Terceiro dia pelas Ilhas de Java, mais concretamente na Ilha de Java Matre. Eu e o meu amigo Rumi havíamos partido para aprender e desvendar os Quatro Firmamentos Ancestrais, quatro locais de grande espiritualidade onde residiam os Poderes da Natividade: a tempestade; a noite; a morte; e a dualidade.
Como vos havia contado, a cada Firmamento estava associada uma prova e um saber ancestral. Hoje era o dia do Firmamento da Tempestade, na costa ocidental de Java Matre.
Pedimos ajuda a Loian, guerreiro e professor do Clã dos Sábios de Java. Ele era um profundo conhecedor do local e do desafio que tínhamos pela frente.
O Firmamento da Tempestade era um velho templo abandonado num ilhéu ao largo de Java Matre. O desafio residia em chegar até ele. O templo ficava no centro de uma cordilheira de rochas basálticas que o circundavam, debaixo de um fenómeno natural denominado Ciclone da Cegueira. O nome deste fenómeno atmosférico deve-se ao facto de gerar uma tempestade cerrada que não nos permite ver um palmo à frente. Este fenómeno natural cria ondas colossais e remoinhos tenebrosos. A única passagem para chegar ao Firmamento da Tempestade era um túnel estreito no mar, o Estreito do Cego.
Para lá chegarmos, tínhamos de dominar a arte de conduzir uma javaya, barcos de pesca únicos no mundo conhecido, com dois planadores laterais.
As primeiras horas do dia foram passadas junto de Loian, a tentar dominar uma javaya. Ao fim de algumas horas, achámos estar prontos. Estava na hora de enfrentar o segredo por detrás do Firmamento da Tempestade.
Lançámo-nos mar adentro. Os primeiros quilómetros foram calmos, mas, de repente, o tempo começou a mudar. Estávamos a entrar no Ciclone da Cegueira. As duas plataformas laterais davam à nossa javaya um equilíbrio razoável. Mas, num ápice, um remoinho tomou conta da nossa barcaça. Não dava para voltar atrás, e não conseguíamos perceber que direção seguíamos. De repente, sentimos a javaya a bater com estrondo no que parecia ser um rochedo. Fomos lançados violentamente à água. Lembro-me de ter perdido os sentidos.
Não sei quanto tempo passou, mas uma mão trouxe-me de volta à tona da água, e só ouvia a voz de Rumi a dizer: "Foca-te", "É já ali". Rumi, milagrosamente, conseguiu socorrer-me e nadar por entre o Estreito do Cego até ao ilhéu onde ficava o Firmamento da Tempestade. No meio da cordilheira de rochas vulcânicas, a tempestade era menor e suave. Parecia que estávamos perante uma cápsula protetora feita pelos extremos da natureza. Que cenário de brutalidade.
Deslocámo-nos até ao centro do Templo e orámos aos Deuses da Criação por aquele momento.
Regressar não foi menos difícil, mas estávamos de volta a terra firme.
Nessa noite, perante o nosso relato, Loian questionou:
— Meus amigos, enfrentaram a quase morte e foram capazes de ver a luz para além da sombra. Conseguem dizer-me o que aprenderam com a vossa viagem até ao Firmamento da Tempestade?
Rumi não hesitou e foi direto:
— É simples, Loian: Quando estiveres perdido na escuridão, procura dentro de ti. Tu podes ser a luz que ilumina o caminho.
As palavras de Rumi relembravam como a nossa chama interior deve ser a primeira resposta para os desequilíbrios que encontramos. A aventura e a tenacidade de Rumi haviam demonstrado isso naquele dia. A conversa continuou noite dentro. Depois fomos descansar. Amanhã era dia de ir para outra ilha e conhecer o Firmamento da Noite.
