Diários de Ararat – Subir a montanha para ver ou ser visto? - Parte I

 


Por estes dias viajei para Ararat, Terra das Cinzas Sagradas, onde, segundo os velhos Mestres, habitavam as memórias desintegradas dos Deuses da Velha Era. Por outras palavras, Ararat era o território onde a verdade variava de aldeia para aldeia, uma terra sem dono, um território onde a noção de liberdade esbatia com o conceito de destino.

Encravada num vale de grande altitude nas montanhas mail altas de Ethérnia, Ararat era também o nome da enorme montanha que fazia sombra ao extenso vale com o mesmo nome. Com mais de cinco mil metros de altitude, era a casa do Templo de Olomon, o maior Mestre das Artes da Diplomacia em toda a realidade conhecida.

A minha missão era escalar o Ararat, no caminho conhecer os seus povos e aldeias e prestar homenagem a Olomon.

Olomon tinha sido um havido negociador que havia ajudado a acabar com imensos conflitos por toda a Ethérnia e seria um dos primeiros Mestres da Ordem dos Cavaleiros do Poder. Ficou conhecido como o Grandes Mago Diplomata pelas suas capacidades de conciliar os líderes desavindos e chegar acordos impossíveis.

Mais tarde surgiria a Ordem dos Cavaleiros do Poder que hoje mantém a paz por Terras de Ethérnia.

Nesta viagem embarquei com Bottelli e Edh, amigos de longa data, também eles Mestres da Ordem dos Cavaleiros do Poder. Edh era o Mestre do Dragão da Montanha. Este era a voz da razão, calculista, matemático e negociador das causas impossíveis. Era calmo e pacífico. Era exímio na arte do combate corpo a corpo. Lia o adversário no campo de batalha como ninguém. Bottelli, Mestre Aprendiz da velha região de Tundra, uma das primeiras a chamar a si um nome, era também conhecido como o Guerreiro Poeta, pela forma apaixonada como via as suas missões e desafios.

Eram os companheiros ideais para esta viajem intemporal de aprendizagem e gratidão à história que nos havia trazido até aqui.

O nosso primeiro ponto de paragem seria Eravan, aldeia mãe de Ararat e ponto de entrada para estas paragens. Nessa noite ficaríamos em casa de Tigran, Mestre Livreiro amigo de Bottelli.

Nessa noite em frente à lareira contávamos a Tigran o que pretendíamos e ao que vínhamos. Tigran tinha sido aprendiz de Olomon e contava-nos como este o expulsara do seu Clã. Tigran contava-nos que havia sido um jovem aprendiz imprudente, egoísta e pouco dado a altruísmos. Hoje arrependia-se da sua pouca paciência, fraca assertividade e lógicas duvidosas. Perante a sua mágoa questionei-o em forma de metáfora:

- Afinal o que correu mal enquanto subias a montanha? Porque é que Olomon desistiu de ti?

- É uma boa pergunta. Hoje já não penso no que correu mal, penso no que aprendi. Sempre que volto a esta história a alguém digo sempre “não subas a montanha para que o mundo te veja, sobe a montanha para que vejas o mundo.”

Passamos o resto da noite verificar as rotas que iriamos traçar nos dias seguintes. Depois de Eravan seguia-se Gurnar.