Diários da Planície - Renascer... - Parte IV

Estava nos meus últimos dias pelas Terras de Eger, apelidadas de Terras da Planície Infinita. Estava aqui, como vos tinha contado, para estudar as Escrituras da Planície com Pyrus e Fed, Mestres Conselheiros da Ordem dos Cavaleiros do Poder.

Parte do meu tempo havia sido dedicado a estudar as noções de oportunidade, alma gémea e busca. Tinha ainda interpretado e refletido acerca do conceito de Essencial e a relevância de antecipar a versão que queremos revelar.

A minha ultima lição seria sobre a capacidade de renascer, o verdadeiro recomeçar. A este respeito Pyrus levou-me a conhecer Guetus, Mestre Mor do Mosteiro de Gyor, na parte nordeste de Eger. 

Guetus era conhecido como Mestre dos Sabores, devido à sua paixão pela arte de cozinhar. Passava boa parte do seu tempo a experimentar novos temperos e novas experiências gastronómicas. Usava os novos pratos que confeccionava e o seu processo como forma de partilhar filosofia e conhecimento com os seus aprendizes.

Fomos muito bem recebidos. Guetus era um anfitrião fervoroso. A nossa tarde seria dedicada a aulas de culinária. Guetus tentou ensinar-me a cozinhar Knuts, uma espécie de queque de vegetais. À quarta vez lá consegui apresentar algo com alguma dignidade. Pyrus, com algum humor negro, achou que o meu cozinhado tinha o estatuto de razoável.

À noite, Guetus presenteou-nos com um majestoso repasto. Durante o nosso jantar o mesmo referia-se ao conceito de renascer como o ato de cozinhar algo novo. Partilhava conosco  que sempre que escolhia criar um prato novo, tudo recomeçava. O que havia feito deixava de contar, um novo tempo emergia. Na vida, contava ele, não é tão simples como cozinhar, mas os poderes a que tínhamos de recorrer eram os mesmos. A este respeito, repetiu o que vinha escrito nas Escrituras da Planície: "Renascer é o exercício mais complicado que alguma vez irás enfrentar. Renascer significa que de alguma forma morreste e voltaste à estaca zero, ao início dos inícios. O segredo está em duas formas de poder muito difíceis de dominar, a coragem e a disciplina. A coragem para aceitar tudo que ficou para trás e a disciplina para perceber que tudo demora tempo." Era simples, mas clarificador.

Os meus dias em Eger chegavam ao fim.