Sétimo dia por Terras de Islam. Eu e Ant Elael estávamos de volta ao Templo das Lágrimas de Sangue. O regresso trouxe consigo o peso do silêncio que havíamos colhido no topo de Trevim na tentativa de reencontrar Mestra Lucile.
Deixar o Vale de Louzan para trás não significava esquecer a lição de Lucile; pelo contrário, as suas palavras gravadas no pergaminho ecoavam em cada passo da nossa jornada de volta, como um eco persistente nas nossas mentes.
Decidimos recolher-nos novamente no Templo das Lágrimas de Sangue para meditar. O entardecer despia-se das suas cores vibrantes, dando lugar a uma penumbra pálida que abraçava o grande embondeiro no epicentro do santuário. Foi sob o amparo daquelas raízes robustas, onde a bruma rasteira começava a dançar, que encontrámos uma silhueta familiar que não esperávamos ver.
Era Ruie, também conhecido como o Mestre das Palavras Perpétuas. Ruie era um Mestre Escrivão da Ordem dos Cavaleiros do Poder, responsável pelos registos históricos da Ordem e conhecido pela sua poderosa poesia.
Também ele cruzara o meu caminho anos antes, quando ambos éramos jovens aprendizes sob a tutela de Ant Elael. Ruie estava de visita a Islam para averiguar da boa condição dos velhos registos e pergaminhos guardados no Templo. O reencontro, embora inesperado, trouxe o conforto quente daqueles que partilham as mesmas fundações e memórias de juventude e treino.
Sentados os três nas mesmas raízes que outrora nos viram falhar e erguer, a conversa fluiu como as águas do Rio Mormon na Época Húmida. Recordámos os tempos de outrora, quando a Ordem dos Cavaleiros do Poder preenchia todo o nosso horizonte com promessas de glória, batalhas ocultas e uma busca incessante por quebrar barreiras invisíveis e causas inviáveis. Era fascinante notar como o mesmo ponto de partida nos conduzira a destinos tão distintos: Ant Elael permanecia como a rocha sábia e imóvel de Islam junto dos seus novos aprendizes no Templo das Lágrimas de Sangue; Ruie escolhera a sabedoria da poesia e a preservação da história e legado da Ordem dos Cavaleiros do Poder nos seus dias de Mestre Escrivão; eu, no meu caminhar introspetivo de viajante, continuava a tentar decifrar as geometrias invisíveis da alma e do tempo por todo o universo conhecido.
A dada altura, o olhar atento de Ruie fixou-se em mim, intuindo a densidade que eu trazia na bagagem após a subida a Trevim. Foi então que partilhei o destino de Lucile, a sua retirada mística em Louzan e a mensagem que nos deixara.
Ruie ouviu em silêncio. Quando terminei de narrar o último “ato de soberania” da nossa Mestra, ele suspirou longamente, desviando o olhar para a imensa copa do embondeiro.
— Sabes... — começou Ruie, com uma voz pausada e firme. — Perante a história que me contas, o que tenho para te dizer, é que, em alguma altura, todos temos direito ao egoísmo.
A palavra "egoísmo" ecoou com uma certa crueza naquele espaço sagrado, quase como uma heresia para os Mestres que nos haviam ensinado a dar a vida e tempo pelo equilíbrio do mundo. Ant Elael permaneceu sereno.
— Egoísmo? — questionei.
— Sim — ripostou Ruie, com um sorriso leve e desprovido de julgamento. — Mas não o egoísmo cego, aquele que destrói, que pisa ou que ignora o outro por mero capricho. Falo de um egoísmo sensato… Ao longo da nossa vida na Ordem, ensinaram-nos que não existem limites, apenas as fronteiras que somos capazes de transpor. Ensinaram-nos a ser escudos e espadas dos mais débeis, desafiando a nossa própria matéria finita. O egoísmo sensato e saudável é, na verdade, o manto da nossa própria preservação. É a coragem de olhar para o próprio espelho e perceber quando o nosso reservatório, o nosso cosmos, está perto de cessar ou quebrar.
Compreendia bem o que Ruie queria dizer. A minha vez também chegaria. A lição desenhou-se de forma clara nas minhas entranhas enquanto o vento da noite começava a ganhar forma:
"O egoísmo sensato não afasta o amor que temos pelos outros; ele estabelece a fronteira necessária para que esse amor não nos consuma até às cinzas. Saber retirar-se, fechar portas e escolher o próprio silêncio — como fez Lucile — não é um ato de deserção ou cobardia, mas sim o expoente máximo de respeito pela nossa própria história. É perceber que, para continuar a ser luz, não podemos permitir que a nossa chama se apague no altar das expectativas alheias. Se não soubermos exercer o egoísmo que protege a nossa essência, acabaremos, no tempo finito dos nossos dias, por ter pouco para oferecer a quem caminha connosco."
A noite chegara. A bruma de Islam cobria agora por completo o Templo das Lágrimas de Sangue. Estava em paz com a ausência de Lucile. Nessa noite, eu, Ruie e Ant Elael ceamos numa taberna local ao som dos cânticos solenes tradicionais de Islam.
Estava quase na hora de voltar a casa.
