Sexto dia por Terras de Túria. Acabava de ter tido o meu primeiro sucesso nas viagens do Tempo através dos Oásis da Intemporalidade. Havia revisitado a história de Anai, aprendiza do meu amigo e antigo aprendiz, Mestre Sims.
Estava feliz por ter voltado a encontrar o foco e a naturalidade que os códigos da linguagem do amor personificam. Não apenas o amor pela pessoa que escolhemos ter ao nosso lado mas o amor por todos os seres vivos e pela beleza que a Mãe Natureza emana. O Amor era a chave para viajar entre eras e refúgios do passado. Mas desta vez queria viajar para o futuro.
Desta feita, Mestre Chiate (o amigo que me estava a orientar nesta jornada), levou-me até ao Oásis do Leste, Capdoc. Lá iriamos treinar a viagem ao tempo futuro.
Capdoc era um dos maiores oásis de Túria mas com uma floresta menos densa. O seu espelho de água era verde jade. Era conhecido pelo seu majestoso por do sol.
Seguimos o mesmo ritual dos outros dias. Esperamos a noite e as estrelas. Chiate ensinou-me o Furium, um mantra sagrado (cântico em código capaz de abrir portais, a consciência ou ativar poderes) que devia entoar para conseguir fazer imergir a minha aura em direção ao tempo futuro. Fui para um ponto onde pudesse estar sozinho. Respirei fundo, mais uma vez senti o chão que pisava, fechei os olhos, entoei o mantra sagrado, deixei a brisa trespassar o meu corpo e mergulhei. Novamente, deixei que as águas me acolhessem e uma luz intensa começou a puxar-me.
Fui levado para um lugar onde nunca havia estado, o Estreito do Fim do Mundo. Dei de caras com a minha versão um pouco mais velha. Não conseguia interagir, mas podia ver tudo aquilo que se estava a passar e o que estava a sentir.
Estava de viagem ao Estreito do Fim do Mundo, o limite do universo conhecido. Era noite. Estava sentado, debruçado sobre o mar sereno. Procurava os Alquimistas do Tempo. O motivo não estava claro. Nessa noite estava a sós à procura da constelação mais brilhante.
Conseguia ler o meu coração, estava numa fase de pouca fé, perdido nas armadilhas de me sentir a mais, pouco procurado e até ignorado. Estava a precisar daquele momento a sós. Uma constelação em particular captou a minha atenção. Foi tudo fortuito. Aconteceu quando achava estar a acompanhar uma estrela cadente.
Era a constelação de Metland. Metland era uma velha divindade dos tempos apagados da memória humana. Reza a lenda que a deusa era a Guardiã da Serenidade. Guerreira destemida e intuitiva, apesar da sua coragem, vivia no silêncio. Fazia acontecer encontros ocasionais para que os deuses desavindos voltassem à paz. Tinha a capacidade de sentir o medo e a saudade dos humanos e era adorada, na antiguidade, por ser a deusa que abria as portas da eternidade para as almas de bondade escondida.
Os velhos viajantes pediam a Metland a serenidade para prosseguir caminho, que era aquilo que aparentemente procurava. O meu eu do futuro parecia pouco crente, mas acabou por fazer o mesmo. Depois daquele momento vi-me partir não sei bem para que direção.
Quando voltei a recuperar os sentidos e já de volta à superfície, pensei no que tinha visto. Percebia que no futuro, o sentimento repetitivo de me sentir a mais não iria desaparecer. Mas agora tinha a constelação de Metland a apontar o futuro. Por hoje, abraço Metland, esse futuro que nos espera, de um tempo incapaz de ser lido pelos humanos, só compreendido por quem deixa espaço para o espelho da alma refletir a sua melhor versão. É para essa aventura que quero partir.
Lembrei então algo que disse ao meu aprendiz Yber à muitas épocas anuais atrás:
- Quando te perderes nas armadilhas da tua falta de sentido, a fé no que és e o que ainda podes ser, olha à volta, encontra o espaço que permite continuar a caminhar, caminha e o sentido, a fé e o que és voltarão. Se assim não fosse não haveria caminho, não haveria sentido.
