Diários das Entranhas – “Se tens tempo, se tens sonhos, se ainda tens quem caminhe contigo, terá de chegar…” Parte I



Por estes dias, estava de volta a Islam, uma das minhas casas de treino, onde havia conhecido alguns dos meus principais Mestres. Antes de regressar a Islam, planeava parar por Anai, onde habitava um dos meus amigos de sempre: Flavius. Éramos amigos de infância; com ele, treinara as artes da escrita, da música e da caça ainda criança, em Ethérnia, muito antes de sonhar tornar-me mestre da Ordem dos Cavaleiros do Poder.

É sempre bom podermos parar um pouco para rever o que fomos naquela sequência de tempo em que ainda não conhecíamos, de forma concreta, a dualidade entre o bem e o mal.

Flavius não atravessava uma boa época. Tinha renegado o seu estatuto de Mestre da Ordem dos Cavaleiros do Poder e optara por dedicar todo o seu tempo à família e ao cultivo de vinhas. Era conhecido por produzir um dos melhores vinhos de Ethérnia, o Barriele.

Fui, como sempre, muito bem recebido.

Flavius levou-me, numa caminhada, pelo Vale Menor de Anai, onde tinha as suas principais vinhas. Estávamos na Época Húmida, quando as terras se deixam inundar pelo poderoso Rio Mormon.

— Como estás, amigo? Como tem sido a viagem neste novo caminho? — perguntei a Flavius sobre o rumo que havia escolhido.

— Para o caminho ser novo, ainda tenho de abandonar o velho — respondeu ele. — A paisagem é outra, mas o coração ainda se perde nos velhos atalhos.

— Como assim? — questionei.

— Nas minhas entranhas, ainda sinto o horizonte que deixei para trás. O meu instinto ainda me corrói. Lembro-me de como fui quase sempre eu a procurar, a dar espaço, a ir atrás de alguém, a permitir que o outro atravessasse a ponte comigo. É verdade que alguns fizeram a viagem ao meu lado, mas não deixa de doer sentir que não fui o suficiente no mundo de alguns e algumas que cheguei a amar. Sei que estou a revelar o meu lado mais vulnerável e limitante, mas isso também faz parte do que sou.

Conversámos durante horas sobre esta dor que, também eu, partilhava. Deixo-vos aquilo que penso e que redigi, em tempos, no meu Diário Simbólico:

“O mundo não tem tempo para a nossa falta de tempo. Vai chamar-nos, vai pôr-nos à prova; seremos a primeira, a segunda e a terceira opções. No fim do dia, a dor de quem amamos e nunca nos chama recorda-nos de que continuamos a ser finitos. A dúvida reside em integrar se é realmente de amor que falamos.

Perante as perguntas: 'Porque não se lembram de mim mais vezes?' ou 'Porque não me convocam mais vezes?', acreditem: somos nós que temos de chamar por nós — pelo que somos, pelo que sonhamos ser e pelo que fazemos acontecer.

Se tens tempo, se tens sonhos, se ainda tens quem caminhe contigo, terá de chegar (e, acreditem, está longe de ser pouco…). Porque chegar é apenas mais uma etapa do caminho que vem a seguir.”