Diários das Entranhas – Limites e Fronteiras… - Parte II


Após breve paragem em Anai para rever Flavius, prossegui viagem. Por estes dias, encontro-me finalmente em Islam, uma das minhas principais casas de treino.

No meu primeiro dia em Islam, a prioridade foi revisitar Ant Elael, um dos meus velhos Mestres. Havia uma conversa que precisava de ter: há anos que procurava reencontrar a Mestra Lucile, Mestra das Artes Avançadas da Guerra Oculta, mas esta nunca respondia às minhas solicitações. Lucile havia sido uma das minhas principais mentoras quando ainda era um aprendiz da Ordem dos Cavaleiros do Poder. Ant Elael era muito próxima dela e a pessoa que, acreditava eu, me poderia elucidar sobre a distância inexplicável de Lucile.

Nesse dia, marcámos encontro no Templo das Lágrimas de Sangue, junto ao grande embondeiro que reina majestosamente no seu epicentro. Encontrámo-nos perto da hora do pôr-do-sol. O dia tinha sido invadido por uma bruma suave e pálida, porém densa. Sentámo-nos a conversar nas raízes robustas do embondeiro:

— Como estás, nobre Mestre? — perguntei a Elael.

— Bem, meu amigo. É bom estar contigo outra vez. Sei que vens à procura de Lucile, mas não te vou conseguir ajudar. Há muito que também não me conecto com ela.

— É estranho — respondi. — Seria normal partir para um retiro, mas este tipo de desaparecimento, sem qualquer pista, é preocupante.

Ant Elael também não conhecia o paradeiro atual de Lucile, mas tinha uma história para contar: a sua última conversa com ela. Antes de desaparecer do mapa, Lucile encontrou-se de forma invulgar com Ant Elael e outros Mestres. Falou sobre a importância de perceber como colocar limites aos sonhos e ao tempo que passamos neles. Sentia que estava perto da partida para a sua viagem final e que era vital priorizar o que era realmente essencial. Falava da beleza dos limites e de como estes nos ajudam a valorizar o que sabemos não ser eterno.

Na Ordem dos Cavaleiros do Poder aprendemos que não existem limites, existem fronteiras que podes ou não ultrapassar. Voltar a ouvir falar deste conceito da boca de Lucile, levantava muitas questões. Mas não conseguia discordar do que ouvira.

Sem saber qual o próximo passo a dar, combinámos avançar até ao Vale de Louzan, uma das casas de Lucile. Talvez lá conseguíssemos obter mais pistas. No próximo capítulo, conto-vos o que descobrimos.