Diários do Ki - Talento e Ação – Parte V

 



Décimo segundo dia por terras Zhao. Começamos por Jing, enfrentamos a Grande Muralha, treinamos na Escola dos Guerreiros da Benevolência em Xian e regeneramos o nosso Ki na Fonte Viva na Cidade Proibida.

Peço a quem ainda não leu os capítulos anteriores que o faça para perceber o alcance desta jornada épica.

Antes de regressar pretendíamos fazer uma paragem nas Montanhas de Guillin, onde habitavam os Monges do Silêncio Eterno. Queríamos ter o privilégio de treinar com eles as artes do verdadeiro Silêncio.

Gullin era uma cordilheira de montanhas saído de uma pintura encomendada aos Deuses da Criação. De forma ondulante e de um verde dourado, era um cenário de encantamento imortalizado por pintores e trovadores, muitos deles também Monges do Silêncio Eterno. Era um recanto do universo conhecido de rara beleza e ainda com muito pouca mão humana.

Os nossos dias de treino do autoconhecimento superior, dos desníveis do nosso lado negro e das formas de reequilibrar o nosso Ki (energia da vida que interconecta todos os seres vivos) tinham revelado que o apego era a raiz das nossas maiores chagas, dos nossos sofrimentos mais recalcados.

Chegados a esta conclusão, voltar à vida do silêncio, à versão em cada um de nós basta como companhia de si mesmo, era parte do trabalho de casa. Para isso precisamos de voltar a treinar o nosso foco e atenção plena. Por esse motivo queríamos terminar a nossa viagem junto dos Monges do Silêncio Eterno.

Foram dois dias de barco até ao sopé das Montanhas de Guillin. Depois era mais meio dia de caminho, montanha acima, até ao Tempo da Flauta Eterna, casa dos Monges do Silêncio Eterno. O líder dos Monges era Yugur, que ocupava a posição de Sacerdote Mor.

Fomos muito bem recebidos. Yugur como que já estava à nossa espera. Nessa noite fomos convidados para um jantar ao luar.

Nos dias seguintes, fomos desafiados a treinar a Meditação Plena. Os exercícios eram variados. Desde contemplar uma paisagem luxuriante no horizonte próximo em total silêncio e foco a treinar o arco e flecha na direção de alvos em movimento. O silêncio era permanente. Só durante as refeições tínhamos a oportunidade de comunicar. Todas as instruções eram dadas por gestos e olhares. A delicadeza e cerimónia em cada momento era regra. Entre momentos aproveitávamos para voltar a estudar os nossos apontamentos sobre as Leis da Coexistência.

Mas foi o exercício do arco e flecha que me fez voltar ao meu foco e atenção plena. Empunhava o arco, fechava os olhos, corrigia de forma natural a minha postura e deixava os meus sentidos equilibrarem-se. O vento era suave, os meus pés estavam firmes no solo e sentia os elementos como parte de mim. Abria os olhos, fitava o alvo em movimento (tratava-se de alvo pendurado nos galhos de um enorme loureiro que fluía ao sabor do vento) e fazia o tempo parar. Um segundo tornava-se numa eternidade que me fazia compreender cada detalhe. De repente não havia arco e flecha, eu era o arco e a flecha. No momento exato disparava a flecha e acertava o alvo em cheio. Fui capaz deste resultado várias vezes.

Após estes últimos dias sentia o meu coração mais leve, o espírito mais limpo e o relógio do tempo esquecido. 

Numa das noites Yugur convidou-nos para um chá. Entre os Monges do Silêncio Eterno, tomar chá era o momento de recolhimento mais importante em grupo. Nessa noite questionou-nos:
- Estais quase de partida. Mas antes do vosso regresso gostava que partilhassem comigo o que de mais valioso aprenderam.
Goe não se deteve:
- Meu novo amigo, esta foi uma viagem ao início do caminho, ao regresso do que é essencial. Reaprendi que não somos os nossos pensamentos e medos, somos o que fazemos a partir das escolhas que fizemos. Lembrei que a dor é inevitável, sofrer é opcional porque tudo é transitório. Por fim, ficou claro que o meu apego levou-me a que perdesse muito tempo a viver na minha insatisfação inócua.
Eu, em silêncio, refletia o que havia de dizer.
Yugur provocou-me:
- E tu Abraham, o que nos contas no teu silêncio?
- Foram tantas as aprendizagens que não consigo priorizar. Mas sinto que uma fica mais que as outras. Percebi que não existe conflito nem confusão quanto alinhas os teus talentos com os teus atos.
Yugur acenou com um ar surpreendido às minhas palavras. Por fim deixou-nos um último tesouro:
- Antes de irem gostaria de vos ensinar o que significa a disciplina para um Monge do Silêncio Eterno. Ela é a base de todo o nosso treino. Para nós a disciplina é o caminho da Paz Eterna e dessa forma, do Silêncio Eterno. Só aí somos capazes de viver na plenitude. Mas só se atinge a verdadeira disciplina através de um triângulo virtuoso: o da paciência, da abnegação e da determinação.

Os nossos dias por Zhao chegavam ao fim. Desta vez a bagagem ia mais leve, dando espaço para voltar ao caminho, sabendo que o meu propósito se voltaria a revelar.