Diários das Entranhas – És Juiz ou Caminhante? - Parte V


O meu último dia de estadia em Islam não seria marcado pela quietude da despedida, mas sim pela celebração de um legado. Antes de voltar a casa, o Templo das Lágrimas de Sangue vestiu-se de solenidade para o lançamento da última obra de Ant Elael: «O Caminhante».

Seria um momento privado. O evento reuniu os poucos que compreendiam a verdadeira profundidade do Velho Mestre. A cerimónia teria lugar no largo do grande embondeiro, árvore que se erguia no centro do Templo das Lágrimas de Sangue. Ant Elael estava sentado sob a sua copa. A habitual bruma parecia respeitar o instante. Foi a partir daí que começou a sua dissertação. Partilhou com o mundo — que o reconhecia — uma parte oculta da sua essência. Lia diretamente do livro as seguintes palavras:

«…sem a verdadeira empatia pelo outro, sem o esforço consciente de perceber o que vai no lado oposto, qualquer julgamento que façamos será inevitavelmente injusto».

O livro retratava, sob a forma de testemunho, como passamos a vida a avaliar o mundo apenas pela capa, revelando a ironia de sermos, simultaneamente, vítimas magoadas e juízes implacáveis desse mesmo comportamento.

A essência da obra condensava, de forma despojada, tudo o que havíamos vivido nesses dias:

- O Erro do Julgamento: Julgamos o afastamento como abandono ou o silêncio como indiferença, sem ver a dor oculta sob a capa do outro.

- A Dualidade Humana: Condenamos no próximo as defesas que nós próprios usamos para sobreviver, agindo como juízes de uma causa que também nos vitimiza.

Também Ruie, o Mestre das Palavras Perpétuas, havia-se juntado a nós. Durante a cerimónia, coube-lhe recitar fragmentos da obra, numa espécie de súmula do que Ant Elael pretendia partilhar.

Foi então que o inesperado aconteceu. Por entre as colunas de pedra do Templo, uma silhueta delicada emergiu da penumbra. Era a Mestra Lucile. Ela, que havia escolhido o silêncio absoluto nas colinas de Louzan, reaparecia naquele momento.

Aquele instante parecia uma passagem do livro que Elael apresentava. Lucile sabia impor os seus limites e recolher-se, mas a sua empatia e ligação profunda com Ant Elael e com a nossa «fraternidade» fizeram-na regressar quando o amor assim o exigiu.

Mas o momento-chave do dia ainda estava por chegar. No final da cerimónia, todos nos detivemos em silêncio diante do abraço terno e intenso entre Lucile e Elael.

Estava na hora de voltar a casa.

Tinham sido dias para me despertar as entranhas e recordar a minha humilde dualidade. Para terminar, deixo-vos com uma das frases de Elael durante a apresentação do livro … e que de certa forma retratava estes dias:

"Julgar o outro é apenas o reflexo da nossa incapacidade de nos olharmos por dentro; a verdadeira jornada começa quando despimos o juiz para podermos, finalmente, acolher o caminhante."