"Ser luz…" - Diários dos Viajantes do Tempo – Parte IV


Nono dia por Terras de Túria. Chiate, meu amigo e Mestre nas Artes da Meditação havia-me ensinado a viajar no Tempo através dos espelhos de água dos Oásis da Intemporalidade através da Linguagem que é o Amor.

Já tinha viajado ao passado e ao futuro, mas sem ser capaz de definir para onde ia. Agora queria que ele me ensinasse a rever momentos e pessoas chave. Queria ser capaz de reencontrar-me com alguns dos meus velhos Mestres. Chiate explicou-me que era possível, mas relembrou-me que quando viajava no Tempo através dos Oásis da Intemporalidade não seria capaz de interagir com ninguém. Apenas a minha aura era transportada. Eu não passaria de um espectador passivo. Relativamente ao tempo futuro, era impossível determinar sítios e pessoas. E como todos os futuros, tudo pode mudar a partir do momento em que achas que sabes o que aí vem.

Chiate ensinou-me o Futius, mantra (cântico que ecoamos para ativarmos um poder ou determinado nível de consciência) sagrado que te permite viajar para um determinado sítio ou rever alguém que consideras relevante. Voltamos a Ismire, Mãe dos Oásis do Norte.

Já com a noite intensa, busquei mais uma vez um ponto do espelho de água em que pudesse estar a sós. Hoje conseguia ver refletido sobre a água todo o universo estelar que me abrigava. Entrei em estado de meditação, entoei o Futius, lancei-me à água enquanto a minha mente continuava a ecoar o mantra e deixei que a luz intensa que se abria entre as águas profundas da lagoa me levasse.

Estava de volta aos meus dias de treino sobre as origens da Simbologia Milenar com Mestra Karin. Estávamos nas Montanhas de Valgrande nas Bibliotecas do Simbólico. A lição de hoje era sobre a importância de sermos luz. Estava eu e os meus velhos amigos Mizegui e Fran, também eles aprendizes de Karin naquela altura.

Fran perguntava:

- Mestra, o que queres dizer com a importância de sermos Luz? Referes-te à nossa boa conduta?

- Mais que isso Fran. Ser luz significa ser conexão com o fluxo da Vida. Quanto te criticarem, sê luz. Quando te tentarem desacreditar, sê luz. Quando desconfiarem de ti, sê luz. Quando te maltratarem, sê luz… É verdade que só te atacam enquanto fores luz… também é verdade que quando te apagas, ninguém te ataca, mas também a tua vida deixa de fluir, deixa de acontecer. Os outros têm medo da luz porque ela revela as sombras, desvenda o que não queriam que visses, desperta os poderes que não sabias que tinhas, faz-te perceber o verdadeiro significado de estar vivo.

Aquela memória fazia-me lembrar o que de forma natural, por vezes, fazia por esquecer. Tinha escolhido rever Karin, mas não esperava por este momento. Mas as suas palavras não ficaram por aqui. Ela acabou aquela dissertação desta forma:

- Ser luz é um fardo pesado. Mas é a única forma de vermos a liberdade, de sermos capazes de vencer o bom combate e sermos senhores das nossas contaminações e poderes. Só sendo luz algum dia viveremos o amor pleno, aquele que nos faz ter luz própria.

Depois daquele momento, comecei a sentir o corpo dormente. Percebia que estava a voltar ao mundo real. Quando recuperei os sentidos voltei à superfície, Chiate esperava-me.

Nessa noite a conversa durou horas perante uma fogueira plena. Chiate contou-me algumas das imensas viagens do tempo que havia feito. Eu contava-lhe o quanto aquela experiência me estava a marcar. Partilhava com ele que mais do que viagens no tempo, estava a iluminar recantos do meu consciente e inconsciente que havia apagado quase de propósito. Eu sei que é confuso, mas até a confusão faz parte da minha luz.