Diários de Ararat – O verdadeiro sentido da morte? – Parte II


Terceiro dia por terras de Ararat. Estava com os meus companheiros de caminho, Bottelli e Edh, de que vos falei no último capítulo destes diários.

A nossa demanda passava por escalar o Ararat, montanha com o mesmo nome destas terras. Pretendíamos conhecer os seus povos e aldeias e prestar homenagem a Olomon, um dos mais importantes Mestres da Ordem dos Cavaleiros do Poder. Era denominado como o Grande Mago Diplomata pelas suas habilidades de conciliação, concertação e negociação que trouxeram a paz a muitos dos territórios conhecidos.

Depois de Eravan, o próximo ponto de paragem seria Monti, na região de Gurnar, o que depois nos colocaria a 6 dias do topo de Ararat. Mas havia um motivo para lá parar. Conhecer a Ordem de Onor. Uma Ordem de guerreiros e estudiosos da Filosofia dos Elementos, fundada pelo Mestre com o mesmo nome. Estudavam a magia dos quatro elementos e como esta se fundia com a intuição e instinto humano.

Partimos a cavalo, a melhor forma de viajar por estas partes enquanto não começamos a enorme escalada. Em menos de meio dia chegamos a Monti.

Apresentamo-nos e fomos recebidos por Rosele e Ilercan, aprendizes de Onor que agora eram os regentes da Ordem de Onor. Ficamos lá dois dias.

No primeiro dia aprendemos a ler os sentidos do vento, o sussurrar da brisa e como eles nos indicavam os caminhos da montanha. Aprendemos ainda, na noite profunda, a falar com as estrelas e a deixar a nossa alma viajar pelo Cosmos de Ararat. Foram momentos de meditação intensos.

No segundo dia visitamos o Mausoléu de Onor, o personagem que havia dado sentido a estas terras perdidas. Aprendemos as principais lições que o seu legado havia deixado. Havia sido um guerreiro e filósofo.

Nas terras de Olomon, outros pensadores também haviam feito o seu caminho. Aprendemos o valor do silêncio, da vida vagarosa e da família como raiz da existência e pensamento. Mas houve sobretudo uma história que guardaremos para sempre.

Quando Onor estava para morrer mandou chamar os seus principais aprendizes e indicou-lhe os 3 desejos finais que pretendia ver realizados:

- Quando perecer e partir pretendo que na minha última viagem o meu sarcófago seja carregado apenas pelos melhores curandeiros. Depois, durante o caminho até à minha última morada carnal, espalhem toda a riqueza contável que ainda possa ter. Moedas, artigos de valor, toda a riqueza visível. Deem tudo. Por fim, deixem a minha mão suspensa aos elementos para que todos a testemunhem.

Os seus aprendizes não percebiam aqueles estranhos pedidos. Uma delas, Rosele, que nos havia recebido, quase que escandalizada, pediu explicações. Este deixou as palavras que ainda hoje definem a sua lenda:

- Minha Rosele, percebo as tuas dúvidas… Quero que os melhores curandeiros carreguem os meus restos mortais para mostrar que até os melhores cuidadores são incapazes perante a morte. Pretendo ver toda a minha riqueza física dispersa pelo meu último caminho para que todos os vivos percebam que todas riquezas permanecem no mundo visível. O que acumulamos não parte connosco. Por fim, quero que revelem as minhas mãos perante os elementos, perante o vento mensageiro, para que todos percebam que nascemos e partimos de mãos vazias. No final do caminho o que nos revela foi a forma como governamos o nosso Tempo.

Depois daqueles dias, esta viajem não era mais apenas sobre Olomon, também Onor havia ganho espaço nos nossos corações.

Próximo ponto de paragem, o Vale de Sevan, o último ponto antes da grande subida.