💀 Diários das Ilhas - O outro significado da Morte - Parte IV

 



Nono dia por terras de Java, o Arquipélago dos Quatro Firmamentos Ancestrais, que guardavam os Quatro Poderes da Natividade: a tempestade; a noite; a morte; e a dualidade.

Estava numa aventura com o objetivo de aprender e dominar os Quatro Poderes da Natividade. Comigo viajava e partilhava esta demanda o Mestre Poeta e amigo, Rumi.

Já tínhamos passado por uma experiência de quase morte para chegar ao Firmamento da Tempestade e havíamos ficado estarrecidos com a grande biblioteca do Firmamento da Noite. Era agora a vez do Firmamento da Morte.

Este tratava-se de um monumento imemorial em forma de trono gigante erigido no Vulcão Matra, na ilha com o mesmo nome. O vulcão era o ponto mais alto da ilha, a mais de 4000 metros de altitude. Para lá chegar, teríamos de passar pelo desafio da Chuva das Trevas, uma tempestade constante feita de trovões e aguaceiros ondulantes que quase não te permite atingir o Firmamento da Morte. Rezam as crónicas que a maior parte dos que tentam passar a Chuva das Trevas se perdem nela para nunca mais serem vistos. Não havia relatos de qualquer história de sucesso em relação à passagem pela Chuva das Trevas.

Segundo os escritos ancestrais dos Sábios de Java, só depois de superar a Chuva das Trevas seria possível compreender o significado da morte enquanto Poder da Natividade. Toda a narrativa era tenebrosa, o que só nos entusiasmava mais.

Mais uma vez viajámos de javaya (barcaça típica das Ilhas de Java) entre ilhas.

À nossa espera estava Melu, um velho Sábio de Java (Clã que domina estas paragens), responsável pelo Clã dos Sábios de Java em Matra. Seria com ele que faríamos a primeira etapa até ao Firmamento da Morte.

Na primeira noite na ilha, fomos levados a visitar a sua costa. As águas eram de um azul claro intenso, luminoso, mas transparente. Aproveitámos para mergulhar e nadar para retemperar forças. Amanhã era o dia da "Morte".

Ainda antes do Sol nascer, partimos rumo ao Vulcão Matra. Eram 16 horas de caminho só até aos 3200 metros. A partir daí, entrávamos na Chuva das Trevas e estávamos por nossa conta. A caminhada foi dura, mas sem grandes percalços.

Ao longe, já conseguíamos ouvir os tambores do tempo a bater. Eram os trovões da Chuva das Trevas a fazerem-se ouvir. Antes da etapa derradeira, Melu segredou-nos:

— Durante o caminho, quando vos faltarem as forças e o alento, se pensarem que são uma gota na tempestade, lembrem-se: cada um de vós é a tempestade toda numa só gota.

Ainda sem perceber, aquela chamada de atenção iria fazer todo o sentido.

Eu e Rumi atámos duas cordas um ao outro para não nos perdermos. Verificámos os nós. Revimos as nossas armaduras e as couraças que havíamos vestido. Parecíamos preparados.

Vinha aí um dos momentos das nossas vidas. Entrámos num furacão de ventos cortantes, relâmpagos extremos e aguaceiros que mais pareciam uma muralha impenetrável. Evoluíamos passo a passo. Trocávamos várias vezes quem seguia à frente, de modo a partilhar o esforço. De repente... um trovão esventrou Rumi. Vi o meu amigo morrer à minha frente com o seu corpo a esvair-se na tempestade. Num segundo, o mundo parou. Paralisei, gritei para o universo surdo que me rodeava. O desespero governava-me. Sentia uma dor que me dilacerava corpo e alma. Por momentos, toda a vida me passou à frente. O que é que eu estava ali a fazer? Foi nesse ápice de insanidade e loucura que me lembrei do conselho de Melu. Fechei os olhos, evoquei o meu cosmos (aura energética interior que dá forma aos nossos poderes mágicos e metafísicos) e gerei uma bolha de energia avermelhada que me permitiu fazer o caminho até ao Firmamento da Morte, aquele enorme trono que governava o topo do vulcão Matra.

Quando pensava ter chegado, do nada, sem que qualquer forma de tempestade se avistasse, também eu era atingido por um trovão. A minha realidade cessara, eu não era mais.

Pois bem, mas esta história não acabaria aqui. Nessa noite, acordava no acampamento de Melu, e ao meu lado estava Rumi. O que havia acontecido? Que loucura era esta?

Melu acalmou-nos e explicou o fenómeno da Chuva das Trevas e do Firmamento da Morte:

— Meus amigos, hoje ambos viram o outro morrer. E perante o desespero, ambos decidiram que o caminho continuava. De gota irrelevante, cada um transformou-se na tempestade. Perante a morte, cada um escolheu renascer, voltar à vida.

Para que pudéssemos perceber o que nos havia acontecido, a Chuva das Trevas leva os seus caminhantes para um universo paralelo em que estes são colocados diante da sua atitude perante a morte. No nosso caso, cada um vira o outro morrer. E perante o pesadelo do momento, cada um fez prevalecer a sua melhor versão de guerreiro: aquela que, em vez de se deixar morrer, escolhe viver mais um dia para a batalha seguinte, na esperança de vencer a guerra. Na prática, nunca soubemos se chegámos ao topo do Vulcão Matra nem como aviamos voltado. Agora percebíamos porque não havia relatos de alguém ter terminado o desafio da Chuva das Trevas. Mas, no fim desta distópica aventura, estávamos realmente felizes. Percebemos que a coragem dos nossos corações estava na intensidade certa.

Faltava o último Firmamento, o Firmamento da Dualidade.

Para terminar este texto, volto a recordar as palavras de Melu: "Durante o caminho, quando vos faltarem as forças e o alento, se pensarem que são uma gota na tempestade, lembrem-se, cada um de vós é a tempestade toda numa só gota."