Diários das Entranhas – "Eu sou agora o silêncio que escolhi ser..." Parte III

 




Quinto dia de viagem. Depois de Anai e Islam segui-a-se o Vale de Louzan. Estava numa viagem em que pretendia rever alguns dos meus Velhos Mestres dos meus tempos de aprendiz da Ordem dos Cavaleiros do Poder, uma em particular, Lucile.

Depois de ter reencontrado Ant Elael em Islam, pretendia rever Lucile. Estava desaparecida, ninguém sabia para onde havia ido.

Na última história destes diários contei-vos que havia uma conversa que queria ter com Lucile. Na última vez que nos havíamos encontrado ela havia-me falado da importância de nos sabermos retirar. Depois disso, entender a retirada, perceber o que significa foi um tema que me começava a preencher o coração. Quando achava ter chegado a uma conclusão decidi recorrer a Lucile e aos seus ensinamentos. Mas esta, simplesmente, havia desaparecido.

De volta a Louzan, em busca de Lucile, o nosso ponto de paragem seria o seu refúgio de treino, uma velha ermida abandonada no alto de Trevim, a montanha mais alta do Vale de Louzan.

A subida foi o início de uma nova provação. O ar tornava-se rarefeito à medida que a altitude aumentava, e o silêncio das encostas parecia carregar o peso das palavras que a minha velha Mestra deixara por dizer.

Acompanhado por Ant Elael, cheguei ao refúgio que outrora fora o santuário de treino de Mestra Lucile. A edificação, esculpida na rocha viva e rodeada por cedros centenários, parecia respirar em uníssono com a montanha. O espaço, embora abandonado, estava cuidado. Esculpido num velho dialeto de Islam, por cima da porta de entrada semidestruída, existia uma tábua de madeira onde se lia: "A entrada é o primeiro limite."

Ao entrarmos, fomos recebidos pelo aroma a alfazema seca e o som distante de água a correr. Não havia sinais que alguém ali estivesse estado em muito tempo; tudo estava numa ordem quase sagrada. Em cima de uma mesa de carvalho, repousava uma pena e um pergaminho lacrado.

— Ela sabia que viríamos — sussurrou Ant Elael.

Abri o pergaminho. Era um dos escritos de Lucile. Eis as suas palavras:

"A maior batalha da Guerra Oculta não é contra o inimigo que nos quer destruir, mas contra o ego que nos impede de aceitar o fim das estações.

Durante a minha vida, ensinei-vos a romper barreiras e a conquistar horizontes. Hoje, ensino-vos a fechar portas. Existe uma dignidade imensa em saber quando o nosso tempo num lugar, ou na vida de alguém, terminou. Retirar-me não é uma deserção; é o último ato de soberania sobre o meu próprio destino.

Procurem-me no vento que sopra nas colinas de Louzan, mas não tentem prender-me em formas ou expectativas. Eu sou agora o silêncio que escolhi ser."

Aquela descoberta deixou-nos sem palavras. Percebi que o desaparecimento de Lucile era, na verdade, a sua obra-mestra: a demonstração prática de que os limites são o que dão contorno à nossa existência. A conversa que precisava ter com ela havia ganho um epilogo dramático.

Olhei para Ant Elael e vi nele a mesma compreensão que me atingia: a jornada para encontrar Lucile tinha-nos trazido, de alguma forma, de volta a nós próprios. O rastro de Lucile em Louzan não era de fuga, mas de uma liberdade que poucos Mestres da ordem Cavaleiros do Poder tinham a coragem de abraçar.

O dia estava a terminar, decidimos pernoitar por ali. Na minha mente revelava-se o pensamento de que algumas ausências são mais presentes do que muitas companhias. Mas as minhas aventuras nesta viagem não ficariam por aqui. No próximo episódio deste diário partilho o que se seguiu.