A hora da jornada final até ao topo do Ararat tinha chegado.
Como vos tinha contado, Ararat era a Terra das Cinzas Sagradas, onde ainda era possível ouvir os murmúrios da Velha Era, apenas retratada em manuscritos perdidos dos velhos Mestres. Perdida num vale de grande altitude nas montanhas mais altas de Ethérnia, Ararat era também o nome da maior de todas elas.
Após dias de intensas aventuras, ali estava o topo do Aratat e o nosso objetivo final, o Templo de Olomon. Olomon era o mais importante Mestre das Artes da Diplomacia. Tinha sido um exímio negociador que havia ajudado a acabar com inúmeras disputas e guerras. Havia sido também um dos mestres que daria origem à Ordem dos Cavaleiros do Poder. Denominaram-no como o Grandes Mago Diplomata pela sua habilidade de levar ao consenso os mais execráveis oponentes e estabelecer pactos considerados impossíveis.
Nesta demanda, Bottelli e Edh, amigos de sempre, foram os companheiros de aventuras.
Depois de dois dias de intensa escalada e já para lá do que achávamos ser possível fisicamente, lá estava o imponente cume do Ararat e bem no centro, em mármore branco que nos incandescia os olhos pela sumptuosa luz do Sol, o Templo de Olomon.
Em frente ao Templo havia um majestoso jardim de árvores despidas cor de jade escurecido que faziam uma espécie de túnel até à entrada. Nesta, dois aparentes guardas desarmados tomavam conta do portão principal. Eram na realidade Oráculos de Olomon, Mestres da Adivinhação e Visão Profunda. Para entrares no Templo de Olomon deves deixar uma oferenda à entrada que indique ao que vens. Depois de as colocares, cabe aos Oráculos de Olomon verificar se podes ou não entrar.
Eu, Edh e Bottelli deixamos cada um, um livro e uma pedra preciosa. Eram itens valiosos para nós, mas cabia ao Oráculos avaliar. Foi então que um dos Oráculos nos questionou:
- Podeis entrar, mas antes deixo-vos uma pergunta para os vossos corações responderem. Muitos vêm cá e procuram a mudança, outros mudar, o que é que vocês procuram?
Ficamos um pouco tensos com aquele convite à introspeção. Mas fazia parte. Sem devaneios, avançamos sem regatear.
Um dos Oráculos encaminhou-nos. Enquanto passávamos pelos vários salões era possível ver enorme estantes com milhares de livros. Nos corredores estavam outros Oráculos que pintavam, meditavam, outros tiravam apontamentos de enormes livros, outros ainda trabalhavam com estranhos aparelhos que não conseguíamos descodificar. Fomos levados até uma enorme varanda com vista para o grande Vale de Ararat. Fomos convidados a esperar.
Algumas horas passaram até que se dirigiu a nós Vates, herdeira de Olomon e a Sacerdotisa Mor do Templo de Olomon. Saudou-nos:
- Bem vindos forasteiros, o Templo de Olomon é a vossa casa.
- Agradecemos a hospitalidade Sacerdotisa Mor. Queríamos pedir a vossa permissão para estudar os ensinamentos de Olomon. Foi com este propósito que nos aventuramos em Ararat. – pedi com humildade.
- Não precisamos destas cerimónias Mestre Abraham, podeis acomodar-vos o tempo que for necessário. Espero que o testemunho e ensinamentos de Olomon vos inspirem para tudo o que ainda está para vir.
Nos dias seguintes podemos estudar os escritos de Olomon, praticar as artes meditativas dos Oráculos e apreciar o majestoso nascer do Sol do alto de Ararat.
Num desses dias, pelo final da tarde, Vates convidou-me para o ritual do chá. Aí questionou-me:
- Abraham, Mestre Dragão de Fogo, o que te ensinou Olomon por estes dias?
Era uma pergunta muito difícil de responder. Tinham sido muitas horas de leitura e meditação mística com base nos ensinamentos de Olomon. Mas um havia tomado conta da minha atenção:
- Determinar Olomon em poucas palavras é impossível, mas há um ensinamento que me fez refletir no que sou. Foi o princípio do Caminho Infinito. Olomon explica que a nossa mente enquanto sonha, no nosso cosmos, o universo não para, é um caminho infinito em que fluimos de forma livre e continua. Com treino, disciplina e meditação somos capazes de viajar nele, reordenar o nosso espaço e tempo cósmico e até mesmo cruzar o nosso cosmos com o cosmos de outros viajantes cósmicos. Ele acredita que é daí que nasce a criatividade e a insatisfação permanente. A maior parte dos humanos nunca chega a perceber esta dimensão. Ele escreve que são aqueles que procuram viver o Caminho Infinito na vida real e tangível de forma consciente que mais sofrem com a insatisfação permanente, com a ansiedade de dar corpo aos sonhos. Alguns são apelidados de loucos, inconstantes e hiperativos. Na realidade são apenas guerreiros que nunca souberam usar os seus dons. Para esta maleita, Olomon ensina-nos a por em prática o poder da paciência, disciplina e consistência. Ensina ainda o valor de fechar um ciclo para abrir outro, de terminar a tarefa para poder começar outra, seja ela grande ou pequena. Desta forma, com tempo, a insatisfação permanente dá origem ao autoconhecimento e nenhuma experiência é dada como perdida e a criatividade tornasse na chave para abrir as portas que ainda não sabíamos que ali estavam.
Vates ouviu com atenção a minha reflexão e completou:
- Palavras sábias, Mestre Abraham. Para te completar, lembro só que Olomon também nos ensinou que aceitar o Caminho Infinito é perceber que nunca pararemos de procurar, de duvidar e de fazer acontecer. Ele lembra que mais importante do que começar todos os dias, é que que o nosso horizonte também é infinito todos os dias.
Percebia bem o que Vates me dizia. Naqueles dias havia encontrado a desculpa perfeita para a minha insatisfação permanente, pelo menos gostava de acreditar nisso. Um dia depois despedimo-nos de Vates e do seu séquito. Era hora de voltar a casa.
