Terceiro dia em Eylin, era a hora de ir visitar os espíritos da natureza e os velhos deuses através do Ritual do Lanka.
No último episódio destes diários contei-vos como funcionava. Tivemos de passar pelo Escrutínio Sagrado do Lanka, e depois de aprovados pelo Sacerdote Mestre de Eylin, era hora de nos perdermos rumo ao Horizonte Consciente.
O Sacerdote Mestre, de nome Shafil, desenhou uma figura circular no chão. Depois desenhou outra. Depois queimou sobre eles as folhas de palmeira onde havíamos escrito as nossas resoluções durante o Escrutínio Sagrado do Lanka. Tinham ambas a forma de uma flor de Lotus. Eu e Lynus fomos convidados a sentar-nos no centro.
Estávamos nas margens do Lago Maior de Matale, no coração do Vale de Dambala.
Sentamo-nos em posição de Lotus. Foi-nos dada uma taça com a mítica bebida. Fechamos os olhos e bebemos o Lanka enquanto escutávamos mantras cantados em voz distante por Shafil.
Rapidamente perdi os sentidos e deixei de ouvir a voz de Shafil. Aos poucos os meus olhos começavam a vislumbrar uma intensa luz alaranjada. Senti alguém a tocar-me. Ao abrir os olhos vi-me no topo de uma árvore, mais concretamente um enorme embondeiro com pelo menos 200 metros de altura. Tudo era alaranjado. Percebi que estava algures no Horizonte Consciente. Ao meu lado estava um estranho ser com cabeça e corpo de leão, mas com hábitos humanos na maneira como se movia e falava comigo:
- Abraham de Ethérnia, bem-vindo.
- Quem és tu? - retorqui
- Quem sou eu? Foste tu que me chamaste. As palavras que determinaste trouxeram-me até ti.
A primeira abordagem tinha sido embaraçosa, mas estava perante Coloan, o Espírito da Plenitude, ou melhor, o Mensageiro da Plenitude. Não vou revelar toda a nossa conversa, nem para que parte do Horizonte Consciente viajei, mas deixo aqui o que aprendi.
Coloan explicou-me que não existiam espíritos da natureza nem velhos deuses, apenas mensageiros do transcendente e cada um deles com uma missão diferente. A de Coloan era acompanhar os cosmos de viajantes como eu que procuravam a sua plenitude, ou como ele lhes chamou "ser o salvo conduto para os que buscam a iluminação". Mas na nossa conversa viajou muito para além das atribuições daquele iluminado ser. Partilhei com ele que procurava perceber o caminho da plenitude, de me aceitar por tudo o que sou. O que havia escrito e meditado no Escrutínio Sagrado do Lanka refletiam a minha busca. Eis o que partilhou Coloan:
- A plenitude é, ao contrário do que todos pensam, um estádio intermédio entre o princípio da aceitação e o da iluminação. Aceitar a nossa finitude, bênçãos e dons que nos libertam para o caminho da iluminação. Iluminação que significa o caminho da boa conduta, consistência, foco e evolução através do treino. O que te quero transmitir, meu novo amigo, é que a plenitude é aceitares o que já és para o que ainda podes ser.
Infelizmente, o nosso tempo no Horizonte Consciente é limitado e o meu estava a chegar ao fim. Coloan agradeceu-me aquele momento através de uma estranha, mas confortável, troca de energia cósmica. Sentia-me acarinhado e que tinha de ter estado naquele momento. Em breves momentos voltei à realidade.
Lynus havia voltado antes de mim, mas a experiência dele conto-vos no próximo episódio.
