Por estes dias estava de volta à grande viagem. E desta vez posso afirmar que viagem seria mesmo grande, longa e exigente. Partira rumo aos limites do universo conhecido, mais concretamente para Zhao, também conhecida como a Terra da Grande Muralha, por estar toda circundada pela maior muralha concebida pela mão humana.
Para além disso Zhao era a terra da Fonte Viva, o local onde a energia Ki mais se fazia sentir.
E perguntam aqueles que nunca me leram: o que é a energia Ki?
O Livro do Elementos ensina-nos que a energia Ki é a energia vital que habita em todos os seres vivos e que os interconecta permitindo que a transcendência e a existência se correlacionem. Quando estudamos e treinamos para sermos mestres e aprendizes da Ordem dos Cavaleiros do Poder, a parte da jornada que é mais exigente é descobrirmos o nosso Ki, a capacidade de nos conectarmos com os elementos, com a Natureza, com a essência da Vida. Só depois somos aceites no seio da Ordem dos Cavaleiros do Poder. Mas não pensem que a busca fica por aqui. Aprender a manipular e equilibrar o nosso Ki implica uma jornada interminável, uma busca incessante pela nossa melhor versão. É o Ki que possibilita realidades como a magia, ascender a mundos paralelos e perceber as Leis da Coexistência, as que nos ensinam como viver num mundo em que a magia e a lógica andam lado a lado.
Reequilibrar o meu Ki era também o objetivo desta viagem. Vinha sozinho, queria estar a sós com a minha solidão e o
meu silêncio. Pretendia esbater as barreiras do meu próprio tempo e dilacerar alguns monstros que caminhavam comigo em sentinela perdidos na minha mente fraca e confusa.
Foram muitos dias de caminho. Pelo meio tive momentos da viagem que foram em canoa, apanhei ainda um balão de ar quente, mas a maior parte da viagem, foi feita a cavalo.
Estava finalmente às portas de Zhao. E que visão majestosa era aquela. As sumptuosas montanhas eram todas guarnecidas pela Grande Muralha. Não era possível ver o seu fim. Era uma espécie de enorme serpente de pedra elegantemente desenhada até o horizonte perder de vista. O meu primeiro destino era Jing. Pernoitaria por ali antes de avançar até à Cidade Proibida, território da chamada Fonte Viva.
Ia sem plano, o que tivesse de ser seria.
Nessa noite decidi jantar numa das muitas tabernas de Jing. Pedi ao taberneiro uma sopa e água. Não estava com muita fome. Enquanto ceava uma voz fez-se ouvir:
- O que traz o Mestre Dragão de Fogo a estas paragens?
Paralisei durante alguns segundos. A voz era inconfundível. Era Goe, meu amigo e antigo aprendiz da Ordem dos Cavaleiros do Poder, que apesar das suas aclamadas capacidades nunca havia chegado a Mestre da Ordem por escolha própria.
- Goe!!!! Estás um pouco longe de casa. O que traz a Zhao?
- Estou aqui há já algum tempo. Vim reaprender as Leis da Coexistência, velho amigo. – replicou Goe.
- Pretendes finalmente ser Mestre?
- Nem por isso meu amigo. Vim só reequilibrar o meu coração dormente. Ele estava a precisar de espaço e alcance... Mas deixemos de falar de mim. Acabaste por não responder à minha pergunta. O que te traz por cá?
- Acho que estamos aqui pelas mesmas razões. Vim procurar o silêncio e alento que me anda a faltar. Sinto o meu Ki adormecido.
- Não sei se estás no destino certo, mas compreendo o que dizes. Vivemos tanto tempo na nossa própria ilusão que chegamos a um ponto em que já não percebemos onde queremos estar. Uns aprendem com estrondo e dor, outros têm a sabedoria de parar para voltar a olhar o horizonte. Outros, nunca mais chegarão a tempo. Espero que encontres o que vieste procurar.
Depois desta conversa introdutória ficamos horas a falar e a recordar as nossas aventuras. Quase a ir, abracei Goe e convidei-o a vir comigo. De início ficou pensativo, mas acabou por aceitar. Acho estávamos os dois perdidos à procura que o tempo nos revelasse o destino mais ou menos planeado. Mas deste dia ficavam as palavras de Goe na taberna. Lembrou-me que até podia estar perdido no caminho, desde que a direção não fosse apenas a minha própria e limitante ilusão.
