Sexto dia por terras de Zhao. Estava em viagem com o meu companheiro de caminho Goe em busca de reequilibrar o meu Ki. Só para vos lembrar, o Ki é a energia vital que habita em todos os seres vivos e que os interconecta permitindo que a transcendência e a existência se correlacionem. É a relação que temos com o nosso Ki que nos permite a capacidade de nos conectarmos com os elementos, com a Natureza, com a essência da Vida.
Depos de Jing e termos explorado a Grande Muralha era a vez de Xian, no planalto central de Zhao, e a Escola dos Guerreiros da Benevolência.
Vínhamos em busca de aprender mais sobre os pergaminhos das Leis da Coexistência, as que ensinam como equilibrar e interpretar a energia Ki. Estes estavam protegidos pelos Guerreiros da Benevolência. Pelo caminho ouvimos alguns peregrinos falar de Mestre Chai Len, e da sua fama como Magna Professor das Leis da Coexistência e Mestre da Escola dos Guerreiros da Benevolência. Naquele momento o nosso objetivo passou a ser conhece-lo e, com alguma sorte, aprender com ele.
Chegados a Xian, os nossos primeiros momentos foram a conhecer os arredores e a procurar refúgio para pernoitar. No dia seguinte, mal o sol nasceu, fomos diretos a Escola dos Guerreiros da Benevolência. A entrada era uma enorme torre de sete andares, majestosa e em forma piramidal. Pedimos gentilmente para sermos recebidos por Chai Len. Perguntaram se tínhamos audiência, a resposta era óbvio. Perguntaram-nos ao que vínhamos. Não sabíamos bem o que responder. Não me detive:
- Nobre amigo, somos peregrinos e Mestres da Ordem dos Cavaleiros do Poder. Viemos em busca de aprender com Mestre Chai Len as Leis da Coexistência. Qual é probabilidade de ele nos receber?
Quando o funcionário ouviu Mestres da Ordem dos Cavaleiros do Poder pediu para esperarmos. Alguns minutos após, e depois de confirmar as nossas credenciais, convidou-nos a subir ao sétimo andar da pirâmide que servia de entrada para a Escola.
Perante uma pilha de enormes livros lá estava Chai Len. Estava à espera de alguém mais idoso, mas fomos recebidos por alguém que devia ter a nossa idade.
Chai Len mostrou-nos as incríveis vistas de Xian do alto da pirâmide. A conversa fluiu com naturalidade:
- A que devo privilégio desta visita? - perguntou Chai Len.
Explicamos as nossas aventuras dos últimos dias e o que ali nos trazia. Sentíamos que aprofundar o nosso conhecimento sobre as Leis da Coexistência nos poderia ajudar a reequilibrar o nosso Ki. Chai Len deu-nos uma ampla explicação das Leis da Coexistência, mas, entretanto, parou:
- Meus amigos, sinto que não vieram à procura disto. Sinto que não vos estou a dar nada de novo.... Fazemos assim. Logo, um pouco antes do por do sol procurem-me novamente.
De facto, o que nos estava a contar era algo que já sabíamos, as traves mestras das Leis da Coexistência. Tínhamos sido obrigados a aprender cada uma delas durante o treino na Ordem dos Cavaleiros do Poder. Cada um de nós procurava algo mais interior, mais revelador, que nos colocasse em causa ao que eramos e pensávamos ser. Eu pessoalmente procurava o alento que me faltava para a minha missão, ou pelo menos para a missão que eu julgava ter.
Como combinado, antes do por do sol voltamos à pirâmide da Escola dos Guerreiros da Benevolência. Chai Len mandou evacuar toda a ala para ficarmos a sós. Subimos até ao terraço do sétimo andar. Que momento épico. Enquanto o sol se punha um crepúsculo laranja tomou conta do horizonte. Ao longe, centenas de garças contornavam a Grande Muralha. Era um daqueles momentos de privilégio em que a Natureza e os elementos se conectavam. Sentia o meu Ki vivo.
Entretanto o sol pôs-se e Chai Len acendeu uma pira com fogo. Entretanto tomou a palavra:
- Amigos, posso agora falar-vos sobre a minha visão sobre o que é a Coexistência. Mas aviso-vos que esta visão é a do meu coração a falar… Como este por do sol, a vida obedece às leis da transitoriedade e da impermanência. Verdades como a perda e a dor são inevitáveis, mas são transitórias. Privilégios como este por do sol ou um grande amor são também eles momentos que acabarão na finitude dos nossos dias. Num mundo condicional os nossos apegos cegam-nos e esmagam-nos, não nos trazem bem nenhum. Podes encarar estas contingências como assustadoras ou paralisantes ou então como aventureiras, belas e cativantes. Tudo se resume à postura que assumes no guerreiro que escolheste ser. Quando entendes as leis da transitoriedade e da impermanência, a vida fica mais simples, clara e verdadeira.
Para mim e Goe este era um momento revelador. Ambos eramos vítimas do nosso apego. Chai Len parecia ter lido os nossos corações e compreendido ao que íamos.
Convidou-nos a ficar por uns dias a treinar com os Guerreiros da Benevolência, convite que aceitamos.
Depois de três dias de intensa meditação e treinos de combate despedimo-nos cordialmente. Chai Len lembrou-nos que tínhamos agora nele um amigo. Era finalmente altura de viajar até à Cidade Proibida e meditar junto da Fonte Viva. Deixou-nos uma carta de recomendação para termos acesso facilitado à Fonte Viva. Esta carta viria a ser muito útil.
Mas essa história fica para o próximo capítulo.
