A sombra que um dia revela a luz - Diários dos Viajantes do Tempo - Parte II

 


Quarto dia por Terras de Túria. Passei os últimos dias a treinar com Chiate a minha capacidade de viajar no Tempo através dos Oásis da Intemporalidade. Já havia tentado nos últimos dias, mas os resultados tinham sido uma profunda amargura e sentimento de incapacidade.

Precisava de reaprender a ouvir o coração do Tempo. Dizem só ser possível viajar no Tempo através dos Oásis da Intemporalidade aqueles que sabiam ouvir o Amor, o código que desvendava a linguagem do verdadeiro coração do Tempo. Mas essa história já vos havia contado no primeiro capítulo destes diários.

Foram dias de silêncio enquanto caminhávamos até Sulçuku, outro Oásis, um pouco mais pequeno que Ismire, mas mais denso e vasto na floresta. Pelo caminho parávamos, montávamos acampamento e meditávamos durante a noite fria. Em alguns exercícios ficava horas sobre temperaturas negativas a meditar à procura dos fantasmas que se escondiam nas boas histórias que achava ter vivido. Procurar as armadilhas da nossa felicidade pode ser uma boa forma de perceber como continuar a vivê-la.

Noutros exercícios cantávamos velhas canções de encantamento evocando os Espíritos da Natureza para nos acompanharem no caminho. Em alguns momentos parávamos para tentar ouvir a sua voz e o que os seus sussurros nos tinham a dizer.

Tínhamos finalmente chegado a Sulçuku. O caminho até ao seu espelho de água era hostil. Mas lá o fizemos. Montamos acampamento e esperamos que as estrelas iluminassem a noite.

Estava pronto para recomeçar. Fui para um ponto onde pudesse estar sozinho. Respirei fundo, senti o chão que pisava, fechei os olhos, deixei a brisa trespassar o meu corpo e mergulhei. Desta vez não forcei nada. Deixei que as águas me acolhessem e uma luz intensa começou a puxar-me. Do nada estava de volta às minhas lides de Mestre da Ordem dos Cavaleiros do Poder com Mestre Sims, meu velho aprendiz e agora conhecido como Mestre Chacal.

Estávamos a conversar sobre uma das suas aprendizas, Anai. Mestre Sims contava orgulhoso o seu percurso e como esta agora se tornara numa líder. Hoje era a conselheira chefe da sua tribo e liderava uma aldeia inteira. Era alguém sobre quem nunca havia dedicado real atenção e espaço.

Anai, no silêncio do fluxo do Tempo fez caminho. Quando outros foram libertando espaço ela foi crescendo em poder e consistência. Quando o Tempo dos outros terminou, o Tempo dela surgiu. Foi alguém que no silêncio ensurdecedor da competição cega conquistou a liberdade que poucos conseguiriam prever. Percebi naquele momento porque estava ali.

Não tinha sido capaz de ver o coração de Anai. O meu discernimento estava ocupado com a expectativa que havia criado por quem sabia, que de alguma forma, iria sempre partir. Deixei-me iludir pelos rótulos e magnetismo da felicidade aparente e ingénua.

Os rótulos da nossa felicidade fácil desviam o nosso discernimento, levantam fronteiras artificiais que não permitem ao nosso coração o tempo para ver o tempo de alguém que já estava a acontecer. Simplificando, somos tão tontos que nos esquecemos facilmente dos que caminham conosco em silêncio, sem espetacularidade, sem truques, mas que estiveram quase sempre lá, sem nos julgarem, só a caminhar conosco, nas sombras e nas horas de bom tempo. Quando olhamos para o lado, temos conosco quem não contávamos.

A conta do tempo é insondável. Não há como a prever ou descrever. Assim que a deixamos de fazer, sofremos menos, aceitamos as oportunidades e somos a nossa melhor versão porque vencemos a sombra da expectativa.

No nosso caminho vai sempre haver uma sombra que nos vai surpreender e apontar a luz que não fomos capazes de ver. Aceitar a nossa cegueira faz parte do nosso caminho de sabedoria.

Entretanto voltei da luz intensa e nadei de volta à superfície. Estava exausto, mas feliz por aquela revelação.