Terceiro dia por Terras de Zhao. Depois de uma longa viagem, estava em Jing, uma das cidades porta de entrada no território. No meio da aventura, reencontrei Goe, meu velho amigo e companheiro de guerra. Um antigo aprendiz da Ordem dos cavaleiros do Poder que nunca quis ascender a Mestre da Ordem. Convidei-o a fazer o resto da viagem comigo, situação que aceitou relutantemente.
Havia partido para Zhao com o intuito de reequilibrar o meu Ki, a energia vital que liga todos os seres vivos. Convido-vos a ler o capítulo anterior para perceber a importância da também denominada energia da Vida.
E, como já vos havia contado, era em Zhao, mais em concreto na Cidade Proibida, que se encontrava a Fonte Viva, local onde a energia Ki mais se fazia sentir. Esperava encontrar algumas respostas, ou pelo menos voltar com novas perguntas.
Íamos a caminho da Cidade Proibida sem um plano. Mais não fosse, meditar junto da Fonte Viva era já em si um momento marcante.
Na viagem ate à Cidade Proibida, Goe convidou-me a fazer a muralha norte de Zhao. Com um pouco de sorte seriamos capazes de ver os Desfiladeiros da Plenitude, só possíveis avistar quando o sol atinge a posição mais alta do dia. Só aí a luz atinge a simetria perfeita capaz de desvendar ao longe a imponente visão de uma travessia dourada interminável. O resto do tempo o Desfiladeiro era uma apenas uma enorme fenda perdida nas sombras.
A saida de Jing ficava uma das entradas para a Grande Muralha. Servia todo o perímetro de Zhao.
Era mais ou menos meio dia de caminho até ao ponto onde era possível avistar o fenómeno de que Goe falara.
O caminho era quase todo subir. Em algumas partes eramos obrigados a escalar. Quanto mais subíamos, mais incríveis eram as visões do horizonte. O emaranhado de verde luminoso era cada vez mais intenso. A floresta que circundava Zhao era luxuriante e imensa. Eramos agora capazes de ver a Grande Muralha a recortar todas as colinas que rodeavam os domínios de Zhao.
Chegamos ao local pretendido um pouco mais cedo que o esperado. Estávamos exaustos. A subida, embora extenuante, havia valido a pena. Estava calor, mas uma brisa suave ajudava a suster a temperatura que se fazia sentir. Sentamo-nos a espera do momento.
Goe aproveitou para me contar a lenda do Desfiladeiro da Plenitude.
- Sabes Abraham, reza a lenda que no desfiladeiro se esconde a alma do último imperador de Zhao. Segundo os antigos, o velho líder era benevolente e bondoso, mas sofria do medo da solidão e invisibilidade. Apesar do lugar de destaque, fazia tudo o que podia para manter por perto os que mais amava. Dava-lhes presentes e proporcionava-lhes as mais extravagantes experiências. Era disponível e intenso. Tinha medo que cada momento fosse o último e que tudo o que havia dado não fosse o suficiente. Mesmo assim, as pessoas acabavam por se ir embora. Umas de forma natural, outras porque o tempo da relação havia chegado ao fim. Um dia o sistema imperial colapsou. De um dia para o outro a maior parte dos que o acompanhavam desapareceram. O seu lugar de destaque já não existia. Apenas alguns, entre eles alguns bem improváveis, ficaram. O agora antigo imperador pensava em todo o tempo sem significado que havia dado a quem partira sem deixar rasto. Num sofrimento incomensurável refugiou-se no Desfiladeiro da Plenitude. Determinou que a partir desse dia apenas uma pequena parte do seu tempo seria dedicado ao mundo dos que ainda amava. Seria a hora em que o sol atingia a posição mais alta. Só aí era possível encontrar a entrada para o Desfiladeiro.
Era uma história melancólica, mordaz, mas mais comum do que imaginámos.
Seja enquanto mestres ou aprendizes, não são raras as vezes que dedicamos o “tempo para além do tempo” aos que estão apenas de passagem. Dá-mos demais, vamos para além do necessário, só porque temos medo de nos tornarmos invisíveis e sós. E mais grave, esquecemo-nos de quem a nosso lado sempre nos dedicou o seu amor incondicional. Confundimos a sua dedicação com rotina. Percebemos, perante a nossa frustração, que não somos proprietários de nada nem ninguém, independentemente do lugar que ocupamos temporalmente. A grande capacidade que todos gostaríamos de dominar era sermos capazes de perceber a quem realmente deveríamos dedicar o nosso tempo valioso. Mas sabia que não havia fórmulas absolutas para este intento.
A este respeito lembrei-me de uma velha lição do Livro dos Elementos: "Dá tudo o que quiseres sabendo sempre que só te será devolvido o que os outros em liberdade te quiserem dar..."
Reflexões à parte, a hora do avistamento do Desfiladeiro da Plenitude havia chegado. E que visão. Naquele momento uma acalmia melancólica tomou conta de mim. Conseguia sentir o local e a sua profundidade. O meu Ki fazia-se sentir. Ao longe parecia ver uma sombra muito reduzida e desvanecida. Pensei para mim, deve ser o antigo imperador à espera dos que ama.
Depois daquele momento, e enquanto o Desfiladeiro voltava à penumbra, abracei Goe e agradeci-lhe.
A próxima paragem seria Xian, no planalto central de Zhao e a Escola dos Guerreiros da Benevolência, velha ordem guerreira que protegia os pergaminhos das Leis da Coexistência, as que ensinam como equilibrar e interpretar a energia Ki.
