Diários de Ararat – “Mergulho ao Inferno da Aurora” – Parte III

 


Quinto dia por terras de Ararat, mais precisamente no Vale de Sevan. Relembrando, estava com Bottelli e Edh, velhos amigos de caminhada.

Os primeiros dias tinham sido passados em Eravan, aldeia mãe de Ararat e local de entrada para estas terras. Ficamos em casa de Tigran, Mestre Livreiro amigo de Bottelli.

Nos dias seguintes, na região de Gurnar, paramos em Monti, para conhecer a Ordem de Onor. Agora, em Sevan, fazíamos um último ponto de paragem antes de alcançarmos o topo de Ararat e a casa do Templo de Olomon, o maior Mestre das Artes da Diplomacia em todo o universo reconhecido pelos homens. Ele e a sua história eram o motivo que nos trazia aqui.

Sevan conheceu o seu nome do velho lago que alimentava a vida por estas paragens. Durante a nossa paragem técnica acampamos na aldeia de pescadores de Geghard, na costa do Sevan. Montamos a tenda e acendemos uma fogueira para passar a noite.

Durante a noite tivemos o privilégio de assistir a um estranho ritual, o “Mergulho ao Inferno da Aurora”. Era noite de Lua Plena. Rezava a lenda por estas paragens que um mergulho no Sevan em noite de Lua Plena era o “Mergulho ao Inferno da Aurora”, um mergulho capaz de limpar os pecados mais impregnados na nossa alma. A noite de Lua Plena era um fenómeno raro, por isso estávamos com muita sorte. Mais que uma tradição secular ou monástica, esta era sobretudo uma tradição dos povos destas paragens. Não era reconhecida pelas ordens guerreiras ou clericais destes territórios. A sua veracidade e funcionalidade era questionável.

À nossa frente, dezenas de pessoas, pescadores, guerreiros, ermitas, deixavam-se mergulhar nas águas do Sevan na esperança de limpar a sua alma.

Nessa noite partilhamos a nossa refeição com alguns pescadores, entre eles, Makath, um dos chefes da aldeia de Geghard. Enquanto falávamos do ritual do “Mergulho ao Inferno da Aurora” e o que significava, Makath contava como havia sido a sua experiência:

- Meus amigos, a última vez que mergulhei em noite de Lua Plena queria despir-me das minhas deceções. Mergulhei na esperança de voltar na leveza que nunca cheguei a encontrar. Quando regressei o inferno continuava por cá, aurora após aurora.

- Mas se o ritual é uma fraude, porque é que continuam a alimentar a tradição? – Questionou Edh.

Makath sorriu e respondeu serenamente:

- Fraude ou não, é uma escolha que cada um tem acreditar na tradição. Comigo não funcionou. Aprendi com as artes da pesca a disciplinar as deceções, a não permitir que elas cresçam e dessa forma tomem conta do que há de bom. Para tantas gerações continuarem este caminho alguma verdade o ritual terá… Só sei que se o mergulho não é real, pelo menos o inferno é, e esse ninguém pode negar.

- E o que é que inferno te ensinou? – questionei.

- Sabes meu novo amigo, a vantagem de quem já passou pelo inferno é a de decorar o caminho da saída.

Estas palavras eram no mínimo elucidativas. Era mais um momento que marcaria a nossa jornada até ao topo do Ararat. Estávamos agora a poucos dias do nosso destino final.