Diários de Gobi - O Oásis das Mil Dúvidas - Parte IV





Sétimo dia por terras de Gobi. Íamos a caminho da Elevação de Orkun, rumo ao Templo Ancestral de Khan. Estávamos à procura do nosso velho amigo, Mestre Batar, à muito desaparecido. Eramos orientados por um falcão cedido pelo Guerreiro Mor da Tribo Mogul com quem nos havíamos deparado na nossa viagem.

Estava eu, Bottelli, Edh e um amigo inesperado, Sanja.

Depois de Kakorum e a Tribo de Mogul, as pistas apontavam para o mítico Templo.

Na base de Orkun erguia-se um espetacular Oásis, o Oásis das Mil Duvidas. Este rodeava toda a Elevação. Seria o nosso último ponto de paragem antes da vertiginosa subida. Reza a lei de Khan (divindade que dá razão de ser ao Templo) que apenas poderás entrar na Elevação de Orkun se superares o Desafio das Mil Dúvidas. O exercício consiste em mergulhar no espelho de água do Oásis, nadar até à sua pequena ilha interior e enfrentar a “dúvida que não estás à espera”. Não sabíamos bem o significado, mas o tempo tudo revelaria.

Chegados ao Oásis, o falcão Mogul parou no topo de uma palmeira. Olhou para nós em sinal de despedida e partiu. O seu trabalho estava feito. Demos por nós entre uma imensa selva. Para chegar ao espelho de água era preciso trepar entre enormes raízes, ultrapassar vegetação densa e em alguns casos trepar de árvore em árvore. Foi complicado, mas lá chegamos. Eu, Edh e Botteli fizemos com alguma agilidade, Sanja, menos treinado nestas lides, teve alguma dificuldade.

Para nosso espanto haviam mais forasteiros por estas estranhas paragens. Um pequeno acampamento estava montado mesmo em frente ao espelho de água. Alguém meditava em silêncio em frente ao lago. Montamos acampamento um pouco mais acima para respeitar o seu espaço.

Já com o Sol a pôr-se o desconhecido aproximou-se de nós:
- Mestres da Ordem dos Cavaleiros do Poder, quem diria que vos encontraria por aqui. O que vos trás às terras de Gobi?

Mais uma vez havíamos sido reconhecidos. As nossas insígnias denunciaram-nos. Entre nós estava agora Buitre, suposto aprendiz de Batar. Depois de já termos ouvido falar dele algumas vezes, estávamos finalmente perante aquela exuberante personagem.

Buitre convidou-nos a sentar com ele. Contamos ao que íamos. Também ele tinha o mesmo objetivo, perceber o paradeiro de Batar. Mas o seu caminho estava bloqueado. Não era capaz de superar o Desafio das Mil Dúvidas. Contou-nos que sempre que mergulhava no lago nunca era capaz de chegar à sua ilha interior. Quanto mais nadava mais ela parecia afastar-se. Tentou não fazer o Desafio e mesmo assim subir a montanha, mas era impossível. O Oásis era um labirinto que rodeava toda a Elevação de Orkun. Por mais que tentasse voltavas sempre ao mesmo sítio. Das várias tentativas que fez, cedo percebeu que só vencendo o Desafio das Mil Dúvidas era capaz de encontrar o caminho de entrada na montanha. 

Ficamos todos intrigados, mas não íamos desistir. Decidimos esperar pela manhã seguinte.

Ao primeiro raiar do Sol, lá estávamos nós, prontos para o impossível. Bottelli foi o primeiro a tentar. Seguiu-se Sanja e por fim Edh. A todos aconteceu o mesmo que Buitre. Seria tudo uma ilusão ou uma tarefa impossível. Foi aí que tive uma ideia absurda. Lembrei-me de uma das mais importantes lições que Batar partilhara connosco. Ele dizia, "Dúvida do caminho, mas não deixes de o fazer. Se não és capaz de chegar ao teu destino pelo caminho que consegues ver, é porque ainda não deste importância ao que não consegues ver. A entrada tanto pode estar na luz como na escuridão." Fechei os olhos, mergulhei, e não os voltei a abrir. Nadei até esbarrar contra algo que parecia ser uma margem. Do nada, estava na ilha no centro do espelho de água. No seu centro, entre alguns arbustos, uma entrada com uma enorme escadaria. Percebi que tinha encontrado a entrada para o Templo Ancestral de Khan. Ele não estava no topo da montanha, estava debaixo dela.

Estava radiante, mas tinha de voltar ao grupo para dar a notícia e explicar como avançar. Quando tentei voltar aconteceu o mesmo que tinha acontecido aos meus companheiros. Quando estava a tentar chegar, nunca chegava à margem. Percebi que a forma como havia chegado era a forma como havia de voltar. Confiei na minha intuição. E assim foi.

Já de volta com os meus companheiros contei o que havia sucedido. Contei como o velho ensinamento de Batar me inspirara. Todos estavam radiantes. Mas uma dúvida imperava, teria eu vencido o Desafio das Mil Dúvidas. Acho que todos ficaríamos na dúvida. Decidimos descansar o resto do dia. Amanhã avançaríamos para o que achávamos ser o caminho para o Templo Ancestral de Khan.