Estava nos meus últimos dias pelas Terras de Eger, apelidadas de Terras da Planície Infinita. Estava aqui, como vos tinha contado, para estudar as Escrituras da Planície com Pyrus e Fed, Mestres Conselheiros da Ordem dos Cavaleiros do Poder.
Parte do meu tempo havia sido dedicado a estudar as noções de oportunidade, alma gémea e busca. Tinha ainda interpretado e refletido acerca do conceito de Essencial e a relevância de antecipar a versão que queremos revelar.
A minha ultima lição seria sobre a capacidade de renascer, o verdadeiro recomeçar. A este respeito Pyrus levou-me a conhecer Guetus, Mestre Mor do Mosteiro de Gyor, na parte nordeste de Eger.
Guetus era conhecido como Mestre dos Sabores, devido à sua paixão pela arte de cozinhar. Passava boa parte do seu tempo a experimentar novos temperos e novas experiências gastronómicas. Usava os novos pratos que confeccionava e o seu processo como forma de partilhar filosofia e conhecimento com os seus aprendizes.
Fomos muito bem recebidos. Guetus era um anfitrião fervoroso. A nossa tarde seria dedicada a aulas de culinária. Guetus tentou ensinar-me a cozinhar Knuts, uma espécie de queque de vegetais. À quarta vez lá consegui apresentar algo com alguma dignidade. Pyrus, com algum humor negro, achou que o meu cozinhado tinha o estatuto de razoável.
À noite, Guetus presenteou-nos com um majestoso repasto. Durante o nosso jantar o mesmo referia-se ao conceito de renascer como o ato de cozinhar algo novo. Partilhava conosco que sempre que escolhia criar um prato novo, tudo recomeçava. O que havia feito deixava de contar, um novo tempo emergia. Na vida, contava ele, não é tão simples como cozinhar, mas os poderes a que tínhamos de recorrer eram os mesmos. A este respeito, repetiu o que vinha escrito nas Escrituras da Planície: "Renascer é o exercício mais complicado que alguma vez irás enfrentar. Renascer significa que de alguma forma morreste e voltaste à estaca zero, ao início dos inícios. O segredo está em duas formas de poder muito difíceis de dominar, a coragem e a disciplina. A coragem para aceitar tudo que ficou para trás e a disciplina para perceber que tudo demora tempo." Era simples, mas clarificador.
Os meus dias em Eger chegavam ao fim.
