Décimo dia por terras de Zhao. Depois de dois dias de caminho avistávamos finalmente a Cidade Proibida, também conhecida como Pandong.
Tinham sido dias muito intensos. Convido todos as lerem os três capítulos anteriores para recordarem cada um dos nossos passos até esta etapa.
O motivo pelo qual tinha feito esta viajem tinha chegado. Vinha em busca da Fonte Viva, o local onde a energia Ki (a energia da vida que interconecta todos os seres vivos) mais se fazia sentir.
Como vos contei, durante o meu treino de aprendiz e mestre da Ordem dos Cavaleiros do Poder, a parte mais exigente do caminho foi revelar o meu Ki, a capacidade de me conectar com os elementos, com a Natureza, com a essência da Vida.
Sentia o meu alento amargurado, preso às ilusões do que era. Reequilibrar o meu Ki era mais que necessário.
Eu e Goe fomos autorizados a entrar no Templo da Fonte Viva, no extremo sul da Cidade Proibida. Era um edifício majestoso, todo em jade. Tinha a forma de uma meia lua invertida. Mas o templo era apenas a entrada para a Montanha Viva, a verdadeira localização da Fonte Viva. Depois era preciso subir mais de cinco mil degraus até à Fonte e a sua nascente. Tínhamos, no entanto, de esperar a nossa vez. Podiam ser horas, até dias. Levamos uma carta de recomendação de Mestre Chai Len na esperança de apressar o processo.
Mas como é que nos conectamos com a Fonte Viva? Chegados à fonte somos convidados a sentar-nos em posição de lótus de frente para a sua nascente. Nessa altura somos envolvidos na chamada Cerimónia do Chá da Revelação. É-nos servido por um dos sacerdotes chá de jasmim nascido nas imediações da fonte. A água do chá e da própria fonte. Depois de o bebermos os Sacerdotes entoam em forma de mantra os códices sagrados de Pandong, inscritos nos pergaminhos antigos das Leis da Coexistência. Nesse momento entramos em transe e o nosso Ki entrelaça-se com a energia Ki da fonte levando a nossa mente para os recantos menos expectáveis. Entramos num mundo paralelo que nos revela as personagens, lições e memórias que precisamos de rever para reequilibrar o nosso Ki.
Tivemos de esperar algum tempo. Quando autorizados elevamo-nos montanha acima. Chegados ao topo, um jardim luxuriante de ébanos abria uma clareira até à fonte. Chegados aquele lugar sagrado o silêncio era total. Ao contrário do que possam imaginar a Fonte Viva era austera e pequena, sem muitos detalhes. Era possível sentir a brutalidade da energia Ki e entrar-nos pelos poros. Era o momento. Praticamos todo o ritual exatamente como vos descrevi.
Ao fim do que parecia ter sido uma eternidade retiramo-nos. Estávamos muito cansados. Goe escorria algumas lágrimas. Eu estava titubeante, mas desperto.
De volta à Cidade Proibida, o silêncio imperava entre nós. Retiramo-nos para descansar numa hospedagem local.
Depois de um ligeiro jantar, nessa noite decidimos caminhar até à praça central da Cidade Proibida. Deitamo-nos nas suas imediações de olhos postos nas estrelas. Goe rompeu o silêncio:
- Meu amigo, que momento... Ainda parece que estou em frente à Fonte Viva. Não sei muito bem como descrever o que vivi. Revi a mulher que amo e a ansiedade que tanto nego. Ainda estou a tentar perceber o que me foi revelado. E tu?
Fraquejei uns segundos, mas partilhei o que havia sentido e vivido:
- Viajei para além do meu deserto. Vi a minha fraqueza em estado cru. Percebi que os recantos mais negros da minha mente guardam chagas do apego pelos que ainda se escondem nas sombras. São memórias dos que em tempos pensei amar. O vício continua a poluir a minha alma, a ansiedade pelo tempo que não passa continua presente. Quando me tentei focar na fonte da minha inquietude revivi uma tempestade emocional de traumas mal resolvidos, amores desalinhados e medos diminuídos. Perguntei-me, na minha história de Mestre e Aprendiz, quem fui eu, herói ou vilão? Nessa altura deu-se uma revelação. A minha velha Mestre, Karin, surgiu. À minha pergunta ela respondeu: “Há sempre mais que um lado para a mesma história. Não existe uma linha reta entre o que é certo e o que é errado, entre ser uma boa e má pessoa. Entre a boa e a má conduta. Existe um caminho feito escolhas, de ilusões e perdições, de caminhos curtos e longos, sobre histórias que nunca se resumem á forma como começam e acabam. No meio da estranha jornada é a história completa das memórias mais poderosas que irá perdurar, sejam elas boas ou más. O que importa é que o caminho continue rumo ao horizonte”.
Goe parecia sentir cada palavra que lhe dizia. Cada um de nós tinha revisto a sua finitude frente a frente. As conclusões ficavam para a jornada que ainda tínhamos de percorrer. Mas estávamos felizes.. porque o caminho continuava.
