro da Meia Luz. Haviam alguns humanos que também o conheciam como Taipua, o Deus Encoberto. Basicamente, cabia a Taipua guiar o cosmos de todos os viajantes indecisos, perdidos na sua divagação, no meio caminho entre o dia e a noite. Ele guiava todos aqueles que ainda não sabiam se o caminho que faziam era uma jornada de bem ou de mal.
Não vou contar em detalhe a aventura de Lynus, mas o resultado do que procurava.
Quando procurou o Ritual do Lanka, Lynus procurava perceber o seu medo da solidão e a incapacidade que tinha de viver no seu silêncio. Era um personagem hiperativo, em permanente processo de iniciativa, sempre a procurar a empreitada seguinte.
Ao seu questionamento, Taipua deixou o seguinte saber:
-No final Lynus tudo se resume ao que significa decidir o que vem a seguir. Ninguém aprendeu, conquistou e realizou na solidão. Precisou de fazer o caminho das pedras, perder a face, equilibrar o seu tempo na partilha, no momento de aprendizagem com o Mestre, no abraço com o amigo que lhe revela que importa. Por outro lado, cada um tem de encontrar a sua ilha, aquela a que mais ninguém irá, onde o tempo para e onde o teu silêncio é confortável. O medo apenas te lembra que não existe “Eu” sem “Nós” e que para o “Nós” continuar a existir, o “Eu” precisa do silêncio em que pode escutar a liberdade de não decidir. Encontra a tua ilha.
Fiquei estupefacto com o que Lynus me contara. Que privilégio havíamos tido em viajar até ao Horizonte Consciente. Para nós, o Lanka tinha-nos relembrado o que era voltar a ser aprendiz, o que era a sensação de achar que falta sempre mais um capítulo pelo qual estamos ansiosos que chegue.
No próximo episódio conto-vos o fim desta história.
